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Edição 1977 . 11 de outubro de 2006

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Brasil | Eleições 2006
Agora é com a máquina

Atordoado com o segundo turno,
o candidato Lula engoliu o presidente Lula
– e a campanha engoliu o governo


Otávio Cabral

Paulo Whitaker/Reuters

PAZ E AMOR
Preocupado com uma derrota, Lula retoma o figurino "Lulinha paz e amor" que deu certo em 2002


A festa estava pronta. No comitê reeleitoral do presidente Lula em Brasília, os organizadores prepararam a comemoração da vitória – e não esqueceram de encomendar cinco caixas de champanhe. O presidente, depois de votar em São Bernardo do Campo, tomou o avião para Brasília e instalou-se no Palácio da Alvorada, onde recebeu aliados e ocupou-se até mesmo em estudar os principais pontos que deveria abordar no "discurso da vitória". Ainda que as pesquisas realizadas na véspera e no dia da eleição já não oferecessem segurança sobre o resultado final, Lula estava certo de que venceria a eleição no primeiro turno. Na noite de domingo, quando ficou claro que haveria mesmo uma segunda votação, o presidente recebeu o telefonema de um interlocutor e manifestou sua perplexidade. "Por essa eu não esperava. Tinha certeza de que liquidava tudo hoje", disse o presidente, conforme o relato do autor do telefonema. No dia seguinte, a primeira mudança provocada pelo segundo turno estava materializada: o presidente Lula, que quase ignorou sua agenda presidencial, fora engolido pelo candidato Lula – e o governo, com dezessete ministros arregaçando as mangas, fora engolido pela campanha.

Em sua primeira aparição pública depois do resultado oficial, o presidente já dera lugar ao candidato. Concedeu sua segunda entrevista coletiva em 45 meses de governo. Na entrevista, mostrou-se gentil e afável, voltando subitamente a vestir o figurino do "Lulinha paz e amor", que lhe rendeu a vitória em 2002. Com um semblante amistoso e gestos de humildade, Lula elogiou o povo brasileiro pelo "comportamento exemplar" nas eleições e, sem traço da arrogância de dias antes, quando chegou a garantir para a platéia num comício que estava eleito no primeiro turno, disse que não venceu porque lhe faltaram votos. Encerrada a entrevista, recolheu-se ao Palácio da Alvorada para uma série de reuniões. Conversou com pelo menos quinze colaboradores, entre ministros e parlamentares, durante seis horas ininterruptas. "Bateu um susto no Lula e em todos nós", admite o deputado Eunício Oliveira (PMDB-CE), ex-ministro das Comunicações. "Fomos para um segundo turno difícil, teremos trabalho demais e não poderemos errar."

A primeira providência do candidato Lula foi trocar o comando de sua campanha – é a segunda mudança em duas semanas. Na primeira, saiu Ricardo Berzoini, o presidente do PT sob cujas barbas a turma petista armou a bandalheira da compra com dinheiro sujo do falso dossiê contra tucanos, e entrou Marco Aurélio Garcia, assessor internacional do presidente. Agora, Marco Aurélio Garcia fica no posto de coordenador, mas o comando da campanha passa às mãos de gente que entende mais de eleição: Jaques Wagner, governador eleito da Bahia, Marcelo Déda, também eleito para o governo de Sergipe, e a ex-prefeita Marta Suplicy, que não concorreu a nada mas apoiou dez candidatos do PT. Todos foram eleitos. A outra providência foi convocar o governo inteiro para a campanha. Na quarta-feira, dezessete ministros fizeram uma reunião na casa do colega Hélio Costa, das Comunicações, em Brasília. No encontro, que durou três horas, a equipe ministerial compilou mais de 200 dados comparativos entre o governo atual e o anterior. Os dados ajudarão o candidato nos programas de rádio e TV e nos debates – sim, Lula agora vai aos debates.

