Com
vocês, o PT cor-de-rosa
Com
discurso social-democrata, o PT agiganta-se nas urnas e entra no
clube dos grandes

Lourenço
Flores e Maurício Lima, de Brasília
Milton Michida/AE
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| Marta
Suplicy, fenômeno paulistano: apoio pela ética
e transparência |
Bagé, terra de latifúndio e de uma direita tão
brava quanto o analista criado pelo escritor Luis Fernando Verissimo,
conta com 125.000 habitantes e não terá segundo turno.
O prefeito está eleito. É Luiz Fernando Mainardi,
do Partido dos Trabalhadores. Sua fórmula para vencer: "Nunca
alimentei posição raivosa, xiita, de confronto gratuito.
Partimos para uma disputa propositiva, para mostrar que podemos
dialogar com toda a sociedade. Por isso nosso slogan 'Bagé
para todos'", diz o prefeito eleito, cujo antecessor é do
PPB. Em São Carlos, no interior de São Paulo, cidade
com alto índice de universitários e com o maior número
de Ph.Ds. por habitante no país, o PT nunca passara de dois
vereadores e 12 000 votos. Na semana passada, com mais de 40.000
votos, fez até o prefeito. É Newton Lima, ex-reitor
da Universidade Federal de São Carlos e engenheiro de produção.
"Nossa campanha foi sobre questões municipais. Não
adiantava tornar a disputa essencialmente de ideologia política",
afirma ele. No Nordeste, desde o vexame promovido em Fortaleza nos
anos 80, o PT nunca mais elegeu prefeito numa capital. Marcelo Déda,
ex-líder do PT na Câmara, acaba de quebrar a escrita.
"Aracaju não tem um Palácio de Inverno a ser conquistado,
como em São Petersburgo. Não quero fazer revolução,
quero é governar", diz Déda, eleito no primeiro turno.
Entre Bagé e Aracaju, passando por São Carlos, há
3.900 quilômetros de distância, mas as três cidades,
como se fossem vizinhas, mandaram mensagens idênticas na semana
passada. Em primeiro lugar, ajudaram a fazer o triunfo nacional
do PT na eleição de domingo, colocando o partido,
pela primeira vez em seus vinte anos de vida, no clube das grandes
máquinas partidárias. De 1996 para cá, o PMDB
aumentou sua votação de 12,7 milhões para 13,2
milhões. O PSDB, de 13 milhões para 13,5 milhões.
O PFL saiu de 10 milhões para 12,9 milhões. Mas atenção:
com a ficha feita nos títulos de eleitores, o tamanho do
eleitorado brasileiro cresceu e o número de votos válidos,
também. Isso quer dizer que nem o PFL, pulando de 10 para
12,9 milhões de votos, conseguiu aumentar, proporcionalmente,
sua fatia do bolo nacional. No caso do PT, não. O partido,
de fato, engordou seu balaio de votos de forma impressionante em
1996, teve 7,9 milhões de votos. Desta vez, levou 11,9 milhões.
É uma votação, em números brutos, apenas
um pouco inferior à de pefelistas, tucanos ou pemedebistas.
Mas existe, aí, uma outra vantagem do PT. O grosso de seu
eleitorado está concentrado nas cidades médias e grandes.
Portanto, trata-se de uma massa urbanizada, mais informada e esclarecida,
cujo voto tende a ser mais consciente. E o PT estará no segundo
turno em dezesseis das 31 cidades que voltam às urnas no
dia 29 de outubro.
"Foi
a maior vitória política de nossa história",
festeja, com razão, o deputado Aloizio Mercadante, líder
do PT na Câmara. Em segundo lugar, as cidades que elegeram
petistas, ou os levaram ao segundo turno, premiaram o discurso ameno,
menos agressivo. Os petistas de agora dizem que não são
xiitas, não estão interessados em fazer a revolução
ou promover disputas de ideologias políticas. Em vez disso,
querem dialogar, governar, tratar dos problemas reais das comunidades.
