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Música
Tudo velho no novo gótico
Amy Lee é a musa do pessoal que recicla
a cosmética de bandas dos anos 70

Sérgio Martins
Divulgação
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| Amy, do Evanescence: uma legião de adoradores
graças às letras tristonhas e à pose fashion |
Amy Lee tinha 15 anos quando mostrou
ao mundo sua, por assim dizer, arte. Sua mãe leu os poemas
que a filha escrevia às escondidas e ficou horrorizada
caso para acompanhamento com psiquiatra ou, pelo menos, uma receita
de antidepressivos, sugeriu ela. Amy fez melhor: passou a ganhar
dinheiro com seus versos. Juntou sua melancolia à do guitarrista
Ben Moody e criou o Evanescence, que em 2003 vendeu 14 milhões
de cópias (250.000 delas no Brasil) de Fallen, seu
álbum de estréia, e ajudou a consolidar a popularidade
dos tais neogóticos. O movimento (se é que se trata
de um), como o nome já esclarece, recicla a cartilha das
bandas góticas dos anos 70 o Bauhaus principalmente
, nascidas como uma versão mais angustiada do punk.
Não que os grupos originais fossem, assim, renovadores do
existencialismo. Mas tinham lá suas pretensões artísticas.
Os góticos de hoje, ao contrário, se dão por
satisfeitos em pescar influências do heavy metal e dos clássicos
mais batidos, e em carregar na maquiagem e na atitude sombria. Em
todos esses sentidos, The Open Door, o segundo disco do Evanescence,
que chega às lojas brasileiras nesta semana, é um
exemplo consumado de neogótico.
Amy Lee, 24 anos, fornece em
suas entrevistas o bê-á-bá do gótico
reformatado. Diz que é angustiada e não se sente confortável
com o mundo. A adolescência, segundo ela, foi "um inferno"
(e a de quem não foi?). Amy era hostilizada pelas colegas
de classe porque se vestia de preto e não tinha paciência
para esportes. Seu único amigo era Ben Moody, que compartilhava
o gosto pela música. Compor, afirma Amy, passou a servir
como forma de expor seus problemas. A julgar por suas letras, eles
incluiriam romances abusivos e tentativas de suicídio
o que pode ser exagero, já que de sua biografia constam apenas
as turbulências comuns aos pop stars. Moody, com quem Amy
teve um namoro complicado, largou a banda no meio da turnê
do primeiro disco. Seu substituto foi internado por causa de um
problema de saúde, e no ano passado Amy dispensou um namorado
por causa do seu vício em drogas pesadas. Não há
nada nessa trajetória simplezinha, enfim, que diferencie
Amy de tantos outros jovens ídolos da categoria de, digamos,
Avril Lavigne (que, aliás, recrutou Moody para tocar em seu
último CD).
O que conduz à conclusão
de que ser neogótico é uma questão mais de
cosmética do que de filosofia. Amy e seus colegas abusam
do lápis preto nos olhos e das roupas escuras, mas não
estão em busca de uma explicação para os componentes
aleatórios da existência. Nem sequer se exige mais
dos adeptos do movimento que freqüentem cemitérios e
contemplem o estatuário fúnebre como forma de apreciar
a finitude humana. Amy jura, por exemplo, que a canção
Lacrymosa é inspirada no monumentalmente soturno Réquiem
de Mozart, mas nem o próprio seria capaz de adivinhar ali
sua influência. Com seu som pesado e letras tristinhas, os
novos góticos ficam a meio caminho entre o heavy metal e
os "emos", aquele pessoal que acha que a vida é muito sem
graça. Ou seja, ficam no mesmo lugar em que o pop mediano
sempre esteve. Num lance impensável para um gótico
de carteirinha, inclusive, Amy anda feliz no amor. O eleito
O tempora! O mores! é ninguém menos
do que seu terapeuta.
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