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Home  »  Revistas  »  Edição 2138 / 11 de novembro de 2009


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Livros

Letras latinas, crimes cariocas

Embora o enredo policial de seu novo romance seja capenga,
Rubem Fonseca se mantém como o cronista mais perspicaz de uma
cidade onde bandidagem e civilização convivem promiscuamente


Jerônimo Teixeira

Zeca Fonseca
SÊNECA E A PISTOLA GLOCK
Rubem Fonseca: seu assassino charmoso é um retrato do Rio

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Mineiro de nascimento, Rubem Fonseca, de 84 anos, é o grande cronista da brutalidade do Rio de Janeiro. A imagem do cadáver desovado por traficantes cariocas em um carrinho de supermercado, que tanto chocou o Brasil no mês passado, poderia ter saído das páginas de Feliz Ano Novo ou O Cobrador, obras que o autor publicou nos anos 70. Seus contos e romances foram pioneiros em abandonar a figura romântica do malandro para substituí-lo pelo marginal – violento, amoral, sanguinário. Em O Seminarista (Agir; 184 páginas; 36,90 reais), seu 11º romance (que também será vendido pelo iPhone e pelo Kindle), o cenário ainda é o mesmo Rio sujo e bandido dos livros anteriores, no qual a grã-finagem convive promiscuamente com traficantes e contrabandistas. O protagonista, porém, deseja emendar seus modos: José é um assassino de aluguel que decide aposentar sua pistola Glock e levar uma vida pacífica ao lado de Kirsten, uma bela alemã radicada no Rio.

Com assassinatos de motivação imprecisa (há uma disputa por um CD com informações que poderiam incriminar um figurão, mas tudo fica mal explicado), o enredo policial de O Seminarista é meio desconjuntado. O que sustenta o livro é o herói típico de romance noir: durão, cínico, mas com uma queda sentimental por mulheres magras de seios pequenos. Ex-seminarista, José gosta de citar Cícero e Sêneca, no latim original, entre um crime e outro. E é claro que o passado que ele deseja superar cobrará seu tributo, levando-o a novos, piores crimes – incluindo mutilações e torturas de um barbarismo medieval. Nestes dias em que o Rio ocupa o noticiário primeiro como a sede da Olimpíada de 2016 e logo em seguida como a cidade sem lei onde a bandidagem derruba até helicóptero, Rubem Fonseca compôs, com seu ex-seminarista matador, mais um retrato sem retoques da cidade: charmosa, capaz de encantar os estrangeiros, mas com instintos ruins que não demoram a aflorar.

Medievo carioca

"Com o alicate eu puxei a língua para fora o máximo possível. Eu não sabia que uma língua puxada com força crescia daquele jeito, parecia-me ter uns trinta centímetros. Foi fácil decepá-la com a afiada faca da cozinha. (...) Senti um grande prazer ao notar o seu olhar aterrorizado. Apanhei o espelho e coloquei em frente ao rosto dele. ‘Olha, olha, você vai poder, pela última vez, intueri se in speculo, olhar-se no espelho. Porque vou arrancar os seus olhos."

Trecho de O Seminarista

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