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Edição 1 768 - 11 de setembro de 2002
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A insustentável
leveza do dólar

A pressão do cenário externo e a
escassez de moeda americana não
deixam o câmbio estabilizar-se

Denise Ramiro e Adriana Carvalho


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Apesar de terem sido tomadas todas as medidas do moderno manual econômico recomendadas para o caso, o dólar continua subindo como um balão no Brasil. Na sexta-feira passada, a moeda americana fechou cotada a 3,16 reais, culminando cinco dias consecutivos de alta. Tecnicamente, mesmo com o ambiente eleitoral embaralhando as percepções do mercado, era de esperar uma queda no dólar. No mês passado, o Brasil recebeu uma notícia que parecia em si suficiente para acalmar o câmbio. O Fundo Monetário Internacional liberou um empréstimo de 30 bilhões de dólares para o Brasil. Em seguida, o Banco Central (BC) anunciou que aumentaria a oferta de recursos para financiar exportadores, que não estão conseguindo crédito na praça. O presidente do BC, Armínio Fraga, e o ministro da Fazenda, Pedro Malan, saíram em excursão pelo mundo rico para demonstrar aos banqueiros estrangeiros a viabilidade econômica do Brasil em qualquer cenário político. Eles conseguiram o compromisso de que não haverá redução da oferta de linhas de crédito para as empresas nacionais.

Enquanto isso, no campo dos fundamentos da economia, outro bom indicador divulgado na semana passada também apontava para dias melhores. As exportações brasileiras bateram recordes históricos em julho e agosto. Em cada um desses dois meses o país exportou cerca de 6 bilhões de dólares. Isso levou o governo e os especialistas no setor a aumentar suas projeções de superávit comercial para este ano de 6 bilhões para 7 bilhões de dólares. Mesmo diante de tantos fatos positivos, o dólar teimou em não cair.

Há diversas explicações para o fenômeno. Em primeiro lugar, o cenário internacional está tormentoso. A economia americana dá sinais de que a recuperação será mais lenta do que se imaginava. Além disso, a iminência de uma invasão do Iraque pelos Estados Unidos assusta o mundo, porque nunca é possível medir com exatidão a dimensão que um conflito pode adquirir no Oriente Médio. A ameaça de guerra joga para cima o preço do petróleo. A conjunção de todos esses fatores torna o investidor mais arredio e diminui e encarece as linhas de crédito para as companhias de países emergentes. A dificuldade do setor privado de refinanciar suas dívidas é que deixa o mercado mais nervoso.

Para entender as raízes desse nervosismo, é bom saber como funciona o mercado de câmbio. Existem dois tipos de movimentação que ocorrem diariamente e influenciam a cotação da moeda. Um deles é o chamado mercado à vista, que hoje mobiliza no Brasil cerca de 800 milhões de dólares por dia e no qual empresas, bancos e exportadores compram ou vendem a moeda americana, dependendo de seus interesses e compromissos. Por exemplo, no mês passado as companhias mandaram para o exterior 1,6 bilhão de dólares, grande parte para pagar dívidas e outras transações comerciais. Foi a maior saída de recursos desde janeiro de 1999, quando ocorreu a desvalorização do real e quase 7 bilhões de dólares deixaram o país.

O outro tipo é o mercado futuro, movimentado por investidores e também pelas empresas que procuram proteger-se das oscilações da moeda estrangeira. Ele gira diariamente cerca de 3,5 bilh&otias e outras transações comerciais. Foi a maior saída de recursos desde janeiro de 1999, quando ocorreu a desvalorização do real e quase 7 bilhões de dólares deixaram o país.

O outro tipo é o mercado futuro, movimentado por investidores e também pelas empresas que procuram proteger-se das oscilações da moeda estrangeira. Ele gira diariamente cerca de 3,5 bilhões de dólares e é muito mais sensível às expectativas econômicas e políticas. "Portanto, não adianta apenas aumentar as linhas de crédito para os exportadores no mercado à vista sem melhorar as expectativas", diz Natan Blanche, da consultoria Tendências. "O cenário vai melhorar quando voltar o ingresso de dinheiro no país, o que só deve acontecer no momento em que o quadro eleitoral estiver definido."

Outro mercado de dólar muito mais precioso para o país é o dos investimentos estrangeiros diretos. São os dólares que entram principalmente para comprar e construir fábricas. Os sinais atuais são de que as grandes companhias estrangeiras continuam confiando no Brasil. Um bom exemplo é a gigante de fast food McDonald's, que tem no Brasil seu oitavo maior mercado mundial. Como acontece em outras multinacionais, a subsidiária brasileira recebia dinheiro da matriz em forma de empréstimos para ampliar sua rede e comprar equipamentos. Ou seja, os recursos tinham prazo para ser devolvidos. Nos últimos doze meses, entretanto, esses empréstimos foram transformados em investimentos permanentes. "Foram injetados 206 milhões de dólares nesse período, o que demonstra a confiança do McDonald's no Brasil a longo prazo", declara Eduardo Mortari Júnior, vice-presidente financeiro do grupo no país. Muitas multinacionais estão seguindo o mesmo caminho. De janeiro a julho, as conversões de empréstimos em investimentos somaram 5,6 bilhões de dólares, contra 912 milhões de dólares registrados em igual período do ano passado. Há empresas globais que vão tão bem no Brasil a ponto de não precisarem de ajuda da matriz. A Coca-Cola brasileira é totalmente auto-sustentável e tem no país seu terceiro maior mercado. Nos últimos três anos, investiu 2 bilhões de reais no Brasil. Outra companhia de peso, a Avon, também não depende da matriz americana para se manter no país. E os planos da fabricante de cosméticos para o Brasil continuam a todo o vapor.

 
Ilustração André Luiz

 

 
 
   
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