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Brasil |
Eleições 2006 O
fenômeno Alckmin O tucano dispara
na reta final, conquista 40 milhões de votos e chega ao segundo turno
com chances de vitória  Marcelo
Carneiro e Camila Pereira
Laison
Santos
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VOTAÇÃO RECORDE Alckmin: desde domingo, o segundo
candidato mais votado numa eleição presidencial em primeiro turno | |
Ao
acordar no domingo da votação de primeiro turno, o candidato tucano
à Presidência da República, Geraldo Alckmin, tinha diante
de si uma desvantagem nas pesquisas de 12 pontos em relação ao seu
adversário, imensa probabilidade de sofrer uma derrota acachapante e
em caso de confirmação dessa hipótese a ameaça
de ter o futuro político reduzido a pouco mais do que pó dentro
do seu partido, o PSDB. Ao deitar-se naquela noite, porém, o tucano viu
no espelho uma imagem que era bem diferente. Alckmin terminou o dia refestelado
sobre uma montanha de 40 milhões de votos, com vaga garantida no segundo
turno e status de fenômeno eleitoral: passou a ocupar o segundo lugar no
ranking dos candidatos mais bem votados, em números absolutos, no primeiro
turno de uma eleição presidencial (veja quadro).
O tucano não só superou em 20 milhões o número de
votos obtidos em 2002 por seu colega de partido José Serra, como derrotou
Lula em nada menos do que dez estados brasileiros, além do Distrito Federal.
Em 2002, Serra venceu o petista apenas em Alagoas.
Na largada da segunda fase, uma pesquisa Datafolha, divulgada na sexta-feira,
mostra que a distância entre Alckmin e Lula no segundo turno pouco mudou
em relação ao último levantamento (veja quadro abaixo).
Uma confluência de fatores explica o vôo alto do tucano. Sua candidatura
vinha experimentando um crescimento lento, mas robusto, havia alguns meses, graças
a uma campanha que, se não primou pela empatia, enfatizou a necessidade
de uma agenda positiva para o Brasil. Com a eclosão do dossiêgate
e, em grau menor, as demonstrações de arrogância de Lula,
cuja condição de favorito o fez fugir dos debates televisivos, esse
crescimento ganhou, pouco antes da votação, uma velocidade vertiginosa,
não captada pelas pesquisas. No entanto, é consenso entre os especialistas
que, no caso do escândalo do dossiê, ele só adquiriu alta combustão
porque o PT e Lula já haviam levado a proporções épicas
a corrupção governamental. Se não fossem o mensalão,
os dólares na cueca, o caixa dois, o valerioduto e o escândalo do
caseiro, para ficar apenas nas histórias mais marcantes, a tentativa de
compra de documentos anti-PSDB por parte de petistas certamente teria tido menos
impacto. "O dossiê serviu, principalmente, para ressuscitar no eleitorado
a lembrança de todas as lambanças protagonizadas pelo PT", diz o
cientista político Rubens Figueiredo.
Pouca oscilação na segunda
fase Na primeira pesquisa feita pelo Datafolha
após o primeiro turno, divulgada na sexta-feira, o presidente Lula aparece
com 7 pontos de vantagem sobre Alckmin. No levantamento anterior, a diferença
era de 5 pontos
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| Além de
fruto das iniciativas "não republicanas" do governo Lula e da repercussão
delas junto ao eleitorado mais bem informado , o mau resultado obtido pelo
PT nas urnas deve-se às promessas que Lula deixou de cumprir nos seus quatro
anos de mandato. A principal delas, evidentemente, foi o alardeado "espetáculo
do crescimento". O aumento do produto interno bruto brasileiro no ano passado
pífios 2,3% só não foi o pior da América
Latina porque existe um inferno chamado Haiti. Já Alckmin pode gabar-se
do contrário. Durante sua gestão à frente do governo paulista,
o crescimento de São Paulo chegou a superar em quase 3 pontos a média
nacional. Os 12 milhões de votos que o tucano obteve agora no estado mostram
uma bela aprovação. Voltando aos aspectos "não-republicanos",
também ajudou a inflar seus votos paulistas o fato de o escândalo
do dossiê ter envolvido, por diferentes motivos, os dois candidatos ao governo
local José Serra, alvo do dossiê, e o petista Aloizio Mercadante,
um dos potenciais beneficiários da maracutaia. "Isso certamente aumentou
o impacto do escândalo em São Paulo", afirma a cientista política
Lucia Hippolito. Uma das provas da magnitude da onda anti-PT gerada pelo episódio
no estado foi a inesperada votação de candidatos como o pefelista
Guilherme Afif Domingos, da coligação tucana. Afif Domingos ficou
a apenas 4 pontos porcentuais do petista ex-arrasa-quarteirão Eduardo Suplicy,
que todas as pesquisas diziam estar 20 pontos à frente do pefelista. Fotos
Orlando Brito
 |  | EM
CAMPANHA Chapéu de vaqueiro em Petrolina, sinuca
em Manaus e afagos em Uberlândia: no Brasil onde Alckmin venceu, há mais acesso
à informação e melhores índices socioeconômicos |  |
O peso de São Paulo numa eleição presidencial é avassalador.