 

Dida Sampaio/AE

NO OLHO DA RUA
Reunião de ministros na casa de Hélio Costa (acima) e a nova chefe da campanha petista em São Paulo, Marta Suplicy (abaixo, à dir.): "Se Alckmin ganhar, todos nós estaremos na rua", disse o ministro, para motivar os colegas

Sergio Castro/AE

O auxílio mais temerário, porque rompe com o compromisso de austeridade, veio do Ministério do Planejamento. O ministro Paulo Bernardo cancelou um corte orçamentário de 1,6 bilhão de reais (que fora feito antes do primeiro turno) e anunciou a liberação de 1,5 bilhão de reais (agora que haverá segundo turno). Uma parte dos recursos – 230 milhões de reais – será usada em obras do Ministério dos Transportes, principalmente em estados onde Lula teve um desempenho inferior ao de Alckmin. Outros 19 milhões de reais serão destinados à criação de um centro de combate ao crime organizado em São Paulo, tema que preocupa os eleitores paulistanos. Nesta semana, o ministro da Agricultura, Luís Carlos Guedes Pinto, fará reunião com dirigentes dos setores agrícola e pecuário para anunciar programas para um eventual segundo governo petista. Lula teve um desempenho pífio nos estados onde a agricultura é importante, como nos da região Centro-Oeste e no Rio Grande do Sul – onde o petista Olívio Dutra disputará o segundo turno com a tucana Yeda Crusius.

Com o presidente cedendo espaço ao candidato e o governo virando bunker de campanha, pode-se ter a impressão de que Lula sabe como caminhar até 29 de outubro. É um equívoco. Sua campanha recomeçou no tranco, porque não esperava ter de disputar o segundo turno. Por enquanto é tudo fumaça e espelhos. Com muita estridência e apenas esperança de resultado. Há um consenso entre os dirigentes petistas de que o segundo turno é resultado do escândalo do dossiê e da ausência do presidente no debate na Rede Globo – porque os dois tiraram o ânimo da militância. Na avaliação dos petistas, a militância sentiu o golpe do dossiê, ficou envergonhada com a dinheirama de reais e dólares e não achou argumentos para explicar o ocorrido. Quando Lula deixou de ir ao debate, a ausência de explicação ficou patente, deixando a militância duplamente órfã. A conjunção dos dois fatores, aliada à sucessão de escândalos que o PT vem patrocinando, talvez explique a ausência dos petistas e suas bandeiras vermelhas no dia da eleição. O problema é que a campanha de Lula não tem uma estratégia clara para colocar os petistas de volta na rua – nem para ganhar os votos necessários para vencer no dia 29 de outubro.

Nas reuniões da semana passada, houve um chafariz de opiniões. O ex-ministro Ciro Gomes, do PSB do Ceará, revigorado ao receber a maior votação proporcional para deputado federal no país, defende que Lula priorize cada vez mais os pobres, radicalizando a divisão que já vinha fazendo. O ministro Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, tem dito o contrário, supondo que Lula deve voltar-se para a classe média e tentar reconquistar os votos que perdeu. O deputado Aldo Rebelo, presidente da Câmara, tem uma terceira opinião e acha que Lula precisa mesmo é levantar a bandeira da ética – isso mesmo – e rememorar as máculas do governo tucano. Sem definir uma estratégia, e ainda atordoado com o susto do segundo turno, Lula resolveu abraçar todas as sugestões: falar aos pobres e agradar à classe média, empunhar a bandeira da ética e criticar os tucanos. Ao seu lado, petistas e aliados tentam se motivar para a campanha. Talvez a melhor idéia para motivá-los tenha partido do ministro Hélio Costa, na reunião com seus colegas. Disse ele: "Ninguém aqui é técnico, ninguém passou em concurso público, todos estão no cargo porque são políticos. Vamos trabalhar para não perder os empregos. Se Alckmin ganhar, todos nós estaremos na rua".

 
 
 
 
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