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A
história de Joãozinho
Ele foi divinizado, demonizado,
secularizado,
psicanalisado.
De quem se trata? Do pênis
Carlos
Graieb

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Por
mais que considere essa mania uma bobagem, todo homem já cedeu
a ela: dar um apelido ao próprio pênis. Isso porque todo
homem, num momento ou outro da vida, já cultivou a suspeita de
que "Joãozinho" ou "Átila", muito embora faça parte
de seu corpo, é também uma entidade à parte, dotada
de um caráter todo seu seja ele de herói ou tirano,
seja de aliado ou traidor. Escrito pelo jornalista americano David M.
Friedman,
o livro Uma Mente Própria (tradução
de Ana Luiza Dantas Borges; Objetiva; 301 páginas; 39,90 reais)
mostra que vem de longe essa idéia de que o órgão
sexual masculino tem algo de independente. Mostra, também, que
essa idéia surgiu em meio a uma história movimentada
a "história cultural do pênis", que o autor se propõe
narrar.
"Ao
longo do tempo", diz Friedman, "o pênis foi divinizado, demonizado,
secularizado, racializado, psicanalisado, politizado e medicalizado."
O autor inicia sua história na Antiguidade, quando o pênis
era visto preponderantemente de maneira positiva, como um símbolo
de poder ou ligação com a esfera divina. Foi graças
à ejaculação do deus Enki que os rios Tigre e Eufrates
se encheram de água, diziam os sumérios. Entre os gregos,
quase toda casa de respeito contava com uma hermae estátua
com a cabeça do deus Hermes e uma ereção bem no meio
, enquanto em Roma um bom dote físico podia ser o passaporte
para uma promoção no Exército ou na burocracia. Foi
só na era cristã que a situação se inverteu.
A figura-chave nessa mudança foi Santo Agostinho, no século
IV. Para ele, a ereção era um lembrete amargo da corrupção
da natureza humana.
Agostinho, que transformou o pênis de "caule sagrado" em "ferramenta
do demônio", é um personagem de destaque na história
narrada por Friedman. Mas não o único. Sigmund Freud, que
viu no órgão masculino e nas fantasias que ele inspira um
dos pilares da psique humana, é outra grande "personalidade fálica".
Friedman destaca ainda artistas e cientistas como Leonardo da Vinci e
Versalius, os primeiros a explorar a anatomia do pênis. Também
dedica sua atenção a viajantes europeus do século
XIX, que fizeram dele um índice de superioridade ou inferioridade
racial, e a teóricas do feminismo para as quais o membro ereto
é, literalmente, uma arma de opressão.
Divulgação
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| O
Davi, de Michelangelo: renascentista, com pênis à
moda grega |
Circuncisão, castração, impotência, masturbação
todos esses temas são discutidos por Friedman. Além
do tamanho, é claro. Os gregos prezavam o pênis pequeno como
o de um garoto, ideal que ficou registrado em suas esculturas (e nas dos
renascentistas, que nelas se inspiraram). Já entre os romanos,
pênis diminutos eram motivo de chacota: para atacar um desafeto,
o poeta Catulo alardeou que ele era dono de uma "minúscula adaga".
A partir do século XIX, colonizadores europeus passaram a estudar
e até mesmo coletar pênis de negros africanos, cujo tamanho,
diziam, punha em dúvida sua humanidade. A questão do tamanho
ainda causa ansiedade e controvérsia: qual é a boa medida?
O último capítulo de Uma Mente Própria aborda
os mais recentes avanços científicos no campo da disfunção
erétil. Sob a luz dos consultórios médicos, o pênis
se tornou uma rede de vasos sanguíneos, neurotransmissores e tecido
muscular liso, que pode ser inflada ou esvaziada à vontade. "A
indústria da ereção reconfigurou o órgão,
substituindo o original melindroso por um modelo mais confiável",
escreve o autor. Depois de 5.000 anos, diz Friedman, drogas como o Viagra
parecem ter domado o pênis e resolvido, ao menos, a questão
de sua independência. Fim da história? Não tão
rápido. Friedman lembra que os efeitos fisiológicos e psicológicos
do uso continuado dessas drogas ainda estão longe de ser bem conhecidos.
Na melhor das hipóteses, a história cultural do pênis
está em seu epílogo.
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Pensando
naquilo
Para Santo Agostinho, ao comer do fruto proibido Adão
e Eva experimentaram duas novidades: a vergonha da nudez e uma luxúria
que não podiam controlar. A luxúria humana, simbolizada
pela ereção involuntária, era "a praga e a
marca do pecado, a lei em nossos membros combatendo a lei em nossa
mente".
Durante séculos, acreditou-se que a ereção
era causada por uma "inflação pelo vento". O italiano
Leonardo da Vinci foi o primeiro a rebater essa idéia
com estudos de anatomia. "Vi a anatomia desses pênis, todos
eles tendo grande densidade e preenchidos por uma grande quantidade
de sangue", escreveu ele em seus diários.
Para
Sigmund Freud, fantasias em torno do pênis eram
parte essencial da psique humana. Depois de verem os genitais do
outro sexo pela primeira vez, escreveu ele, tanto meninos quanto
meninas eram tomados pelo complexo de castração. Os
primeiros, por constatar que "o órgão que tanto valorizam
não acompanha necessariamente o corpo". As segundas, por
"sentir-se injustiçadas, tornando-se vítimas da inveja
do pênis".
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