Eu bem que
disse...
Ilustração Pepe Casals
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Tem gente que não sabe perder e gente que não sabe
ganhar. Eu pertenço ao segundo time. Em vez de provar minha
superioridade comemorando as vitórias com comedimento,
costumo tripudiar, fazendo o possível para humilhar os
adversários. Não que eu seja um vencedor. Pelo contrário:
só me estrepo. Como todos os meus compatriotas, sou um
perdedor, um fraco, um pobre desgraçado. Você já
deve ter notado, por exemplo, que não sou o melhor colunista
do mundo. O mesmo vale para minha atividade como romancista ou
roteirista. É inegável, porém, que nos últimos
tempos eu demonstrei uma certa aptidão num campo fundamental:
o dos prognósticos esportivos.
Recapitulando. Em junho, escrevi um artigo em que dizia que os
brasileiros eram ruins de bola, que os argentinos nos davam um
banho. Recebi montes de cartinhas, carregadas de desaforos. Logo
a seguir, o Brasil sofreu duas derrotas nas eliminatórias
da Copa do Mundo, ficando bem atrás da Argentina, quase
na zona de desclassificação. No mesmo artigo, eu
extrapolava um pouquinho e afirmava que o Brasil era um desastre
em todos os esportes. Cheguei a apostar que ganharíamos
apenas uma medalha de ouro nas Olimpíadas. O presidente
do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman,
reagiu indignado, lamentando "o teor do artigo" e relacionando
o nome de inúmeros "atletas que dignificam nosso país".
Como desconfio da memória dos meus leitores, achei conveniente
repetir a dose três semanas atrás. Antes que as Olimpíadas
começassem, apostei, mais uma vez, que seríamos
um fiasco e conquistaríamos somente uma medalha de ouro.
Todos os brasileiros sabem que o vexame foi ainda maior. Zero
medalha de ouro. Se não me engano, o pior resultado dos
últimos 24 anos. Considerando que, a cada Olimpíada,
aumenta o número de modalidades esportivas, algumas das
quais feitas sob medida para nós, como o vôlei de
praia, a coisa fica ainda mais feia. Onde estão os atletas
que dignificam nosso país, presidente Nuzman?
O primeiro problema do esporte brasileiro é falta de organização.
A Itália conquistou treze medalhas de ouro, quase todas
de atletas ligados a clubes da polícia. Mas, se a nossa
polícia nem ao menos sabe policiar, imagine se seria capaz
de formar atletas. O segundo problema é a cartolagem. Um
parente do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, declarou que ele,
Teixeira, não ouve ninguém na hora de indicar os
técnicos da seleção de futebol: decide sozinho.
Se isso é verdade, Teixeira não vai ouvir meus conselhos,
embora esteja provado que entendo muito mais do que ele de esportes,
sobretudo de futebol. Chame um técnico estrangeiro, Teixeira!
O ideal seria o holandês Johan Cruyff, mas ele não
pode por causa de seus problemas cardíacos. A alternativa
é o sueco Sven-Goran Eriksson, do Lazio. Não tem
problemas com a língua, pois treinou muitos anos em Portugal,
e talvez o presidente do Lazio aceite pagar parte de seu salário,
já que tem grandes interesses econômicos no Brasil.
O terceiro problema do esporte brasileiro é exemplificado
por este artigo. Falta-nos caráter. Não sabemos
perder, não sabemos ganhar.