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Edição 1977 . 11 de outubro de 2006

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Música
Tudo velho no novo gótico

Amy Lee é a musa do pessoal que recicla
a cosmética de bandas dos anos 70


Sérgio Martins


Divulgação
Amy, do Evanescence: uma legião de adoradores graças às letras tristonhas e à pose fashion


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Em comum, só o pretinho

Amy Lee tinha 15 anos quando mostrou ao mundo sua, por assim dizer, arte. Sua mãe leu os poemas que a filha escrevia às escondidas e ficou horrorizada – caso para acompanhamento com psiquiatra ou, pelo menos, uma receita de antidepressivos, sugeriu ela. Amy fez melhor: passou a ganhar dinheiro com seus versos. Juntou sua melancolia à do guitarrista Ben Moody e criou o Evanescence, que em 2003 vendeu 14 milhões de cópias (250.000 delas no Brasil) de Fallen, seu álbum de estréia, e ajudou a consolidar a popularidade dos tais neogóticos. O movimento (se é que se trata de um), como o nome já esclarece, recicla a cartilha das bandas góticas dos anos 70 – o Bauhaus principalmente –, nascidas como uma versão mais angustiada do punk. Não que os grupos originais fossem, assim, renovadores do existencialismo. Mas tinham lá suas pretensões artísticas. Os góticos de hoje, ao contrário, se dão por satisfeitos em pescar influências do heavy metal e dos clássicos mais batidos, e em carregar na maquiagem e na atitude sombria. Em todos esses sentidos, The Open Door, o segundo disco do Evanescence, que chega às lojas brasileiras nesta semana, é um exemplo consumado de neogótico.

Amy Lee, 24 anos, fornece em suas entrevistas o bê-á-bá do gótico reformatado. Diz que é angustiada e não se sente confortável com o mundo. A adolescência, segundo ela, foi "um inferno" (e a de quem não foi?). Amy era hostilizada pelas colegas de classe porque se vestia de preto e não tinha paciência para esportes. Seu único amigo era Ben Moody, que compartilhava o gosto pela música. Compor, afirma Amy, passou a servir como forma de expor seus problemas. A julgar por suas letras, eles incluiriam romances abusivos e tentativas de suicídio – o que pode ser exagero, já que de sua biografia constam apenas as turbulências comuns aos pop stars. Moody, com quem Amy teve um namoro complicado, largou a banda no meio da turnê do primeiro disco. Seu substituto foi internado por causa de um problema de saúde, e no ano passado Amy dispensou um namorado por causa do seu vício em drogas pesadas. Não há nada nessa trajetória simplezinha, enfim, que diferencie Amy de tantos outros jovens ídolos da categoria de, digamos, Avril Lavigne (que, aliás, recrutou Moody para tocar em seu último CD).

O que conduz à conclusão de que ser neogótico é uma questão mais de cosmética do que de filosofia. Amy e seus colegas abusam do lápis preto nos olhos e das roupas escuras, mas não estão em busca de uma explicação para os componentes aleatórios da existência. Nem sequer se exige mais dos adeptos do movimento que freqüentem cemitérios e contemplem o estatuário fúnebre como forma de apreciar a finitude humana. Amy jura, por exemplo, que a canção Lacrymosa é inspirada no monumentalmente soturno Réquiem de Mozart, mas nem o próprio seria capaz de adivinhar ali sua influência. Com seu som pesado e letras tristinhas, os novos góticos ficam a meio caminho entre o heavy metal e os "emos", aquele pessoal que acha que a vida é muito sem graça. Ou seja, ficam no mesmo lugar em que o pop mediano sempre esteve. Num lance impensável para um gótico de carteirinha, inclusive, Amy anda feliz no amor. O eleito – O tempora! O mores! – é ninguém menos do que seu terapeuta.

 
 
 
 
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