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Edição 1 768 - 11 de setembro de 2002
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11 de setembro, o mundo nunca mais foi o mesmo
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O mundo nunca
mais foi o mesmo


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A história de quem sobreviveu
A tragédia em números
Por que o Islã não sente remorso
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A cobertura completa realizada por VEJA

Há acontecimentos tão únicos e assombrosos que passam a sinalizar as grandes viradas da história. Os ataques terroristas contra Nova York e Washington em 11 de setembro do ano passado tiveram um efeito tão devastador sobre as vidas, as propriedades e o orgulho americanos que não admira – escreveu o historiador inglês Paul Johnson – que os Estados Unidos tenham recorrido imediatamente à história para dar sentido ao que estavam presenciando. A analogia mais imediata foi com Pearl Harbor, o traiçoeiro ataque japonês à frota americana no Pacífico, em 1941. Motivados à época por sua imensurável superioridade moral e material, os Estados Unidos foram à guerra e varreram do mapa o militarismo japonês e o nazismo alemão. Um dos resultados da II Guerra foi o surgimento, em boa parte do planeta, de um ambiente de liberdade e prosperidade como nunca antes existira. Passados doze meses do atentado terrorista de 11 de setembro, ainda é imprudência afirmar que a queda das torres gêmeas do World Trade Center terá para as próximas gerações o profundo significado histórico que se chegou a entrever um ano atrás. Também é incerto se a guerra americana contra o terrorismo produzirá outra vez uma realidade melhor para se viver. O certo é que, a exemplo do que ocorreu após Pearl Harbor, o mundo está tremendamente diferente desde que as torres ruíram em Nova York.

A mudança representada pelo 11 de setembro pode ser mais percebida em três campos: a economia, a descoberta de que o universo muçulmano é muito mais complexo do que se imaginava e, por fim, a atual postura dos americanos em relação a países que consideram adversários. Na quinta-feira passada, caças americanos desfecharam sobre o oeste do Iraque o maior ataque presenciado na região desde a Operação Tempestade no Deserto, em 1991. Forças aéreas dos Estados Unidos e da Inglaterra fazem periodicamente ataques desse tipo, mas nunca com tal intensidade. Desde o começo do século XX e, com maior vigor, depois da I Guerra, os Estados Unidos são a maior potência do planeta. Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, tornaram-se a única superpotência. Embora abrigue apenas um vigésimo da população, o país é responsável por quase um terço da produção mundial. Como absorve um quarto de todas as exportações, é a única nação com potencial para puxar o crescimento global. Do ponto de vista militar, é imbatível. O orçamento do Pentágono corresponde à soma combinada dos gastos de defesa das nove principais potências militares do planeta. Nunca houve tamanha desproporção, mesmo se retrocedermos aos tempos do império romano.

 
Fotos AP

UM CENÁRIO DIFERENTE
Na foto à esquerda, o avião seqüestrado se aproxima da Torre Sul. A visão atual de Manhattan, sem as torres características do World Trade Center (à dir.)

A supremacia também é visível na produção científica e na cultura. Por meio da música e dos filmes de Hollywood, a língua, o modo de vida e até a culinária dos americanos tornaram-se a expressão da globalização no cotidiano dos outros povos. Nos anos 90, metade do planeta convenceu-se de que os Estados Unidos tinham a receita da felicidade material. A lapidação do modelo de crescimento chegou a um ponto que, quando o receituário não funcionava em outro país, os dirigentes locais eram acusados de não tê-lo seguido estritamente ou, então, de demonstrarem excessiva subserviência ao padrão de Washington. Não é mais assim. Os ataques de 11 de setembro não foram a causa, mas eles serviram para dramatizar um fenômeno já existente, o do desencanto em relação ao modelo americano como a solução de todos os problemas ligados ao desenvolvimento das nações.

