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Artigo: Reinaldo
Azevedo Governante bom é governante
chato "Precisamos de governantes chatos como
Fortimbrás, não de cretinos animados como Hamlet. Precisamos de
despachantes das instituições que façam prevalecer a lei
a despeito de suas inclinações emocionais, não de quem sacrifique
a legalidade sob o pretexto de praticar a igualdade"
Em política, como na vida, o irracionalismo, o discurso emocional, é
a ante-sala do crime e da tragédia. Faça-se a leitura que se quiser
de Hamlet, de Shakespeare, por exemplo, e uma constatação
é inescapável: o príncipe era um idiota dado a faniquitos.
Sua obsessão em denunciar o tio supostamente regicida ignora estratégias.
Polônio, que tenta lhe incutir algum senso de razão, acaba assassinado
acidentalmente pelo jovem estabanado. É o primeiro da carnificina promovida
pelo justiceiro. Perseguido pelo fantasma do pai, põe fim a uma dinastia.
Hamlet se deixava envenenar pelas palavras, pela imaginação, pela
alegoria: quando quer denunciar o tio, recorre a uma peça de teatro. Consumada
a desgraça, a Dinamarca será governada por Fortimbrás, o
príncipe norueguês, avesso ao temperamento do primo doidivanas: é
resoluto, maduro, realista e objetivo. Seu reinado não renderia tragédias.
É provável que obedecesse a uma rotina burocrática, pastosa
e quase cartorial. Acervo
pessoal
 | | Getúlio
Vargas: seu testamento e sua despedida são os "Evangelhos" da política como miséria
da razão |
Precisamos de governantes chatos
como Fortimbrás, não de cretinos animados como Hamlet. Precisamos
de despachantes das instituições que façam prevalecer a lei
a despeito de suas inclinações emocionais, não de quem sacrifique
a legalidade sob o pretexto de praticar a igualdade. Nota à margem: o intelectual
italiano Norberto Bobbio contribuiu de forma notável para o pensamento
liberal, mas escreveu uma bobagem pouco antes de morrer. Disse que a esquerda
se ocupa da justiça social e que a direita defende o statu quo.
Tolice. Esquerdista é quem aceita sacrificar a legalidade em nome de um
entendimento particular de justiça social, e direitista a direita
legalista é quem entende que só pode haver justiça
onde há respeito à lei democraticamente votada.
Lula não é um adolescente esguio e delirante. Mas não dispensa
a fantasia. Dia desses, num comício em Goiânia, confundindo o espírito
de porco do messianismo com uma manifestação do Espírito
Santo, disse que seu sangue e suas células já estavam no meio do
povo. Fiz o sinal-da-cruz contra essa transubstanciação macabra.
Ele perdeu o primeiro turno em Goiás: nem sempre os eleitores reconhecem
o messias a tempo, como nos revela o plebiscito mais famoso da história...
Em outra ocasião, o Cristo pagão assumiu as virtudes visionárias
de Tiradentes: sugeriu que queriam enforcá-lo e esquartejá-lo. O
homem tingia de sangue as suas cascatas alegóricas. Já se ofereceu
como o pai complacente de todos os brasileiros, em especial dos petistas pegos
em flagrante, os seus "meninos". O irracionalismo
costuma ser a rota de fuga dos políticos quando acossados pelos fatos.
Quem for procurar um de seus primeiros discursos vai encontrar uma promessa solene:
"Começamos a fazer o possível e, se der, vamos fazer até
o impossível". Não seria difícil demonstrar que ele conseguiu
inverter as prioridades... Depois de ouvir um dos delírios de Hamlet, o
sempre ponderado Polônio observou: "É maluquice, mas tem método".
O irracionalismo brasileiro começa a assumir características metódicas.
Parte da academia e do jornalismo aplaudiu aquela fala insana os mesmos
que vaiavam FHC quando este dizia que a política realiza a "utopia do possível".
A resposta acéfala ao então presidente
foi a seguinte: "Pô, mas o possível qualquer um faz; não precisa
de um intelectual da Sorbonne". Na proposição está a saída
para o Brasil e para qualquer país e, na estupidez da objeção,
a sua tragédia. Imaginem se Hamlet tivesse se proposto a seguinte questão:
"Como faço para depor o usurpador sem, no entanto, destruir o reino?".
