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A lista de Mendes
O
reconhecimento tardio do cônsul português que
salvou 30.000 vidas das garras do nazismo
A cidade francesa
de Bordeaux tinha-se transformado em um beco sem saída
para a multidão que se refugiava do avanço do Exército
alemão em junho de 1940. A única saída era pela
fronteira com a Espanha mas os vistos eram
sistematicamente negados. Foi nesse ambiente de caos e
desespero que o cônsul português Aristides de Sousa
Mendes se pôs a emitir visto de entrada em Portugal a
qualquer um que pedisse. Durante dias de esforço
frenético, ele despachou numa mesa instalada em plena
rua e transportou pessoalmente refugiados até a
fronteira. Salvou 30.000 pessoas, incluindo 10.000
judeus. O desafio arruinou-lhe a carreira, mas o colocou
numa restrita galeria de heróis da II Guerra, ao lado do
alemão Oskar Schindler e do diplomata sueco Raoul
Wallenberg, que salvou 20.000 judeus húngaros do
extermínio.
Entre os três,
Sousa Mendes é o menos conhecido, apesar de ter salvado
maior número de vidas. No mês passado, o livro Le
Juste de Bordeaux (O Justo de Bordeaux), escrito pelo
jornalista José-Alain Fralon, do jornal Le Monde,
fez justiça tardia à incrível história do diplomata
que morreu há 45 anos, na miséria, num convento
franciscano em Lisboa. "Ele foi responsável pela
maior operação de resgate empreendida por uma única
pessoa durante a barbárie nazista", diz o
historiador israelense Yehuda Bauer. Como Schindler, que
tinha até carteirinha do Partido Nazista, Sousa Mendes
havia sido até os 55 anos, quando eclodiu a II Guerra
Mundial, um funcionário fiel à ditadura de António de
Oliveira Salazar. Embora oficialmente neutro em relação
ao conflito, o salazarismo tinha algum parentesco
ideológico com o regime de Adolf Hitler e proibiu a
concessão de vistos para judeus e outras pessoas de
"nacionalidade incerta". Aristocrata com
catorze filhos, Sousa Mendes passou por uma
transformação ao receber de Lisboa a negativa de visto
para um rabino que abrigara no próprio consulado.
Durante três dias,
Sousa Mendes se manteve recolhido em seu quarto, sem
falar com ninguém. O retiro se encerrou com a seguinte
conclusão: "De agora em diante, darei vistos a
todos. Não há mais nacionalidades, nem raças, nem
religiões". Em poucos dias, febrilmente, o
diplomata assinou milhares de passaportes. Estranhamente,
foi a diplomacia inglesa que se queixou do cônsul que
desafiava o protocolo diplomático trabalhando fora de
hora e em locais impróprios. A ditadura salazarista
chamou-o de volta. Mesmo a caminho de casa, Sousa Mendes
continuou a distribuir vistos, às vezes quando os
nazistas já estavam nos calcanhares de suas vítimas. Em
Portugal, o diplomata foi forçado ao exílio interno
até morrer. Finda a ditadura, em 1974, a campanha por
sua reabilitação só se concluiu em 1988, quando o
Parlamento o livrou dos opróbrios lançados em seu
currículo pelos inquisidores de Salazar. Hoje, um bosque
com 30.000 árvores o homenageia em Jerusalém,
simbolizando cada uma das vidas que salvou. Em parte, o
esquecimento em torno do heroísmo de Sousa Mendes se
deve a ele mesmo. Católico fervoroso, julgava ter apenas
agido segundo sua consciência e, com esse argumento,
recusou a notoriedade.

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