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Brasil
Uma vitória amarga A nova configuração
do Congresso mostra que o eleitorado rejeita desmandos éticos,
mas a faxina ainda não foi completa desta vez
 Diego
Escosteguy
A
reeleição de deputados mensaleiros, aliada à vitória
nas urnas de políticos que já chegaram a ser presos no curso do
processo, por corrupção, como Paulo Maluf e Neudo Campos, produziu
a sensação de que o eleitorado sofreu um apagão ético.
Mas, analisando-se a nova composição do Congresso Nacional de forma
mais minuciosa, percebe-se que a significativa maioria do eleitorado mandou um
recado claro: quer mudanças e não aceita a bandalheira que se viu
na atual legislatura. O repúdio das urnas aos desmandos éticos talvez
não tenha acontecido com a intensidade que muitos desejavam, embora tenha
sido expressivo. O índice de renovação da Câmara dos
Deputados, por exemplo, chegou a 46%. É a maior taxa de renovação
desde 1994, quando, sintomaticamente, o eleitor foi às urnas ainda sob
o impacto do impeachment de Fernando Collor e do escândalo dos anões
do Orçamento. A história eleitoral recente parece indicar que os
escândalos costumam ter repercussão no eleitorado, que amplia a lista
dos políticos encaminhados à aposentadoria. Infelizmente, porém,
não é capaz de promover mudanças saneadoras que façam
efetiva diferença para melhor na qualidade do Parlamento.
"O problema é que a taxa alta de renovação
não significa que haja mudança substancial na qualidade do Parlamento
que foi eleito", analisa o cientista político Octaciano Nogueira, da Universidade
de Brasília (UnB). Diante disso, é preciso esperar para ver como
a nova legislatura vai se comportar diante dos desafios óbvios que a esperam.
"Com algumas exceções, não sabemos como será o desempenho
desses novatos. É preciso aguardar as primeiras negociações
políticas", diz o cientista político David Fleischer, também
da UnB. As dúvidas, porém, devem-se mais ao comportamento individual
dos parlamentares eleitos do que às siglas a que pertencem pois,
apesar da renovação alta, a Câmara terá praticamente
a mesma correção de forças políticas. O PMDB, que
elegeu 75 deputados em 2002, conseguiu ultrapassar o PT e formou a maior bancada,
com 89 representantes. Apesar dos escândalos em série, o PT conseguiu
eleger 83 deputados, apenas 10% menos do que em 2002, e passou a ter a segunda
maior bancada. PSDB e PFL, as principais siglas de oposição
ao governo Lula, ficaram do mesmo tamanho, com 65 deputados cada uma.
A surpresa correu por conta do crescimento de partidos pequenos e médios.
O PPS, sucessor do velho partidão, tinha quinze deputados e agora ficará
com 21, cravando um crescimento de 40%. O Partido Verde, impulsionado pela estupenda
votação de Fernando Gabeira, que recebeu 293.000 votos no Rio de
Janeiro, fez ainda melhor. Mais que dobrou sua bancada: saltou de cinco para treze
deputados mas, mesmo assim, não conseguiu superar a cláusula
de barreira. No Senado, o PFL conseguiu desbancar o PMDB como o maior partido,
ao eleger seis representantes. Agora, o PFL tem dezoito senadores e o PMDB dezesseis,
mas ambos podem se igualar, caso a senadora Roseana Sarney vença as eleições
para o governo do Maranhão, pois seu suplente, Mauro Fecury, é do
PMDB. Seja qual for sua composição definitiva, o Congresso tem uma
missão clara pela frente: fazer a reforma política. Na avaliação
de Fernando Gabeira, "é uma questão de sobrevivência do Parlamento.
É preciso fazer a reforma logo de cara". |