A queda das torres gêmeas, que simbolizavam o vigor do capitalismo americano, foi precedida do fim do sonho de fortuna fácil das empresas pontocom. Em dois anos, a Nasdaq, na qual são cotizadas as ações das companhias de alta tecnologia, e a bolsa de Wall Street torraram juntas 7 trilhões de dólares em investimentos, mais de dez vezes toda a riqueza produzida no Brasil durante um ano. A economia americana está em marcha lenta, após uma década de expansão invejável. Não bastassem os atentados, que afetaram duramente a maior indústria mundial, a do turismo, e representaram um duro golpe na aviação comercial, a confiança dos americanos viu-se abalada pela revelação de fraudes escandalosas em empresas gigantescas, como a Enron. Todos esses fatores se combinaram na produção de baixo índice de investimentos, e vários setores da economia americana estão hoje na UTI.

 
A GUERRA SEM FIM
Destroços do carro-bomba que matou trinta pessoas em Cabul, na semana passada: prioridade americana é depor Saddam Hussein, ditador do Iraque

Quando a principal economia adoece, o contágio é inevitável. A Europa não consegue repetir a boa performance da década passada. O Japão encontra-se em recessão há dez anos. Na América Latina, o que se vê é um clima generalizado de desesperança em relação ao desenvolvimento. Uma das novidades é a maior relativização da receita americana de abertura econômica, privatizações e redução do Estado, o conjunto batizado de Consenso de Washington. Outros modelos de desenvolvimento, antes considerados de segunda linha, voltaram à ordem do dia. O europeu, por exemplo. Apresenta índices de desemprego altos, mas não existe miséria e a rede de proteção social é espetacular. Essa percepção ocorre sobretudo nos países pobres ou em desenvolvimento, que não viram a recompensa a seus esforços na perseguição das metas econômicas preconizadas pelos defensores de um estrito modelo liberal. O processo de globalização não se reverteu, mas as novas medidas de segurança jogaram areia nas engrenagens, cuja lógica depende de fronteiras abertas e da livre movimentação de bens e pessoas.

Mais chocante foi a descoberta de um dos limites da globalização, até então despercebido, o Islã. O mundo islâmico vem sendo rotineiramente devassado nos meios acadêmicos há muito tempo. As multidões nos países ocidentais não sabiam, no entanto, que o universo dos turbantes era muito mais complexo do que parecia. Depois do fim do comunismo, os Estados Unidos e seus aliados, os países industrializados da Ásia e da Europa, convenceram-se de que a modernidade, a democracia e a economia de mercado são desejadas em todo o mundo. Devido a outra escala de valores, tais novidades não são bem-vindas para um número significativo do contingente de 1,3 bilhão de muçulmanos. Após o choque resultante da carnificina cometida em nome de Alá, o mundo islâmico foi repentinamente iluminado por um holofote. A opinião pública mundial descobriu que esse universo era menos administrável do que se imaginava. Percebeu-se também a existência da Al Qaeda, a organização fundamentalista responsável pelos ataques de 11 de setembro.

Há dez anos, o pensador americano Francis Fukuyama escreveu que o mundo tinha chegado ao fim da história com a vitória da democracia liberal e do capitalismo de mercado. Agora, em texto escrito a pedido de VEJA, ele admite surpresa com a resistência de certos povos em embarcar no trem da modernidade. É interessante que não se trata de desconhecimento do mundo moderno, mas de sua rejeição em nome da pureza religiosa. Mohamed Atta e vários dos outros seqüestradores de 11 de setembro eram homens instruídos, que moravam e estudavam no Ocidente. A desconexão cultural existente no caso de Osama bin Laden e seus fundamentalistas islâmicos tem ares de ser absoluta. "Será que só nossa miopia nos faz imaginar que os valores ocidentais sejam potencialmente valores universais?", questiona Fukuyama. Para o homem do Ocidente, acostumado à separação entre Igreja e Estado, a motivação do terrorismo islâmico parece tão fora do tempo quanto a discussão do sexo dos anjos – mas a matança em Nova York e Washington mostra que a ameaça islâmica é concreta. O Islã é multifacetado por várias nações, mas tem uma característica curiosa: não produziu um só país democrático ou desenvolvido. O contraste entre a pobreza dos fiéis e a riqueza do Ocidente fomentou rancor. A resposta às dificuldades materiais e à falta de liberdade, levantada nas mesquitas, é a de que a identidade religiosa supera todos os valores políticos. A questão tornou-se urgente depois do 11 de setembro, mas até agora não se encontrou uma resposta: como desarmar a bomba-relógio do radicalismo islâmico?


