Chega
de timidez
O presidente do BNDES diz que o governo tem
de
sair da defensiva e mostrar
à sociedade os
ganhos com a privatização
Consuelo
Dieguez
Oscar Cabral
 |
"Quem
é contra a privatização abre o verbo.
Do lado do governo ninguém se manifesta" |
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
apresentou, na semana passada, seu plano estratégico para
os próximos cinco anos. Uma das novidades é que
o banco vai aumentar seus financiamentos para a área social.
Apesar da pompa da cerimônia, que contou com a presença
do presidente Fernando Henrique, muito pouca coisa foi falada
sobre as outras metas do BNDES, como, por exemplo, a privatização,
um programa tocado há dez anos pela instituição.
Há uma razão política óbvia para essa
preferência. Mas o presidente do BNDES, Francisco Gros,
de 57 anos, não esconde sua determinação
em tirar o tema privatização do segundo plano e
trazê-lo para o centro do debate. Sua opinião é
de que nunca a voz dos antiprivatistas soou tão forte quanto
de um ano para cá. E acha que, diante das críticas,
o governo adota uma postura acuada. Cansado das acusações
de que a privatização foi um péssimo negócio
para o país, Gros decidiu partir para o ataque. "Não
podemos nos acovardar", afirma. "A privatização
evitou que o país mergulhasse no caos." Na sede do BNDES,
no Rio de Janeiro, Gros recebeu VEJA para esta entrevista, na
quarta-feira passada.
Veja Passados dez anos desde que se iniciaram as
privatizações no país, ainda há uma
grande resistência da sociedade à venda das estatais.
Uma pesquisa encomendada pelo BNDES demonstrou que 50% dos brasileiros
as reprovam. Por quê?
Gros
O processo de privatização foi o melhor possível
nas circunstâncias em que o país vivia. Se houve
alguma falha, ela ocorreu na comunicação do governo
com a sociedade. O governo vendeu bem suas empresas, mas, uma
vez terminada a privatização, encarou isso de forma
muito gerencial. Ou seja, declarou a vitória e tirou o
time de campo, sem se preocupar mais com a questão. Ao
fazê-lo, abriu caminho para os opositores da privatização.
Quem é contra a desestatização fala pra burro,
critica, abre o verbo. Do lado do governo ninguém se manifesta.
Por isso, precisamos explicar para as pessoas que esse processo
está sendo importante para o país. E, se houver
erros, vamos consertá-lonão dá é
fingir que ganhamos o jogo e ir para casa. O time adversário
continua em campo brigando.
Veja Só os erros de comunicação
justificam as críticas?
Gros
Outro problema foi a frustração de algumas expectativas
da sociedade. A população passou a acreditar que,
ao vender as companhias e utilizar os recursos para abater a dívida
pública, se conseguiria reduzir completamente esse endividamento.
De repente, a pessoa se sente como aquele sujeito que vendeu a
prata da família para pagar a dívida e a dívida
continua lá. A oposição tem batido muito
nessa tecla. Mas, se fizermos as contas, veremos que houve um
abatimento significativo da dívida. Mais: se não
tivéssemos vendido as estatais, a dívida pública
teria entrado numa trajetória explosiva que traria o caos
ao país. O que precisa ser esclarecido é que em
nenhum momento se disse que a dívida acabaria, e, sim,
que ela não iria explodir, colocando por água abaixo
todo o esforço de estabilidade, sem dúvida a maior
conquista desta década.
Veja Criou-se também uma expectati-va de que
se venderiam as estatais para investir em saúde e educação.
Isso não foi motivo de mais desapontamento?
Gros
Uma conta rápida mostra que, ao privatizar, o Brasil reduziu
suas dívidas em 95 bilhões de dólares. Aplicando-se
uma taxa de 16% ao ano que são as taxas de juro
que o Banco Central paga pelos papéis da dívida
pública , são 28 bilhões de reais que
se está deixando de pagar anualmente para o mercado financeiro.
Essa economia é um dinheiro que não se vê,
mas que deixou de ser pago. Esses recursos fiscais, em vez de
serem desviados para pagamento de juros, estão sendo investidos
no social. O problema é que ninguém no governo está
dizendo isso com clareza. Ficam todos na defensiva, o que é
um erro. Não estamos nos comunicando.
Veja O senhor acha que o governo se acovardou diante
das críticas?
Gros
Já participei de vários governos e digo uma coisa:
privatização sempre foi um tema controvertido. Nunca
foi um assunto que presidente da República algum assumisse.
