Diogo Mainardi
Os moluscos do Brasil
"Aqui, Claude Lévi-Strauss descobriu o homem reduzido
à sua condição de molusco. Perseguido pelo nazismo
na
II
Guerra Mundial, ele tentou refugiar-se no país,
mas Getúlio Vargas,
o molusco que naquele tempo
presidia o Brasil, fechou-lhe as portas"
Claude Lévi-Strauss descobriu o Brasil. O Brasil é
assim mesmo: é descoberto e redescoberto continuamente, desde 1500. Se
os portugueses, em 1500, descobriram o Brasil seguindo a corrente marinha, Claude
Lévi-Strauss, quatro séculos mais tarde, em 1939, descobriu-o
seguindo a linha telegráfica do marechal Rondon, em Mato Grosso. Ali,
depois de se afastar da "escória de Cuiabá", ele encontrou
uma série de aldeias de índios em estado bruto, intocados pelos
costumes do homem branco. Em particular, os nambiquaras.
Num de seus ensaios antropológicos, Claude Lévi-Strauss
observou a indigência cultural dos nambiquaras e comparou-os a "uma
raça gigante de formigas". Eles se caracterizavam por ter orelhas
grandes, por embriagar-se com "chicha", por tocar uma música
de uma nota só, por entreter-se cuspindo no rosto uns dos outros e por
ignorar o estojo peniano devido à sua apatia sexual. Antes de Claude
Lévi-Strauss, o geógrafo Edgar Roquette-Pinto já comparara
os nambiquaras a "homens da Idade da Pedra", acrescentando que a "pneumatose
intestinal fá-los companheiros desagradáveis". E o presidente
dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, que passara por lá em 1914, acompanhado
pelo marechal Rondon, dissera que os nambiquaras eram "ingênuos e
ignorantes como animais domésticos".
O contato com os nambiquaras deprimiu Claude Lévi-Strauss.
Ele passou a se perguntar: "O que viemos fazer aqui? Com que esperança?
Com que finalidade?". Ele só conseguiu encontrar a resposta alguns
anos depois, quando estabeleceu as bases do estruturalismo: "O maior interesse
oferecido pelos nambiquaras é que nos defrontamos com uma das formas
de organização social e política mais simples que se possam
imaginar". E prosseguiu: "A diferente estrutura do aparelho digestivo
de homens, bois e moluscos não indica diferentes funções
de seus sistemas digestivos. A função é sempre a mesma,
podendo ser mais bem estudada e compreendida em suas formas mais simples, como
a de um molusco".
No Brasil, Claude Lévi-Strauss descobriu o homem reduzido
à sua condição de molusco. Perseguido pelo nazismo na II
Guerra Mundial, por ser judeu, ele tentou refugiar-se no país, mas Getúlio
Vargas, o molusco que naquele tempo presidia o Brasil, simplesmente lhe fechou
as portas. Claude Lévi-Strauss morreu na última semana. Setenta
anos depois de seu contato com os nambiquaras, seguindo a linha telegráfica
do marechal Rondon, nós ainda nos caracterizamos por tocar música
de uma nota só, por cuspir no rosto uns dos outros e por sofrer de pneumatose
intestinal. Nós ainda temos uma das formas de organização
social e política mais simples que se possam imaginar. E nós ainda
procuramos responder às mesmas perguntas: o que viemos fazer aqui? Com
que esperança? Com que finalidade?

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