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Brasil | Eleições
2006 Agora é com a máquina Atordoado
com o segundo turno, o candidato Lula engoliu o presidente Lula
e a campanha engoliu o governo  Otávio
Cabral
Paulo
Whitaker/Reuters
 | PAZ
E AMOR Preocupado com uma derrota, Lula retoma
o figurino "Lulinha paz e amor" que deu certo em 2002 |
A festa estava pronta. No comitê reeleitoral do presidente Lula em Brasília,
os organizadores prepararam a comemoração da vitória
e não esqueceram de encomendar cinco caixas de champanhe. O presidente,
depois de votar em São Bernardo do Campo, tomou o avião para Brasília
e instalou-se no Palácio da Alvorada, onde recebeu aliados e ocupou-se
até mesmo em estudar os principais pontos que deveria abordar no "discurso
da vitória". Ainda que as pesquisas realizadas na véspera e no dia
da eleição já não oferecessem segurança sobre
o resultado final, Lula estava certo de que venceria a eleição no
primeiro turno. Na noite de domingo, quando ficou claro que haveria mesmo uma
segunda votação, o presidente recebeu o telefonema de um interlocutor
e manifestou sua perplexidade. "Por essa eu não esperava. Tinha certeza
de que liquidava tudo hoje", disse o presidente, conforme o relato do autor do
telefonema. No dia seguinte, a primeira mudança provocada pelo segundo
turno estava materializada: o presidente Lula, que quase ignorou sua agenda presidencial,
fora engolido pelo candidato Lula e o governo, com dezessete ministros
arregaçando as mangas, fora engolido pela campanha.
Em sua primeira aparição pública depois do resultado oficial,
o presidente já dera lugar ao candidato. Concedeu sua segunda entrevista
coletiva em 45 meses de governo. Na entrevista, mostrou-se gentil e afável,
voltando subitamente a vestir o figurino do "Lulinha paz e amor", que lhe rendeu
a vitória em 2002. Com um semblante amistoso e gestos de humildade, Lula
elogiou o povo brasileiro pelo "comportamento exemplar" nas eleições
e, sem traço da arrogância de dias antes, quando chegou a garantir
para a platéia num comício que estava eleito no primeiro turno,
disse que não venceu porque lhe faltaram votos. Encerrada a entrevista,
recolheu-se ao Palácio da Alvorada para uma série de reuniões.
Conversou com pelo menos quinze colaboradores, entre ministros e parlamentares,
durante seis horas ininterruptas. "Bateu um susto no Lula e em todos nós",
admite o deputado Eunício Oliveira (PMDB-CE), ex-ministro das Comunicações.
"Fomos para um segundo turno difícil, teremos trabalho demais e não
poderemos errar." A primeira providência
do candidato Lula foi trocar o comando de sua campanha é a segunda
mudança em duas semanas. Na primeira, saiu Ricardo Berzoini, o presidente
do PT sob cujas barbas a turma petista armou a bandalheira da compra com dinheiro
sujo do falso dossiê contra tucanos, e entrou Marco Aurélio Garcia,
assessor internacional do presidente. Agora, Marco Aurélio Garcia fica
no posto de coordenador, mas o comando da campanha passa às mãos
de gente que entende mais de eleição: Jaques Wagner, governador
eleito da Bahia, Marcelo Déda, também eleito para o governo de Sergipe,
e a ex-prefeita Marta Suplicy, que não concorreu a nada mas apoiou dez
candidatos do PT. Todos foram eleitos. A outra providência foi convocar
o governo inteiro para a campanha. Na quarta-feira, dezessete ministros fizeram
uma reunião na casa do colega Hélio Costa, das Comunicações,
em Brasília. No encontro, que durou três horas, a equipe ministerial
compilou mais de 200 dados comparativos entre o governo atual e o anterior. Os
dados ajudarão o candidato nos programas de rádio e TV e nos debates
sim, Lula agora vai aos debates. Dida
Sampaio/AE
 | NO
OLHO DA RUA Reunião de ministros na casa
