Luiz
Felipe de Alencastro
A vontade
política é união
"O
processo de unificação da Europa é
um
projeto político de longo prazo, envolvendo
cidadãos, dirigentes políticos, empresários,
intelectuais e sindicatos, além da administração
e das instituições européias"
Ilustração Ale Setti
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Seguindo-se à desvalorização da moeda européia
em relação ao dólar, a recusa do eleitorado
da Dinamarca de aderir ao euro, expressa no referendo de 28 de
setembro, pareceu lançar novas incertezas sobre a União
Européia (UE). A exemplo da imprensa americana, os poucos
jornais brasileiros que se interessaram pelo assunto não
tiveram dúvidas em desenhar um prognóstico pessimista.
"O prestígio do euro e as perspectivas de integração
política da União Européia sofreram forte
abalo", afirmou um grande jornal de São Paulo num editorial.
Por certo, periodicamente surgem crises que ensombrecem o processo
de unificação da Europa. Contudo, os formadores
de opinião brasileiros, a exemplo do que sucede nos Estados
Unidos, parecem subestimar a vontade política subjacente
à construção nascida no Tratado de Roma (1957),
criando uma união alfandegária entre o primeiro
núcleo de países europeus, transformado em Comunidade
Econômica Européia (CEE) e, enfim, na União
Européia em 1993, que desemboca na introdução
do euro como moeda única.
Este longo processo, concebido no final da II Guerra, enraizou-se
na determinação política dos europeus. Tanto
para superar as guerras regionais, que durante séculos
ensangüentaram o Velho Continente, como para garantir a independência
européia diante das forças centrífugas engendradas
pela bipolaridade soviético-americana na Guerra Fria. Trata-se
de um projeto político de longo prazo, envolvendo cidadãos,
dirigentes políticos, empresários, intelectuais
e sindicatos, além da administração e das
instituições européias.
De uma maneira geral, este processo tem sido mal percebido no
Brasil. No final dos anos 80 era difícil encontrar em nosso
país economistas e cientistas políticos especializados
na CEE. Quem tentava introduzir a temática nas revistas
científicas brasileiras ficava reduzido a traduzir artigos
já publicados em edições estrangeiras. Depois
do Tratado de Maastricht (1992), sobre a moeda única, a
imprensa brasileira passou a dar melhor cobertura aos trâmites
da UE. Mas o assunto permanece, em geral, restrito aos cadernos
de Economia dos jornais, interessados na evolução
do euro no mercado de capitais, e nos enfrentamentos sucedidos
na Organização Mundial do Comércio nas negociações
sobre as tarifas alfandegárias e matérias conexas.
Ora, analisar a unificação européia unicamente
sob o prisma econômico é ignorar a História
e as opções políticas que moldam todo o processo.
Assim, o sinal verde dado pela França de François
Mitterrand à reunificação da Alemanha sob
o governo de Helmut Kohl evento capital cujo décimo
aniversário se festeja neste mês tinha como
contrapartida o apoio alemão ao aprofundamento da UE e,
em particular, a adesão à moeda única, obtida
em 1992, em Maastricht. Como outros dirigentes europeus, Mitterrand
estava persuadido de que era melhor avançar com a geração
de políticos alemães comprometidos com o projeto
europeu. Instruídos pela História, os líderes
europeus sabiam que o fim da URSS abria a possibilidade de a Alemanha
afirmar-se como grande potência da Europa Central, virando
as costas à União Européia.
O peso da História estará de novo presente na reunião
de chefes de Estado e de governo da UE, em Biarritz (França).
Na ordem do dia, o exame do processo decisório no âmbito
das instituições, e os mecanismos de cooperação
reforçada entre o grupo de países membros decididos
a avançar no processo de unificação. Outro
ponto alto da reunião será a apresentação
do projeto da Carta de Direitos Humanos da União Européia.
Elaborada em torno de seis valores fundamentais a dignidade,
as liberdades, a igualdade, a solidariedade, a cidadania e a justiça
, a Carta faz também referência aos direitos
sociais dos europeus. Valores europeus, valores ocidentais, valores
mundiais que devem ser registrados e festejados, a despeito das
peripécias do euro e do humor dos dinamarqueses.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)