Na época do Collor, em 1992, por mais que ele dissesse
que tinha isso e aquilo roxo, não se via o presidente nem
os ministros defendendo a privatização. No governo
FHC, noto que as pessoas também estão demonstrando
timidez na defesa dessa idéia. Mas nós não
podemos nos acovardar. Privatização não é
vergonha. Fiquei muito feliz de ver o presidente Fernando Henrique
afirmando aqui no banco, na semana passada, que a privatização
continua sendo um projeto importante do governo. É uma
mudança grande.
Veja O que parece é que o governo não
vê mais a privatização como uma urgência.
O senhor concorda com essa avaliação?
Gros
Não há como esquecer que houve uma redução
das necessidades fiscais do país. Antes, tínhamos
de privatizar porque havia o risco de o plano de estabilização
desmoronar. Hoje em dia, se não se privatizar com a mesma
rapidez, nossa estabilidade não fica ameaçada. Antes,
pela urgência, se tocava o pau na máquina e depois
via no que dava. Hoje, há todo um processo de negociação.
Nós queremos privatizar o setor de geração
elétrica e o ministro das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho,
está engajado no processo, negociando com as lideranças
políticas. Temos mais tempo para preparar o processo e,
dessa forma, evitar problemas futuros. Por isso, demora mais.
Ainda assim, tenho comentado com meus colegas de governo que todos
precisamos falar mais sobre privatização. Mas não
há dúvida de que no Brasil o processo de convencimento
da sociedade é mais difícil.
Veja Por quê?
Gros
Os outros países que privatizaram estavam tratando de um
setor público desmantelado, quebrado, desmoralizado. Esse
não foi exatamente o caso do Brasil. Nossas grandes empresas
estatais perderam eficácia, mas continuaram como grandes
empresas, que participaram do crescimento econômico brasileiro.
A Vale do Rio Doce, por exemplo, sempre foi uma grande companhia.
Não estávamos privatizando cadáveres, como
a Argentina fez, mas, sim, empresas que fizeram parte da história
de toda uma geração. Por isso é um programa
tão controvertido. É muito fácil falar quando
o assunto é prioridade ao social ou redução
das desigualdades regionais. Isso todo mundo aplaude. Porém,
quando se fala em privatização, uma parcela importante
da sociedade estrila. Alguns por razões ideológicas
porque existe uma visão marxista no Brasil que é
uma das mais fortes do mundo e outros por falta de informação.
Porque não foi dito claramente que a alternativa à
privatização seria a perda da eficácia da
economia e o aumento da pobreza.
Veja Qual o balanço que o senhor faz destes
dez anos de privatização?
Gros
O principal benefício foi a atração de capitais
para o Brasil. É bastante claro que o Estado brasileiro
tinha esgotado sua capacidade de investir. Se não tivesse
ocorrido a privatização, não teríamos
conseguido viabilizar os investimentos fundamentais que se deram
em vários setores, principalmente nos serviços públicos.
O caso da telefonia é o mais evidente. A privatização
das telefônicas permitiu que o Brasil desse um salto de
qualidade extraordinário. Além disso, a maioria
dessas empresas estatais tinha dificuldades gerenciais que foram
superadas com a privatização. Elas se tornaram companhias
mais ágeis e mais competitivas.
Veja A Vale do Rio Doce, como o senhor mesmo admite,
já era uma companhia competitiva. O que mudou depois da
privatização?
Gros
Para se ter uma idéia, em dois anos de privatização
o governo arrecadou em impostos mais do que nos dez anos anteriores.
É preciso dizer mais alguma coisa? No lado do emprego também
houve ganhos. Ao ser privatizada, a então quebrada Embraer,
que tinha 6.000 funcionários, demitiu 2.000. No ano passado,
já havia contratado 4.000 e, até 2004, a meta é
ter 12.000.
Veja No caso da telefonia, o que se vê é
um volume de queixas muito grande de consumidores insatisfeitos
com os serviços prestados pelas companhias privatizadas...
Gros
A telefonia é um caso bem-sucedido de privatização.
Houve uma expansão extraordinária do número
de terminais. Foram 27 milhões instalados nestes últimos
dois anos, entre fixos e celulares. O aumento das reclamações
tem de ser analisado sob outra ótica. Houve a inclusão
de milhões de novos usuários na rede, num processo
muito rápido. É evidente que isso causa alguns problemas.
Antes, não havia nem consumidor para reclamar, porque não
se tinha acesso ao telefone e também não se tinha
a quem reclamar, porque não existia órgão
fiscalizador. O erro foi achar que ao privatizar entraríamos
no paraíso. Ou seja, que acabaria a Telerj e imediatamente
entraria a telefônica da Suíça.
Veja As agências reguladoras estão sendo
muito criticadas por não estarem atuando de forma satisfatória
em defesa dos consumidores. Elas estão preparadas para
fiscalizar as companhias privatizadas?