De fato, o PT mudou. Ou melhor: vem mudando nos últimos anos,
especialmente depois do trauma sofrido com a derrota presidencial
em 1989, que precedeu o naufrágio da utopia socialista-operária
no panorama mundial. Ficaram para trás na história
deste PT que saiu das urnas na semana passada o levante revolucionário,
a adoção do socialismo, a ditadura do proletariado.
Nos últimos dez anos, com uma clareza crescentemente desinibida,
o PT vem adotando a prática que causava tremores de ojeriza
no bolchevique Lênin do início do século XX:
a gerência reformista do capitalismo. Sai das urnas, portanto,
um PT social-democrata, talvez o único partido verdadeiramente
social-democrata do país, mais até que o Partido da
Social-Democracia Brasileira do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Com a consagração nas urnas dessa linha moderada,
os novos apelidos do PT proliferam: "PT rosa", "PT chanel", "PT
burguês". São epítetos que, ao contrário
do que acontecia num passado recente, não parecem constranger
o PT, pois nada é mais rosa, chanel ou burguês que
o fenômeno eleitoral Marta Suplicy em São Paulo
e nada foi tão festejado pelos petistas de todo o país
quanto seu desempenho. Sintomaticamente, não se ouviu um
ai de lamento com a derrota fragorosa, aliás
dos operários do partido no ABC paulista. Em São Bernardo
do Campo, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, ex-presidente da
CUT, a central sindical mais ligada aos petistas, perdeu a eleição
por 60% a 35% dos votos. Em São Caetano do Sul, Jair Meneguelli,
antecessor de Vicentinho na CUT, levou uma surra ainda mais dolorosa,
de 80% a 15% dos votos. Não custa lembrar: pela primeira
vez, o presidente da CUT não é operário. É
João Felício, ex-professor de artes plásticas.
Isso mesmo, artes plásticas. No partido, com o declínio
do sindicalismo de fábrica, a presença operária
vem caindo há anos. Uma pesquisa comparativa de dois encontros
nacionais do partido, um em 1997 e outro em 1999, mostra que o número
de funcionários públicos cresceu 48%. O de assalariados,
carteira assinada, caiu 20%.
Egberto Nogueira
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| Paulo
Maluf, sobre o apoio do PSDB a Marta Suplicy: "Duvido que
os racionais tucanos queiram criar uma cobra dentro de casa"
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Enquanto isso, com mais de 2 milhões de sufrágios,
Marta Suplicy recebe as honras de estrela do partido. Também
pudera. Chega ao segundo turno com ampla vantagem de votos e apoios
sobre seu adversário o imperecível Paulo Maluf,
inventor do inolvidável Celso Pitta. Até o empresário
Mario Amato, aquele que previu uma debandada de industriais do país
caso Lula chegasse ao Planalto em 1989, já admitiu votar
na candidata do PT. O empresário Antônio Ermírio
de Moraes anunciou que nunca votou, e nunca votará, em Maluf.
Até o PSDB paulista declarou apoio à candidata do
PT e ainda pediu que seus militantes façam campanha para
ela. Maluf ainda tentou conquistar a neutralidade dos tucanos. "Duvido
que os racionais tucanos queiram criar uma cobra dentro de casa",
disse. Maluf argumenta que o PT sempre foi adversário dos
tucanos e sempre será quando chegar a hora da eleição
presidencial, o gatinho cor-de-rosa que o governador Mário
Covas acaricia agora mostrará garras de leopardo para depenar
os tucanos. É provável que seja isso mesmo, mas o
apelo de Maluf não encontrou ressonância. "Não
dá para ter neutralidade com o Maluf. Com o Maluf, a gente
é sempre adversário, não tem como não
ser", respondeu Covas. De Berlim, Fernando Henrique não revelou
seu voto. Nem precisava. Disse que São Paulo foi "muito mal
administrada", que a "corrupção esteve muito elevada"
e pregou que seu partido apoiasse a alternativa que fosse "melhor
para a cidade".