de Hélio Costa (acima) e a nova chefe da campanha petista em São
Paulo, Marta Suplicy (abaixo, à dir.): "Se Alckmin ganhar, todos
nós estaremos na rua", disse o ministro, para motivar os colegas | Sergio
Castro/AE
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O auxílio mais temerário, porque rompe com o compromisso de austeridade,
veio do Ministério do Planejamento. O ministro Paulo Bernardo cancelou
um corte orçamentário de 1,6 bilhão de reais (que fora feito
antes do primeiro turno) e anunciou a liberação de 1,5 bilhão
de reais (agora que haverá segundo turno). Uma parte dos recursos
230 milhões de reais será usada em obras do Ministério
dos Transportes, principalmente em estados onde Lula teve um desempenho inferior
ao de Alckmin. Outros 19 milhões de reais serão destinados à
criação de um centro de combate ao crime organizado em São
Paulo, tema que preocupa os eleitores paulistanos. Nesta semana, o ministro da
Agricultura, Luís Carlos Guedes Pinto, fará reunião com dirigentes
dos setores agrícola e pecuário para anunciar programas para um
eventual segundo governo petista. Lula teve um desempenho pífio nos estados
onde a agricultura é importante, como nos da região Centro-Oeste
e no Rio Grande do Sul onde o petista Olívio Dutra disputará
o segundo turno com a tucana Yeda Crusius.
Com o presidente cedendo espaço ao candidato e o governo virando bunker
de campanha, pode-se ter a impressão de que Lula sabe como caminhar até
29 de outubro. É um equívoco. Sua campanha recomeçou no tranco,
porque não esperava ter de disputar o segundo turno. Por enquanto é
tudo fumaça e espelhos. Com muita estridência e apenas esperança
de resultado. Há um consenso entre os dirigentes petistas de que o segundo
turno é resultado do escândalo do dossiê e da ausência
do presidente no debate na Rede Globo porque os dois tiraram o ânimo
da militância. Na avaliação dos petistas, a militância
sentiu o golpe do dossiê, ficou envergonhada com a dinheirama de reais e
dólares e não achou argumentos para explicar o ocorrido. Quando
Lula deixou de ir ao debate, a ausência de explicação ficou
patente, deixando a militância duplamente órfã. A conjunção
dos dois fatores, aliada à sucessão de escândalos que o PT
vem patrocinando, talvez explique a ausência dos petistas e suas bandeiras
vermelhas no dia da eleição. O problema é que a campanha
de Lula não tem uma estratégia clara para colocar os petistas de
volta na rua nem para ganhar os votos necessários para vencer no
dia 29 de outubro. Nas reuniões
da semana passada, houve um chafariz de opiniões. O ex-ministro Ciro Gomes,
do PSB do Ceará, revigorado ao receber a maior votação proporcional
para deputado federal no país, defende que Lula priorize cada vez mais
os pobres, radicalizando a divisão que já vinha fazendo. O ministro
Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, tem dito o contrário, supondo
que Lula deve voltar-se para a classe média e tentar reconquistar os votos
que perdeu. O deputado Aldo Rebelo, presidente da Câmara, tem uma terceira
opinião e acha que Lula precisa mesmo é levantar a bandeira da ética
isso mesmo e rememorar as máculas do governo tucano. Sem
definir uma estratégia, e ainda atordoado com o susto do segundo turno,
Lula resolveu abraçar todas as sugestões: falar aos pobres e agradar
à classe média, empunhar a bandeira da ética e criticar os
tucanos. Ao seu lado, petistas e aliados tentam se motivar para a campanha. Talvez
a melhor idéia para motivá-los tenha partido do ministro Hélio
Costa, na reunião com seus colegas. Disse ele: "Ninguém aqui é
técnico, ninguém passou em concurso público, todos estão
no cargo porque são políticos. Vamos trabalhar para não perder
os empregos. Se Alckmin ganhar, todos nós estaremos na rua". |