Gros
O processo de privatização no Brasil começou
tarde e andou muito rapidamente. É preciso lembrar que
numa situação de crise econômica como nós
nos encontrávamos o fator mais importante era o tempo.
Era fundamental a velocidade. De fato, em certos casos, a privatização
foi feita antes que as regras de funcionamento pós-privatização
tivessem sido claramente estabelecidas e antes que as agências
de regulamentação estivessem plenamente aparelhadas.
Talvez estejamos pagando o preço de termos precisado caminhar
muito rápido no processo. Mas os passos estão na
direção correta.
Veja No caso das telefônicas e das empresas
de energia elétrica, houve uma sensível desnacionalização
do setor. Isso não é ruim para o país?
Gros
Não é bom nem ruim, é uma inevitabilidade.
É claro que precisamos ter grandes empresas nacionais competitivas.
Tenho colocado o BNDES à disposição para
apoiar empresários que queiram construir companhias assim.
Mas a realidade é que nós privatizamos numa época
da história brasileira em que o capital privado nacional
era escasso. E as estatais tiveram de ser vendidas a quem tinha
dinheiro, que era o investidor estrangeiro. Mas não vejo
isso como uma questão ideológica. À medida
que se precisa de capital, você tem de atraí-lo seja
de onde for. Mas é claro que precisamos, sim, ter nesses
setores algumas companhias brasileiras de porte competindo.
Veja O senhor acha que defender a empresa nacional
é um tema fora de moda no mundo globalizado?
Gros
Somos a nona economia do mundo, e eu não consigo imaginar
um PIB desse porte sem ter multinacionais brasileiras. Acho importante
até para nossa auto-estima. Se Portugal, Espanha, Bélgica,
que são países muito menores que o Brasil, têm
multinacionais, por que não podemos ter? Acho que faz parte
do processo de desenvolvimento econômico termos algumas
multinacionais brasileiras neste mundo globalizado. Agora, do
ponto de vista econômico e do consumidor, não faz
a menor diferença. Essa é, na verdade, uma estratégia
de governo, porque, economicamente, tanto faz eu comprar produtos
da Telemar ou da Telefónica.
Veja Um estudo do próprio BNDES mostra que
as empresas estrangeiras estão preferindo adquirir equipamentos
em seus países de origem a comprar das empresas brasileiras
aqui. O resultado é que muitos fornecedores nacionais fecharam
e o saldo da balança comercial para produtos de telecomunicações
ficou negativo para o Brasil. Isso não é risco?
Gros
Esse é um fenômeno real na atualidade, que afeta
as telefônicas também. Elas tendem a buscar um fornecimento
global para suas operadoras em vários lugares do mundo.
Se os produtos trazidos lá de fora forem mais baratos,
fica ainda mais difícil criticar a atuação
dessas empresas, já que não há razão
para o consumidor brasileiro pagar mais caro para subsidiar empresas
nacionais. Até porque isso não se sustenta no tempo.
Por esse motivo, a estratégia do banco vai ser a de apoiar
a indústria nacional, mas sempre buscando a competitividade.
Veja O que o BNDES está fazendo efetivamente
para tornar as empresas nacionais mais competitivas?
Gros
O que vamos fazer é deixar claro para os fornecedores que
o Brasil é um gigantesco mercado e por essa razão
é importante que eles invistam aqui. No setor de telefonia,
o banco tem trabalhado para trazer fornecedores globais para se
instalarem em nosso país. Isso tem dado resultados. A conta
do setor, que estava negativa para o Brasil em mais de 2 bilhões
de dólares há dois anos, com tendência a crescer
ainda mais, hoje está se revertendo. Uma das medidas que
já tomamos foi financiar 100% da compra de equipamentos
que tenham tecnologia nacional. Nem é pela questão
do nacional contra o estrangeiro. Mas sim porque temos um problema
de balanço de pagamentos e precisamos estimular mais exportações
e mais produção local de produtos importados. Isso
é fundamental.
Veja Como é que o governo espera que suas
empresas se tornem competitivas com as taxas de juro cobradas
no Brasil, umas das mais altas do mundo, e com os tributos pesados
que as empresas brasileiras precisam pagar?
Gros
Terminamos
a primeira parte de ajuste da economia brasileira, em que o equilíbrio
fiscal foi fundamental. Foi precondição para qualquer
outra coisa. Mas, evidentemente, precisamos agora nos preocupar
com a competitividade da economia brasileira, que passa pela reforma
tributária e pela redução gradual nas taxas
de juro. Mas isso não acontece por milagre. Todos no governo
temos plena consciência de que isso é básico.
Sem essas medidas, o resto não funciona. Mas também
sem estabilidade não dava nem para começar a discutir
essas questões.
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