A expressiva votação de Marta resume, em si, boa parte
das lições das urnas de domingo e do próprio
crescimento petista. Atendendo a um anseio do eleitor, o PT distanciou-se
da retórica vermelha e empunhou a bandeira da ética,
da moralidade pública. Com isso, aproxima-se do eleitorado
de classe média, que se assusta com os barbudos fazendo pronunciamentos
incendiários. E, ao hastear a bandeira da ética, opta
por um discurso desideologizado, anódino, mas que cai muito
bem na nau do PT, cujo casco nunca foi arrombado por desonestidade
no trato da coisa pública. Cai melhor ainda na terra de Maluf
e Pitta. A candidata do PT conhece bem a importância da carga
anticorrupção e a desimportância do verbo ideológico.
Tanto que, ao ser informada do apoio do PSDB e dos acenos de FHC,
Marta não deu um pio sobre "o resgate dos excluídos",
a "virada contra o pensamento neoliberal" ou outro bordão
qualquer da cartilha petista. "Eles estão se posicionando
a favor da ética e da transparência", disse ela, de
braços estendidos ao pouso tucano.
Marcio Machado/Folha Imagem
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| O
petista João Paulo, no Recife: festa pela chegada ao
segundo turno |
São as correntes cor-de-rosa do PT que têm expandido
seu patrimônio eleitoral e vêm cravando estaca no Sul
e Sudeste, inclusive nas regiões mais ricas. É o resultado
de uma estratégia deliberada. "Perdi as contas de quantas
reuniões fiz com integrantes dos clubes Rotary e Lions e
com empresários dos mais diversos setores durante a campanha",
diz o deputado José Genoíno, do PT paulista. Em Ribeirão
Preto, epicentro de riqueza no interior paulista, o ex-prefeito
Antonio Palocci está de volta ele que, em 1995, escandalizou
o partido ao propor um programa de privatização na
cidade. Sua gestão levou o petismo a se expandir pelas treze
cidades vizinhas. O PT também está em Criciúma,
pólo econômico de Santa Catarina. Está no abastado
norte do Paraná, entre Londrina e Maringá. Conseguiu
até furar o cerco do PFL nos sertões nordestinos.
Cresceu na Bahia e logrou uma vitória inédita em Imperatriz,
segunda maior cidade do Maranhão, desbancando um tucano que
teve a honra de receber o apoio televisivo dos ministros José
Serra, da Saúde, e Paulo Renato Souza, da Educação.
No Rio Grande do Sul, o PT já se tornou o partido mais votado.
Tem 1,35 milhão de votos, o que equivale a 22,5% dos votos
válidos do Estado. Já venceu em seis das maiores cidades
e, aos poucos, vai tomando conta da região metropolitana
de Porto Alegre, onde acaba de eleger em Cachoeirinha José
Luiz Stédile, irmão de João Pedro, líder
do Movimento dos Sem-Terra, o MST. (Não custa lembrar: quando
o MST acampou na porta da fazenda dos filhos de Fernando Henrique
em Buritis, a cúpula do PT ficou uma arara.) Mesmo nos pampas,
as correntes moderadas é que estão em crescimento.
De 32 prefeitos já eleitos, só um pertence à
tendência radicalmente esquerda. "As eleições
mostraram que estamos entrando na fase madura", avalia Tarso Genro,
que disputa o segundo turno na capital gaúcha como favorito.
"A vitória é o passo final do duro aprendizado pelo
qual passamos para entender como continuar sendo um partido de mobilização
social, de oposição a um modelo e, ao mesmo, nos mostrarmos
como um partido de governo, de respostas aos problemas da sociedade",
completa.
Sopa
de letras Além de São Paulo e Porto Alegre,
o PT tem chances de emplacar em quatro capitais Belém,
Goiânia, Recife e até Curitiba, onde o bancário
Ângelo Vanhoni ameaça o reinado do PFL do prefeito
Cassio Taniguchi e do governador Jaime Lerner, ambos celebrados
por boas administrações. Os oito partidos que caíram
no primeiro turno em Curitiba entre eles, PMDB, PSDB e PDT
já anunciaram apoio ao petista Vanhoni. Pode parecer
um leque excessivamente amplo, mas tem sido assim nesta eleição.