Para que se tenha uma idéia dele, basta tomar um exemplo: em Roraima, Alckmin
bateu Lula por uma diferença de 33 pontos porcentuais o que, em
números absolutos, significa uma diferença de 63.000 votos. Em São
Paulo, a vantagem do tucano sobre o petista foi de 17 pontos, praticamente a metade
da registrada em Roraima. Ocorre que, em números absolutos, isso representa
em São Paulo uma diferença de 3,8 milhões de votos. Desde
a vitória de Juscelino Kubitschek, em 1955, nenhum candidato a presidente
conseguiu ser eleito sem ter maioria em São Paulo. Até o próximo
dia 29, portanto, o estado será a principal arena da disputa entre tucanos
e petistas. Os últimos reconhecem que não conseguirão aumentar
o já impressionante índice de Lula no Nordeste e, no Rio
e em Minas, trata-se de cuidar para que as lideranças políticas
hoje engajadas na campanha de Alckmin não revertam os bons resultados obtidos
pelo presidente. Resta aos petistas, portanto, atacar Alckmin em seu próprio
território. Da parte dos tucanos, defender sua cidadela é a prioridade
número 1. A estratégia do PSDB em São Paulo é manter
os 12 milhões de votos em Alckmin e conquistar no mínimo mais 500.000
número que representa a diferença entre a votação
de Alckmin para presidente e a de José Serra para governador. Além
disso, o comando da campanha tucana mirará firme em mais dois alvos: Minas
e Rio, segundo e terceiro maiores colégios eleitorais brasileiros. Por
fim, no que se refere ao Nordeste, onde Alckmin teve desempenho medíocre,
não há muito que fazer. A esperança do PSDB é que
os candidatos a governador que disputam o segundo turno das eleições
demonstrem por Alckmin todo o empenho que não exibiram na primeira fase
da campanha. No primeiro turno, a maior parte dos aliados dos tucanos no Nordeste
não vinculou a campanha nacional à estadual, por receio de contrariar
um eleitorado majoritariamente favorável ao presidente Lula. Agora, a situação
se inverteu. "Os candidatos coligados ao PSDB que enfrentarão o segundo
turno dependem de Alckmin para contrabalançar o apoio que Lula dará
a seus adversários", explica o marqueteiro Marcelo Teixeira. J.F.
Diorio/AE
 | Fotos
Orlando Brito
 | NA
ESTRADA Canoa na Amazônia, carro no Rio de Janeiro
e, em São Paulo, táxi, o meio de transporte preferido do candidato durante a campanha
eleitoral: ele viajou, viajou, mas foi o seu estado natal que garantiu o segundo
turno |  |
O ótimo desempenho de Alckmin no primeiro turno mudou os ânimos de
seus pares no PSDB. O governador de Minas, Aécio Neves, que passou os últimos
meses se defendendo das críticas de que não fazia mais do que o
mínimo obrigatório para ajudar Alckmin (e, mesmo assim, conseguiu
uma surpreendente votação para ele no estado), dá demonstrações
de que entrou para valer na campanha. Na quarta-feira, Aécio desmarcou
todos os seus compromissos para voar de Minas a São Paulo, a fim de encontrar-se
com Alckmin e posar com ele para uma foto que tinha como único objetivo
ajudar a diminuir o impacto negativo causado pelo encontro do ex-governador de
São Paulo com o ex-governador do Rio Anthony Garotinho (PMDB), e sua mulher,
Rosinha. Um dia antes, Alckmin havia selado uma aliança com o peemedebista
num episódio que se revelou um desastre pela forma como foi encaminhado.
