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Edição 1 768 - 11 de setembro de 2002
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A história de Joãozinho

Ele foi divinizado, demonizado,
secularizado,
psicanalisado.
De quem se trata? Do pênis

Carlos Graieb


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Estação VEJA: trechos do livro

Por mais que considere essa mania uma bobagem, todo homem já cedeu a ela: dar um apelido ao próprio pênis. Isso porque todo homem, num momento ou outro da vida, já cultivou a suspeita de que "Joãozinho" ou "Átila", muito embora faça parte de seu corpo, é também uma entidade à parte, dotada de um caráter todo seu – seja ele de herói ou tirano, seja de aliado ou traidor. Escrito pelo jornalista americano David M. Friedman, o livro Uma Mente Própria (tradução de Ana Luiza Dantas Borges; Objetiva; 301 páginas; 39,90 reais) mostra que vem de longe essa idéia de que o órgão sexual masculino tem algo de independente. Mostra, também, que essa idéia surgiu em meio a uma história movimentada – a "história cultural do pênis", que o autor se propõe narrar.

"Ao longo do tempo", diz Friedman, "o pênis foi divinizado, demonizado, secularizado, racializado, psicanalisado, politizado e medicalizado." O autor inicia sua história na Antiguidade, quando o pênis era visto preponderantemente de maneira positiva, como um símbolo de poder ou ligação com a esfera divina. Foi graças à ejaculação do deus Enki que os rios Tigre e Eufrates se encheram de água, diziam os sumérios. Entre os gregos, quase toda casa de respeito contava com uma hermae – estátua com a cabeça do deus Hermes e uma ereção bem no meio –, enquanto em Roma um bom dote físico podia ser o passaporte para uma promoção no Exército ou na burocracia. Foi só na era cristã que a situação se inverteu. A figura-chave nessa mudança foi Santo Agostinho, no século IV. Para ele, a ereção era um lembrete amargo da corrupção da natureza humana.

Agostinho, que transformou o pênis de "caule sagrado" em "ferramenta do demônio", é um personagem de destaque na história narrada por Friedman. Mas não o único. Sigmund Freud, que viu no órgão masculino e nas fantasias que ele inspira um dos pilares da psique humana, é outra grande "personalidade fálica". Friedman destaca ainda artistas e cientistas como Leonardo da Vinci e Versalius, os primeiros a explorar a anatomia do pênis. Também dedica sua atenção a viajantes europeus do século XIX, que fizeram dele um índice de superioridade ou inferioridade racial, e a teóricas do feminismo para as quais o membro ereto é, literalmente, uma arma de opressão.

Divulgação
O Davi, de Michelangelo: renascentista, com pênis à moda grega


Circuncisão, castração, impotência, masturbação – todos esses temas são discutidos por Friedman. Além do tamanho, é claro. Os gregos prezavam o pênis pequeno como o de um garoto, ideal que ficou registrado em suas esculturas (e nas dos renascentistas, que nelas se inspiraram). Já entre os romanos, pênis diminutos eram motivo de chacota: para atacar um desafeto, o poeta Catulo alardeou que ele era dono de uma "minúscula adaga". A partir do século XIX, colonizadores europeus passaram a estudar e até mesmo coletar pênis de negros africanos, cujo tamanho, diziam, punha em dúvida sua humanidade. A questão do tamanho ainda causa ansiedade e controvérsia: qual é a boa medida?

O último capítulo de Uma Mente Própria aborda os mais recentes avanços científicos no campo da disfunção erétil. Sob a luz dos consultórios médicos, o pênis se tornou uma rede de vasos sanguíneos, neurotransmissores e tecido muscular liso, que pode ser inflada ou esvaziada à vontade. "A indústria da ereção reconfigurou o órgão, substituindo o original melindroso por um modelo mais confiável", escreve o autor. Depois de 5.000 anos, diz Friedman, drogas como o Viagra parecem ter domado o pênis e resolvido, ao menos, a questão de sua independência. Fim da história? Não tão rápido. Friedman lembra que os efeitos fisiológicos e psicológicos do uso continuado dessas drogas ainda estão longe de ser bem conhecidos. Na melhor das hipóteses, a história cultural do pênis está em seu epílogo.

 

Pensando naquilo

Para Santo Agostinho, ao comer do fruto proibido Adão e Eva experimentaram duas novidades: a vergonha da nudez e uma luxúria que não podiam controlar. A luxúria humana, simbolizada pela ereção involuntária, era "a praga e a marca do pecado, a lei em nossos membros combatendo a lei em nossa mente".

Durante séculos, acreditou-se que a ereção era causada por uma "inflação pelo vento". O italiano Leonardo da Vinci foi o primeiro a rebater essa idéia com estudos de anatomia. "Vi a anatomia desses pênis, todos eles tendo grande densidade e preenchidos por uma grande quantidade de sangue", escreveu ele em seus diários.

Para Sigmund Freud, fantasias em torno do pênis eram parte essencial da psique humana. Depois de verem os genitais do outro sexo pela primeira vez, escreveu ele, tanto meninos quanto meninas eram tomados pelo complexo de castração. Os primeiros, por constatar que "o órgão que tanto valorizam não acompanha necessariamente o corpo". As segundas, por "sentir-se injustiçadas, tornando-se vítimas da inveja do pênis".



   
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