Se o eleitorado dá mostras de ignorar a legenda dos candidatos
na hora de votar, considerando apenas o candidato, as alianças
só ajudam a aumentar a sopa de letras. Exemplos: o PDT gaúcho,
que faz oposição a FHC, tem o apoio do PSDB contra
o PT. O PT paulista é apoiado pelo PSDB contra o PPB, que
respalda FHC. Em Fortaleza, o PFL, embora aliado no plano federal
ao PMDB, arrasta asa contra o partido e em favor do PC do B, de
oposição a FHC. Em Goiânia, o PMDB, que forma
juntamente com o PTB a base de apoio a FHC, decidiu apoiar o PT.
Não é de hoje que as siglas partidárias pouco
dizem aos eleitores brasileiros. Mas a eleição municipal
só veio deixar essa verdade mais visível. No Rio de
Janeiro, a pesquisa mais recente sobre preferência partidária
dos eleitores deu 30% para o PT e bem menos, nem 3%, para o PFL.
No entanto, o PT de Benedita da Silva nem foi para o segundo turno,
e o candidato que disputa como favorito em 29 de outubro é
o prefeito Luiz Paulo Conde, do PFL. Conde duelará com Cesar
Maia, aquele que inventou os factóides e começou sua
carreira no velho PCB, trocou-o pelo PDT de Leonel Brizola, depois
pulou para o PMDB, fez uma escala no PFL e agora concorre pelo PTB
uma legenda que, aliada de FHC, acaba de ganhar o apoio do
oposicionista PDT de Brizola. Simples, não?
Egberto Nogueira
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| Meneguelli:
ex-presidente da CUT levou uma surra em São Caetano |
Apesar da barafunda partidária, o pleito deixou claro quem
são os vencedores e os derrotados. Além do PT, as
urnas foram doces com o PFL, que começa a deixar seu exílio
nos grotões para entrar nos centros urbanos, e já
ajudaram a azeitar o verbo de Antonio Carlos Magalhães (veja
reportagem). Outra sigla que brilhou foi o PPS de Ciro Gomes,
mas é preciso levar em conta que se trata de uma legenda
tão nanica que, ao eleger um ou dois prefeitos a mais, ganha
o direito de dizer que cresceu 1.000%, 3.000%. Sua influência
na sucessão de 2002 não adquiriu um único grama
de vitamina, em especial depois do fracasso no Ceará. Ciro
Gomes não conseguiu colocar a ex-mulher, Patrícia,
na disputa no segundo turno para a prefeitura de Fortaleza. E, no
destempero da derrota, achou por bem chamar o presidente Fernando
Henrique de "mau-caráter", como se o "bom caráter"
de FHC mudasse a cabeça dos eleitores de Fortaleza. No pelotão
intermediário, o PSDB fica do mesmo tamanho, mas pelo menos
não fez o vexame que se imaginou quando a popularidade de
FHC estava no fundo do poço. E o PMDB, coitado, foi à
lona. Junto com o PDT e o PPB, forma a trinca de legendas que mais
emagrecem no país.
Supremo
paradoxo Colunistas adoram projetar o pleito presidencial
com base nas eleições municipais, embora todo mundo
saiba que a relação entre uma coisa e outra é
semelhante ao parentesco entre banana e abacaxi. Mas, ampliando-se
o cenário de análise, é possível constatar
que o PT entra no jogo sucessório com chances de medalha.
Em 1974, quando o velho MDB surrou a Arena, tornou-se uma alternativa
real de poder. Nos anos 90, o ungido pelas mudanças foi o
PSDB, que, apesar de não ter sido um estouro nas urnas, se
credenciou como opção de poder. Agora, chegou a vez
do PT, mas prossegue o mesmo e velho dilema: quem será o
candidato? Lula pela quarta vez? O PT, supremo paradoxo, é
o único partido com um líder inconteste à procura
de outro líder. O pleito de domingo ampliou o baralho. O
senador Eduardo Suplicy, marido de Marta, não esconde a vontade
de concorrer ao Planalto idéia que sua mulher também
acaricia, juntamente com José Genoíno e Tarso Genro
e Cristovam Buarque e Olívio Dutra...