Ao absorver o peemedebista mal-afamado na campanha, na esperança de avançar
eleitoralmente no interior do Rio, Alckmin deixou-se fotografar a seu lado. O
deslize, amplificado pelo prefeito do Rio, Cesar Maia, criou uma crise entre os
aliados no Rio de Janeiro e mostrou que o tucano, se já revelou habilidade
em administrar apoios dentro do PSDB, ao derrotar Serra na indicação
para o candidato do partido à Presidência, ainda tem muito que aprender
no que diz respeito à administração de alianças fora
do ninho tucano. Serra, por seu turno, que compartilha com Aécio o desejo
de disputar a Presidência da República em 2010, também prometeu
publicamente empenho na campanha de Alckmin. Mas pelo menos uma ação
sua denota ambigüidade. Eleito governador, um de seus primeiros gestos poderá
vir a macular a ficha de administrador público do candidato tucano (veja
reportagem). Alckmin, dizem
pessoas próximas a ele, é homem de poucos amigos e decisões
solitárias. Deu pistas disso ao tomar sozinho a decisão de dar ao
ex-governador Garotinho o privilégio de ser o primeiro político
a aparecer a seu lado depois da vitória no segundo turno, sem que nenhum
dos caciques da campanha tenha sido consultado sobre a conveniência da decisão.
Em relação a assuntos que julga sensíveis, recorre a um restrito
grupo de colaboradores, em conversas que acontecem sempre individualmente, já
que ele detesta reuniões. Nos últimos meses, em toda a estrutura
de comando da campanha só duas pessoas gozaram de sua absoluta confiança.
Por ordem de importância, são elas: seu marqueteiro, Luiz Gonzalez,
e João Carlos Meirelles, coordenador da campanha. Ambos foram herdados
da equipe de governo de Mário Covas, a principal referência política
do candidato. "Foi Gonzalez quem convenceu Geraldo a não atacar Lula durante
o horário político da televisão", diz um dos assessores do
tucano. A proximidade de Alckmin com seu marqueteiro é motivo de ciúme
entre caciques do PSDB. O presidente do partido, senador Tasso Jereissati
que desde o começo da campanha foi a favor de um embate frontal com Lula
, diz para quem quiser ouvir que não suporta Gonzalez. A implicância
é tanta que Tasso já se recusou a ficar na mesma sala com o marqueteiro.
O fazendeiro João Carlos Meirelles, secretário de Agricultura na
administração Covas, tem hábitos conservadores: não
se separa de suas bengalas (alterna o uso de mais de dez) e cultiva fartos bigodes
brancos, cuidadosamente penteados para cima. Meirelles gosta de dizer que, dias
antes de morrer, Covas lhe pediu para "tomar conta de Geraldinho". Orlando
Brito
 | COMEMORAÇÃO
EM FAMÍLIA Geraldo Alckmin com a mulher, Maria
Lúcia, e os filhos no apartamento da família no momento da confirmação dos números
do TSE: não houve brinde pela vitória |
Alckmin faz questão de separar o ambiente de trabalho do ambiente familiar.