Se o fizesse, seria um sábio. Como não o fez, preferiu ser um santo,
um mártir. Tanto é que pede a Horácio que não o siga
na morte para narrar o que viu. Hamlet queria sair da vida para entrar na história,
o bobalhão... Durante ao menos duas décadas
convivemos com uma expressão que era a chave de todos os enigmas: "vontade
política". Bastava tê-la, e as águas se abririam. A Constituição
de 1988, por exemplo, foi redigida sob a égide dessa impostura. O fato
de haver uma história que a explique não fornece uma razão
teórica que a justifique. A síntese prática da Carta poderia
ser assim definida: com a "vontade política", garantem-se os direitos;
com a retórica, os recursos. O texto constitucional incorporou o proselitismo
contra a ditadura e pôs no papel um país ingovernável. E cá
estamos nós, prestes a debater a terceira fase das reformas de um documento
que ainda não tem 20 anos. E, ao fazê-lo, mais uma vez todo o estoque
de irracionalismo será reciclado. É
esperar para ver: ai de quem tiver a ousadia de acusar o rombo na Previdência!
A matemática será conjurada como uma trapaça ideológica
das elites. A campanha eleitoral, arrastada pelo PT das páginas de política
para as de polícia, está prestes a satanizar as privatizações
do governo FHC. Pura tática de defesa. Servirá ao propósito
de tentar ocultar crimes. Pterodáctilos ideológicos e oportunistas
jogarão sobre as nossas cabeças expressões como "dilapidação
do patrimônio público", "empresas vendidas a preço de banana",
"entrega de nossas riquezas ao capital estrangeiro" etc. Pressionado pelas circunstâncias,
lá vai o petismo regredir à palhoça mental em que se formou.
A política feita no Brasil como razão
da miséria não poderia dar em outra coisa que não na miséria
da razão. Há dois textos que servem de "Evangelho" a essa patacoada:
a Carta-Testamento e a Carta de Despedida de Getúlio Vargas. Na primeira,
acusa: "Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se
novamente e se desencadeiam sobre mim". Na outra, o mesmo tom de quem se prepara
para ser o cordeiro do povo que tira os pecados do mundo: "Deixo à sanha
dos meus inimigos o legado da minha morte. Levo o pesar de não haver podido
fazer, por este bom e generoso povo brasileiro e principalmente pelos mais necessitados,
todo o bem que pretendia". Na primeira carta, o plágio não poderia
ser mais explícito ou escandaloso: "Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço
a minha morte". Se pudesse, teria escolhido a crucificação.
Poucos sabem: Getúlio também tinha o seu Horácio, aquele
encarregado por Hamlet de narrar os eventos macabros. A Carta-Testamento foi redigida
por um ghost-writer: José Soares Maciel Filho, que costumava escrever
os seus discursos. Cartas de suicidas são uma fala sem lugar. Vejam este
trecho: "Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam (...)".
Há, aí, ao mesmo tempo, gradação e antítese,
duas figuras retóricas. Que vaidade leva um cadáver adiado a cuidar
do estilo? Vai ver Maciel caprichou de tal sorte na farsa que Getúlio foi
obrigado a se matar só por uma questão de coerência narrativa...
Assim como Hamlet tinha visões, os assassinos
da razão na política, mesmo quando suicidas, têm ou fingem
delírios. Alguns dos clichês apontados pelo pensador francês
Raoul Girardet no livro Mitos e Mitologias Políticas são
empregados por Getúlio à farta nas duas cartas: ele queria oferecer
ao povo a Idade do Ouro, propunha-se a ser seu salvador, mas a conspiração
dos inimigos e das forças estrangeiras, alheias aos interesses da pátria,
o impediu e o empurrou para o sacrifício. Essa mentalidade, ante-sala dos
desastres institucionais, está sendo reciclada no Brasil mais de cinco
décadas depois. Acreditem em mim: em política, os chatos são
menos perigosos do que os intensos. O resto é
barulho. |