Lalo de Almeida
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| Vicentinho:
outra derrota da ala operária do partido |
A dificuldade é que fazer bonito numa prefeitura é
diferente. Quando a discussão é nacional, o PT comparece
com as idéias de calote na dívida externa, auditoria
nas privatizações já realizadas (presumivelmente
para anulá-las), sem contar as palavras de ordem contra o
FMI, o neoliberalismo e a globalização da economia.
São idéias polêmicas, mas ninguém precisa
tratar desses assuntos numa eleição municipal, não
é mesmo? No âmbito mais restrito das cidades, ao contrário,
o PT traz uma marca quase consensual. Por politiquice, criticam-se
seus programas, mas quase todo mundo tenta imitar sucessos como
orçamento participativo, renda mínima, bolsa-escola.
Dos 106 prefeitos petistas que concorreram à reeleição,
54 chegaram lá no primeiro turno, mais de 50%. É um
desempenho bem superior à média nacional. Pesquisa
do Tribunal Superior Eleitoral indica que, das 5.500 cidades que
decidiram a vida no primeiro turno, 1.000 reconduziram o atual prefeito
o que dá um índice reeleitoral inferior a 20%.
Está demonstrado que o PT é um partido bom de corrida
no município. De quebra, o pleito também aprovou o
instituto da reeleição. Não houve a avalanche
de denúncias de uso da máquina que se imaginou. As
denúncias de que a emenda da reeleição foi
aprovada no Congresso deixando um cheiro de enxofre fizeram com
que se transformasse em ponto ideológico. Estabeleceu-se,
por essa distorção, que adversários de FHC
deveriam ser contra a reeleição e seus aliados, a
favor. No domingo, descobriu-se que a reeleição não
beneficia o PSDB ou o PT. Premia o bom prefeito, apenas. "A reeleição
veio para ficar", avalia o vice-presidente Marco Maciel, apesar
de não ter emplacado no primeiro turno seu querido Roberto
Magalhães, do PFL, no Recife.
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A
limpeza na
Câmara
Sergio Castro/Ag. Estado
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| Mutran,
Viscome e Vita: um perdeu metade dos votos, outro está
preso e o terceiro não se reelegeu |
O resultado das eleições na cidade de São
Paulo traz uma mensagem contundente para os vereadores corruptos
e uma auspiciosa constatação para quem andava
desencantado com o processo político: o voto é
um poderoso desinfetante, capaz de eliminar até mesmo
a sujeira mais resistente. Dos 55 atuais vereadores, cinqüenta
tentaram a reeleição. Mas apenas 27 continuarão
na Câmara Municipal. A surpreendente renovação
de 50,9% torna-se ainda mais impressionante quando se vê
o que aconteceu com quem apoiava o prefeito Celso Pitta. Dos
35 parlamentares que em algum momento fizeram parte da bancada
governista, apenas doze se reelegeram. Esses números
mostram o amadurecimento do eleitorado, que promoveu uma profunda
limpeza em uma instituição cujos integrantes,
em sua maioria, trataram o paulistano com cinismo descarado
nos últimos oito anos.
Sob certos aspectos, um vereador de São Paulo tem muito
mais poder que um deputado federal. Cada um conta com verba
mensal de 93 000 reais para pagar 21 assessores quase
cinco vezes o valor destinado aos deputados federais. Durante
o governo do atual prefeito Celso Pitta, aqueles vereadores
que integraram sua tropa de choque, evitando que ele fosse
investigado por CPIs ou sofresse processo de impeachment,
foram regiamente recompensados. Ganharam desde o controle
das administrações regionais até o poder
de convencer fiscais a fazer vista grossa a quem desrespeitasse
a legislação de zoneamento. Tudo isso se negocia
e tem um preço. O preço pago pela cidade foi
alto, mas através da urna eletrônica o eleitor
mandou a fatura de volta para a Câmara. E aí
está a melhor notícia dada pelo resultado das
eleições municipais.
