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A insustentável
leveza do dólar
A pressão
do cenário externo e a
escassez de moeda americana não
deixam o câmbio estabilizar-se
Denise
Ramiro e Adriana Carvalho

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Apesar de
terem sido tomadas todas as medidas do moderno manual econômico
recomendadas para o caso, o dólar continua subindo como um balão
no Brasil. Na sexta-feira passada, a moeda americana fechou cotada a 3,16
reais, culminando cinco dias consecutivos de alta. Tecnicamente, mesmo
com o ambiente eleitoral embaralhando as percepções do mercado,
era de esperar uma queda no dólar. No mês passado, o Brasil
recebeu uma notícia que parecia em si suficiente para acalmar o
câmbio. O Fundo Monetário Internacional liberou um empréstimo
de 30 bilhões de dólares para o Brasil. Em seguida, o Banco
Central (BC) anunciou que aumentaria a oferta de recursos para financiar
exportadores, que não estão conseguindo crédito na
praça. O presidente do BC, Armínio Fraga, e o ministro da
Fazenda, Pedro Malan, saíram em excursão pelo mundo rico
para demonstrar aos banqueiros estrangeiros a viabilidade econômica
do Brasil em qualquer cenário político. Eles conseguiram
o compromisso de que não haverá redução da
oferta de linhas de crédito para as empresas nacionais.
Enquanto
isso, no campo dos fundamentos da economia, outro bom indicador divulgado
na semana passada também apontava para dias melhores. As exportações
brasileiras bateram recordes históricos em julho e agosto. Em cada
um desses dois meses o país exportou cerca de 6 bilhões
de dólares. Isso levou o governo e os especialistas no setor a
aumentar suas projeções de superávit comercial para
este ano de 6 bilhões para 7 bilhões de dólares.
Mesmo diante de tantos fatos positivos, o dólar teimou em não
cair.
Há
diversas explicações para o fenômeno. Em primeiro
lugar, o cenário internacional está tormentoso. A economia
americana dá sinais de que a recuperação será
mais lenta do que se imaginava. Além disso, a iminência de
uma invasão do Iraque pelos Estados Unidos assusta o mundo, porque
nunca é possível medir com exatidão a dimensão
que um conflito pode adquirir no Oriente Médio. A ameaça
de guerra joga para cima o preço do petróleo. A conjunção
de todos esses fatores torna o investidor mais arredio e diminui e encarece
as linhas de crédito para as companhias de países emergentes.
A dificuldade do setor privado de refinanciar suas dívidas é
que deixa o mercado mais nervoso.
Para entender
as raízes desse nervosismo, é bom saber como funciona o
mercado de câmbio. Existem dois tipos de movimentação
que ocorrem diariamente e influenciam a cotação da moeda.
Um deles é o chamado mercado à vista, que hoje mobiliza
no Brasil cerca de 800 milhões de dólares por dia e no qual
empresas, bancos e exportadores compram ou vendem a moeda americana, dependendo
de seus interesses e compromissos. Por exemplo, no mês passado as
companhias mandaram para o exterior 1,6 bilhão de dólares,
grande parte para pagar dívidas e outras transações
comerciais. Foi a maior saída de recursos desde janeiro de 1999,
quando ocorreu a desvalorização do real e quase 7 bilhões
de dólares deixaram o país.
O outro
tipo é o mercado futuro, movimentado por investidores e também
pelas empresas que procuram proteger-se das oscilações da
moeda estrangeira. Ele gira diariamente cerca de 3,5 bilh&otias e outras transações
comerciais. Foi a maior saída de recursos desde janeiro de 1999,
quando ocorreu a desvalorização do real e quase 7 bilhões
de dólares deixaram o país.
O outro
tipo é o mercado futuro, movimentado por investidores e também
pelas empresas que procuram proteger-se das oscilações da
moeda estrangeira. Ele gira diariamente cerca de 3,5 bilhões de
dólares e é muito mais sensível às expectativas
econômicas e políticas. "Portanto, não adianta apenas
aumentar as linhas de crédito para os exportadores no mercado à
vista sem melhorar as expectativas", diz Natan Blanche, da consultoria
Tendências. "O cenário vai melhorar quando voltar o ingresso
de dinheiro no país, o que só deve acontecer no momento
em que o quadro eleitoral estiver definido."
Outro mercado
de dólar muito mais precioso para o país é o dos
investimentos estrangeiros diretos. São os dólares que entram
principalmente para comprar e construir fábricas. Os sinais atuais
são de que as grandes companhias estrangeiras continuam confiando
no Brasil. Um bom exemplo é a gigante de fast food McDonald's,
que tem no Brasil seu oitavo maior mercado mundial. Como acontece em outras
multinacionais, a subsidiária brasileira recebia dinheiro da matriz
em forma de empréstimos para ampliar sua rede e comprar equipamentos.
Ou seja, os recursos tinham prazo para ser devolvidos. Nos últimos
doze meses, entretanto, esses empréstimos foram transformados em
investimentos permanentes. "Foram injetados 206 milhões de dólares
nesse período, o que demonstra a confiança do McDonald's
no Brasil a longo prazo", declara Eduardo Mortari Júnior, vice-presidente
financeiro do grupo no país. Muitas multinacionais estão
seguindo o mesmo caminho. De janeiro a julho, as conversões de
empréstimos em investimentos somaram 5,6 bilhões de dólares,
contra 912 milhões de dólares registrados em igual período
do ano passado. Há empresas globais que vão tão bem
no Brasil a ponto de não precisarem de ajuda da matriz. A Coca-Cola
brasileira é totalmente auto-sustentável e tem no país
seu terceiro maior mercado. Nos últimos três anos, investiu
2 bilhões de reais no Brasil. Outra companhia de peso, a Avon,
também não depende da matriz americana para se manter no
país. E os planos da fabricante de cosméticos para o Brasil
continuam a todo o vapor.
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