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Roberto
Pompeu de Toledo
A geração
perdida
ganhou
ou perdeu?
Uma
revisita à
Paris de Hemingway,
suas glórias, suas loucuras e seus
infortúnios e a questão que suscita
Era
tudo tão louco naquele tempo. Como não gostava de
carros com capota, Zelda, a mulher de Scott Fitzgerald, mandou arrancar
a do seu Renault como se arranca a tampa de uma lata de sardinhas.
O poeta dos "Cantos", Ezra Pound, aprendia a lutar boxe com Ernest
Hemingway. Bebia-se, bebia-se. Vinho tinto, vinho branco, encorpado,
suave, Sancerre, Mâcon, Cahors, Châteauneuf-du-Pape,
Pouilly-Fuissé. Uísque, cerveja, kirsh, xerez, rum,
o licor caseiro de Gertrude Stein. Bebeu-se mais entre 1921 e 1926
do que no meio século seguinte. Bebeu-se cinqüenta anos
em cinco. E havia as mulheres de ocasião. As duas que acompanhavam
o pintor Pascin no Dôme, o famoso café do Boulevard
Montparnasse, as duas que chegaram de navio com o poeta Ernest Walsh.
Sempre em dupla. O conforto do dois em um. Está-se falando
dos personagens e situações do livro Paris É
uma Festa, de Hemingway, que acaba de ganhar nova edição
no Brasil (Bertrand Brasil). Para quem gosta de fofoca sobre escritores,
o livro é um prato cheio. Para quem gosta de acompanhar a
viagem nostálgica de um autor marcante, dos mais significativos
do século, em busca do glorioso tempo de juventude, também.
O
livro explica como surgiu o rótulo de "geração
perdida" pespegado à safra de escritores que, como Hemingway,
se expatriaram em Paris na mocidade. Um dia, Gertrude Stein, que
era mais velha e guru dos jovens que freqüentavam os concorridos
serões de sua casa, ouviu, na oficina mecânica em que
fora buscar o carro, um áspero diálogo entre o dono
do estabelecimento e um jovem empregado. O dono estava furioso porque
o empregado não tinha cumprido bem sua tarefa. "Vocês
todos", disse ele, ampliando para todo um grupo etário o
alcance das falhas do rapaz, "são uma geração
perdida". Gertrude Stein tomou emprestada a expressão para
atribuí-la a Hemingway e companhia. "É isso mesmo
que vocês são", disse ela. "Todos vocês, essa
rapaziada que serviu na guerra. Vocês são uma geração
perdida." A guerra em questão era a I Guerra Mundial, na
qual Hemingway foi motorista de ambulância.
O
episódio é razoavelmente conhecido. Menos lembrada
é a continuação que lhe dá Hemingway
no livro. Ao deixar a casa de Stein, ele foi buscar consolo na Closerie
des Lilas, outro famoso café do Boulevard Montparnasse, onde,
copo de cerveja na mão, e contemplando a estátua do
marechal Ney, que podia vislumbrar na calçada, se pôs
a pensar que aquele ilustre militar, companheiro de Napoleão,
ali representado de forma tão destemida, a espada desembainhada,
acabara ingloriamente derrotado em Waterloo. Era a ilustração
de como a glória é efêmera, e garantido o fracasso
final. Hemingway acaba por concluir que "todas as gerações
eram perdidas, por alguma razão". Sempre fora assim, e sempre
haveria de ser. Ao chegar em casa, naquela noite, comenta com a
mulher que Gertrude é uma boa pessoa "mas diz muita
besteira de vez em quando".
Que
quer dizer que uma geração é "perdida"? Há
pelo menos duas hipóteses. Ou bem é perdida porque
perdeu (perdeu uma aposta, ou uma batalha, como Ney) ou porque se
perdeu (desencaminhou-se, desperdiçou-se). É extraordinário,
uma lição de como as frases, assim como a vida, podem
percorrer os caminhos mais inesperados, que o obscuro homem da oficina,
do qual nem se registrou o nome, nem o endereço, seja o autor
da fórmula que iria qualificar todo um grupo de escritores.
Só ele poderia explicar direito o que quis dizer com "geração
perdida". Infelizmente, a ninguém ocorreu perguntar-lhe.
Passado o momento de raiva, talvez viesse a reconhecer que tinha
dito uma grande "besteira", como queria Hemingway. Mas o rótulo
era bom, tinha um halo romântico que bem cabia ao charme daquele
grupo, e pegou.
Fica-se
a matutar na sorte das pessoas retratadas no livro, tão cheias
de vida, tão na plenitude de suas forças e de suas
esperanças. Scott Fitzgerald, o notável autor de O
Grande Gatsby, terminaria em Hollywood, enredado no alcoolismo
e trabalhando em roteiros freqüentemente recusados pelos produtores.
Sua mulher, Zelda, com quem formou o mais esfuziante e mais doidivanas
dos casais dos anos 20, acabou num sanatório, com irrecuperável
distúrbio mental. Ezra Pound, que na II Guerra aderiu ao
fascismo, e da Itália fazia programas radiofônicos
de propaganda dirigidos aos Estados Unidos, amargou na prisão
as décadas finais, culpado de traição da pátria.
O próprio Hemingway, encharcado de bebida, de depressão
e do sentimento da decadência, resolveu ele próprio
dar cabo da vida, dando-se um tiro na cabeça. A soma de infortúnios
é impressionante. Parece que eles perderam. No entanto, com
exceção de Zelda, deixaram livros que lhes garantem
ainda a admiração de quem os lê, tantos anos
depois. Por esse ângulo, parece que ganharam. Realizaram aquilo
a que se propuseram prioritariamente na vida.
Que
é ganhar? Que é perder? Eis a inconclusiva conclusão
desta história. Ah, se ainda fosse possível localizar
o dono da oficina... Ele devia saber.
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