Os três vereadores da foto ao lado e a situação
em que se encontram hoje exemplificam bem essa mudança.
Na cena, eles riem depois da sessão que derrubou a
instauração da CPI da Máfia dos Fiscais,
em fevereiro de 1999. Wadih Mutran, à esquerda, mostrou
fidelidade canina a Pitta. Forte no assistencialismo
mantém cinco ambulâncias para fazer remoções
gratuitas , ele se reelegeu, mas teve menos da metade
dos votos que conseguiu quatro anos atrás. Vicente
Viscome, o de barba, está na cadeia desde março
de 1999. Foi condenado a dezesseis anos de prisão por
corrupção. Brasil Vita, sentado, passou quarenta
anos sem perder uma eleição para vereador. Desta
vez ficou de fora, com uma segunda suplência. O escândalo
da máfia dos fiscais, que expôs a ladroagem praticada
por funcionários da prefeitura, colocou cerca de 600
pessoas sob investigação. Dos dezesseis vereadores
investigados, apenas quatro se reelegeram.
Além de passar um sabão na tropa de choque de
Pitta, o eleitor premiou a oposição. Todos os
parlamentares do PT se reelegeram com mais votos do que tiveram
em 1996. A bancada cresceu de nove para dezesseis integrantes.
José Eduardo Cardozo, presidente da CPI da Máfia
dos Fiscais, foi o que faturou mais alto. Saltou de 16 255
votos em 1996 para quase 230 000 agora. Nenhum dos dois candidatos
a prefeito tem maioria garantida. Marta Suplicy poderia contar
com 25 votos. Para aprovar seus projetos, precisaria do apoio
dos tucanos. No caso de Maluf a situação se
complica. "Se Maluf conseguir a proeza de ganhar a eleição,
não irá governar", acredita o professor de política
Fernando Abrucio, da Fundação Getúlio
Vargas e da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo. O ex-prefeito, que controlou a maioria
dos vereadores em seus dois
governos, agora teria pelo menos 33 vereadores a lhe fazer
oposição.
Caco
de Paula e Alessandro Duarte
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E
os lobos ficaram sem mandato...
Definitivamente, o eleitor não é bobo. Uma semana
antes da eleição, VEJA publicou uma reportagem
de capa, sob o título "Lobos à caça de
votos", mostrando que 184 candidatos a prefeitos e vereadores
em nove das maiores capitais do país tinham processos
por crimes graves correndo na Justiça assassinato,
estelionato, estupro, assalto. Contabilizadas as urnas de
domingo passado, constatou-se que a esmagadora maioria, 94%
dos candidatos, não se elegeu. As urnas foram severas
com os réus-candidatos em São Paulo, Belém,
Curitiba e Porto Alegre, onde nenhum deles obteve mandato.
Em Manaus, apenas um conseguiu ser eleito. Outras três
capitais, Recife, Salvador e Fortaleza, escolheram, cada uma,
dois candidatos com ficha suja. O pior desempenho ocorreu
no Rio de Janeiro, onde quatro réus-candidatos conseguiram
eleger-se para a Câmara Municipal. Irão formar
quase 10% do plenário da casa. A existência de
processos contra os candidatos não significa que sejam
culpados dos crimes de que são acusados, pelo bom motivo
de que não foram julgados pela Justiça. Mas
mostra que a maioria dos eleitores está cada vez menos
disposta a arriscar seu voto, sujeitando-se ao perigo de assistir,
mais tarde, a seu eleito trocar plenário por prisão.
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Com
reportagem de
Márcio
Pacelli, de Brasília, Carlos
Rydle, Uilson Paiva e Ricardo Mendonça, de São
Paulo
Saiba
mais |
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