A maioria dos seus colegas de partido e funcionários do comitê político
jamais estiveram em sua casa. "Nunca fui convidado para tomar um café que
fosse no apartamento dele", conta um assessor que trabalhou com o tucano durante
os quatro anos de seu governo em São Paulo. No domingo passado, dia do
primeiro turno das eleições, Alckmin acompanhou a apuração
das urnas em seu apartamento, na companhia apenas dos três filhos, seus
respectivos namorados, e da mulher, Lu Alckmin mantida invisível
durante a campanha como decorrência do "escândalo dos 40 vestidos",
os tais que ela ganhou do estilista Rogério Figueiredo, no que Alckmin
considerou "um erro, fruto da inexperiência" da mulher. Enquanto a família,
reunida na sala do apartamento do bairro do Morumbi, em São Paulo, seguia
a apuração pelo computador, dois dos principais assessores da campanha
do tucano acompanhavam o processo do lado de fora do edifício do candidato,
juntamente com jornalistas e curiosos. Quando, no meio da noite, começou
a chover, os assessores foram convidados a entrar na garagem do prédio,
onde, diante de uma pequena TV, puderam acompanhar a vitória do chefe.
Além de recatado, Alckmin é descrito como centralizador. "Ele sofre
para delegar comandos", diz Meirelles. Na semana passada, ao saber que faltavam
adesivos com sua foto em um dos comitês de São Paulo, pegou o telefone
e reclamou pessoalmente da falha com o responsável pelo escritório.
"Um trabalho que seria da secretária", diz Meirelles.
Alckmin aceita sem constrangimento os comentários de que é centralizador
e "sistemático", como dizem seus assessores. Detesta apenas que o chamem
de pão-duro, reputação conquistada em virtude de hábitos
como o de comer em restaurantes por quilo e o de hospedar-se na casa de parentes
quando está fora de São Paulo. Ao longo de toda a campanha eleitoral,
que já dura cerca de quatro meses, usou apenas dois sapatos: um preto,
que ele calça quando veste terno, e um marrom, quando visita favelas ou
participa de caminhadas. "Ninguém nunca verá Geraldo jantando em
restaurantes caros", diz um amigo do candidato. Durante o dia, Alckmin funciona
à base de Coca-Cola são quatro latinhas por dia , bombons
Sonho de Valsa e amendoim japonês. No domingo, quando o TSE anunciou sua
entrada no segundo turno, a família Alckmin comemorou com alegria, mas
sem brinde. Nos copos dos presentes, só havia água. Ele é
mesmo bem diferente de Lula.
QUEM NÃO VOTA TAMBÉM
DECIDE
 | 1,5
milhão de votos é o que Lula pode perder no Nordeste
se o índice de abstenção na região for igual ao registrado no segundo turno de
2002 |
|  |
O
grau de abstenção na votação pode ser um elemento
decisivo para o resultado destas eleições. Historicamente, esse
índice é maior no segundo turno do que no primeiro. Tanto em 1989
quanto em 2002 (anos em que as eleições foram decididas em duas
etapas), o número de pessoas que não votaram na segunda fase do
pleito aumentou cerca de 3 pontos porcentuais em relação ao primeiro
turno, na média nacional. Um dos motivos, segundo o cientista político
Gaudêncio Torquato, é o fato de que, nas votações para
deputados no primeiro turno, muitos eleitores decidem ir às urnas para
apoiar algum candidato com quem têm proximidade ou estão, por algum
motivo, comprometidos. Já no segundo turno, sem esse compromisso, a probabilidade
de abstenção cresce. Segundo o especialista, entre os que deixam
de votar no segundo turno "mais da metade o faz por desinteresse político".
Os demais pertencem à categoria dos que se abstêm por causa de imprevistos,
como falta de transporte, problemas de saúde ou viagem.
É nas regiões mais pobres do país que
se encontram os maiores índices de abstenção. Neste ano,
o Norte e o Nordeste foram os recordistas, com média de 18% de abstenção
o índice nacional foi de 16,7%. No Nordeste, o candidato Lula venceu
por ampla margem de votos: uma diferença de 40 pontos porcentuais em relação
a Alckmin. Por essa razão, a diminuição do comparecimento
às urnas na região deverá prejudicar mais o petista. Caso
a abstenção no Nordeste pule de 18% para 26% média
da região no segundo turno da eleição de 2002 , o presidente
poderá perder algo em torno de 1,5 milhão de votos. É muito,
especialmente quando se sabe que a diferença entre os votos de Lula e os
de Alckmin no primeiro turno foi de apenas 6 milhões.
Renato Piccinin | | Com
reportagem de Juliana Linhares e Renato Piccinin |