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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Frankenstein e esfinge
ao mesmo tempo
O atual sistema
de eleição de deputado
caducou, mas o distrital
misto pode ser pior
O chamado voto distrital misto
tem sido apontado como uma das opções ao sistema proporcional
em vigor no Brasil para a eleição de deputados. Algo
tem mesmo de ser feito. O resultado da eleição para
a Câmara, com a consagração de mensaleiros,
sanguessugas, corruptos de outras especialidades e tipos exóticos,
representou a definitiva prova de que o sistema é ruinoso.
Pode-se apostar que o próximo Congresso será pior
que o atual, e o seguinte, pior ainda, segundo a lógica de
um sistema de comprovada excelência como valhacouto de bandidos
ou diversão de aventureiros. Mas adotar o voto distrital
misto é um equívoco. Nem se eliminam os defeitos do
sistema atual nem se aproveitam bem as vantagens do outro, além
de isto é o pior tornar o modo de eleger deputados
ainda mais incompreensível do que já é para
os eleitores.
A mudança no processo
de eleição, além do objetivo central de tentar
salvar da falência o sistema representativo, terá tanto
maior chance de êxito quanto for norteada por dois critérios,
um econômico, o outro de clareza. O econômico tem por
finalidade combater essa praga da democracia brasileira e pilar
da corrupção que é a eleição
cada vez mais cara. O da clareza exige ter sempre presente a necessidade
de fazer o eleitor entender o processo. O sistema proporcional,
tal qual aplicado no Brasil, desrespeita tanto a economia como a
clareza. O candidato a deputado tem como área de atuação
todo um estado, o que lhe multiplica os custos de campanha. Quanto
à clareza, o eleitor é desafiado por conceitos como
o de quociente eleitoral e armadilhas como crer que escolhe uma
pessoa, quando na verdade seu voto vai preferencialmente para o
partido.
O sistema misto resolve o primeiro
problema só em parte e agrava o segundo. Se por um lado reduz
os custos ao adotar o sistema distrital para metade dos deputados,
por outro deixa tudo como está para a outra metade. Mas estrago
mesmo é o que provoca com relação ao critério
da clareza. A Alemanha é a fonte de inspiração
do sistema misto mas a Alemanha é a Alemanha. Um alemão
é capaz de enfrentar uma página de Wittgenstein sem
tremer nas bases, e até de levar um problema de física
quântica para o piquenique. Uma velha anedota diz que, confrontado
pela escolha entre dois recintos, um indicando "Paraíso"
e o outro "Conferência sobre o paraíso", o alemão
optará pelo segundo. Povo assim tira de letra um sistema
que é proporcional e majoritário ao mesmo tempo. Já
o brasileiro... O regime democrático será tão
mais querido e defendido pela população quanto for
compreendido. Para que defender algo que não se entende?
Tanto o critério da economia
quanto o da clareza ficarão mais satisfeitos se se adotar
ou bem o sistema distrital puro ou bem o sistema proporcional levado
às últimas conseqüências, impondo-se o
voto nos partidos, que se apresentariam com listas fechadas de candidatos.
Na questão da economia, o sistema distrital oferece a vantagem
de se travar em unidades territoriais pequenas, poupando aos candidatos
a demasiada extensão de suas linhas de campanha, e o sistema
de listas fechadas oferece a de concentrar a despesa no partido.
Na questão da clareza, o sistema distrital elege o mais votado
e acabou, dentro da mesma e simples lógica majoritária
da eleição de presidente ou de governador, e o voto
em listas fechadas ajuda o eleitor a compreender que, se o sistema
proporcional foi feito para dar representação às
correntes de opinião, o decisivo é escolher um partido.
O voto distrital misto é um frankenstein dobrado em esfinge.
Além de monstrengo feito de peças incompatíveis,
impõe ao eleitor o enigma de entendê-lo ou ser devorado.
Com a agravante de que pobre eleitor é certo
que será devorado.
A bancada de deputados federais
eleita pelo PP de São Paulo ilustra as diabruras do atual
sistema. O mais votado, campeão de votos no país (739.827),
foi Paulo Maluf. No sistema distrital ele teria de se confrontar
com alguns poucos adversários, em determinado distrito, em
vez de esconder-se na fumaça dos 1.098 candidatos inscritos
em todo o estado para o mesmo posto. O segundo colocado, outro campeão
de votos (573.524), foi Celso Russomanno, e o terceiro (78.728 votos),
Vadão Gomes. Maluf dispensa apresentações.
Russomanno, segundo a ONG Transparência Brasil, responde a
processos por crime eleitoral e peculato. Contra Vadão Gomes
a mesma fonte enumera dois processos por improbidade administrativa
e um por sonegação. Entre os três outros membros
da bancada figura Aline Corrêa. Ela teve apenas 11.132 votos,
mas foi eleita graças a um sistema que, sem que o eleitor
saiba, leva em conta em primeiro lugar os votos no partido. Aline
Corrêa é filha do ex-deputado Pedro Corrêa, um
dos poucos cassados da turma de mensaleiros. Ela e o pai foram investigados
na CPI da Pirataria. Contra Aline pesa processo por sonegação.
Agora, assim como os colegas de bancada (eta turminha braba), tem
a imunidade parlamentar a protegê-la.
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