Reuters

NEGÓCIOS INACABADOS
A base do terrorismo foi dizimaers

NEGÓCIOS INACABADOS
A base do terrorismo foi dizimada no Afeganistão, mas as dúvidas sobre o paradeiro de Osama bin Laden preocupam os americanos: onde será o próximo ataque?


Uma característica do novo mundo é a disposição americana de combater o terror em qualquer país. Mas não dá para ganhar a guerra sozinho, e o grande desafio do presidente George W. Bush é convencer os governantes dos países amigos do bom senso de sua política de isolar o que chama de "eixo do mal" – o Irã, a Coréia do Norte e o Iraque. A cruzada antiterrorista americana tem sido conduzida com modos imperiais, o que desagrada aos aliados naturais, a França, a Inglaterra e a Alemanha. Bush conseguiu apoio global para atacar o Afeganistão, foco do terrorismo islâmico. Mas a história é totalmente diferente no que diz respeito a usar a força para tirar do poder Saddam Hussein, o ditador do Iraque. Com tudo isso, os Estados Unidos passaram a ser vistos como uma potência que impõe sua vontade ao mundo.

Muitas transformações foram para melhor. O foco do terrorismo no Afeganistão foi rapidamente dizimado pelo poderio militar dos EUA. Os prognósticos sombrios sobre um novo Vietnã não se confirmaram. Mas as dúvidas sobre o paradeiro dos principais líderes da Al Qaeda, especialmente o saudita Osama bin Laden, continuam gerando ansiedade. Os americanos estão surpresos com a descoberta de que não são amados nem admirados como sempre acreditaram. É um conhecimento doloroso, sobretudo na hora em que são vítimas e estão mais fragilizados. É também uma injustiça. Nenhum ato oficial cometido pelos Estados Unidos poderia justificar o ocorrido em 11 de setembro. De qualquer forma, o que enfurece os fundamentalistas islâmicos não são os defeitos, e sim as qualidades da sociedade americana, como a tolerância religiosa, os direitos da mulher e a separação entre Igreja e Estado. "Mesmo arrogantes e unilateralistas, os Estados Unidos são melhores que as alternativas", disse a VEJA o cientista político Tom Donnelly, de Washington. "Quem gostaria de viver sob a influência da ditadura chinesa?"

Um ano antes de pilotar um dos Boeing usados para colocar abaixo o World Trade Center, o egípcio Mohamed Atta, que se supõe tenha sido o chefe da conspiração terrorista, procurou uma agência de crédito do governo americano e pediu dinheiro emprestado para abrir o próprio negócio. Não recebeu ajuda, mas o episódio ilustra uma qualidade inigualável dos EUA, o do país de fronteiras abertas, amigável com estrangeiros e terra de oportunidades. Devido à agressão terrorista, o ambiente está um pouco mudado. Hoje, um árabe é visto com alguma suspeição quando se movimenta pelas calçadas americanas. As autoridades dos Estados Unidos se aproveitaram de leis criadas para ser usadas em período de guerra para manter incomunicáveis atrás das grades mais de 1.000 suspeitos de terrorismo, entre eles grande quantidade de estrangeiros. Numa base militar em Cuba, os militares guardam seis centenas de prisioneiros da campanha no Afeganistão. Em um país cujos fundamentos repousam no direito individual à defesa, tais medidas de exceção causam preocupação. Está claro que a virulência dos ataques provocou não só respostas militares, mas também um reexame de muitos aspectos do estilo de vida e das atitudes dos americanos. Qualquer um que entre num aeroporto americano sentirá na pele a obsessão das novas medidas de segurança. Ainda assim, não ocorreu o surto de xenofobia que se chegou a temer. O multiculturalismo – como são chamados a tolerância e o convívio com as diferenças culturais – fincou raízes tão sólidas nos Estados Unidos que não se deixou abater pela retórica patrioteira pós-atentado. A preservação desse espírito aberto é a maior homenagem que se poderia fazer ao povo americano no aniversário da grande tragédia.

 

   
 
   
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