Diogo
para
presidente (3)
"Ao
contrário de Patrícia Pillar, minha
mulher se recusou a gravar uma declaração de voto a meu
favor. Disse
que sou grosso, autoritário e mentiroso.
Minha
candidatura está abalada"
Domingo Acaba de ser divulgada nova pesquisa eleitoral. Estou em
último lugar. Meus aliados começam a dar preocupantes sinais
de desânimo. Bandeiras enroladas. Adesivos queimados. Analiso os
dados da pesquisa para corrigir os rumos da campanha. Os eleitores mais
escolarizados votam em Lula, o candidato menos escolarizado. É
o velho mito do bom selvagem, incrustado na consciência nacional.
Lula é igual aos canibais que os jesuítas exibiam na Europa
do século XVI, um símbolo de bondade e pureza do homem primitivo.
Ainda bem que o Brasil continua cheio de analfabetos, que só aceitam
votar em quem conhece uns rudimentos de gramática e aritmética.
É o meu eleitorado. Viva o analfabetismo! Prometo solenemente dobrar
o número de analfabetos no exíguo prazo de quatro anos!
Segunda-feira Passei o dia em campanha num supermercado. Enorme
sucesso. Duas simpáticas donas-de-casa prometeram votar em mim.
Pena que o supermercado e as simpáticas donas-de-casa se encontrassem
na Itália, onde moro há diversos anos, prova indiscutível
de meu amor pátrio. Acho que os estrangeiros deveriam ter o direito
de participar das eleições brasileiras. Não digo
os italianos, que, como nós, votam muito mal, mas os noruegueses,
que têm longa tradição de bons governos. Aliás,
eu iria ainda mais longe: delegaria inteiramente aos noruegueses a tarefa
de escolher nossos governantes. Eles poderiam assistir na televisão
aos programas eleitorais (preferivelmente sem tradução)
e votar em nosso lugar. Certamente sairíamos ganhando.
Terça-feira Apenas 37% dos brasileiros confiam na democracia.
Estimulados por esse dado, Ciro Gomes visitou o túmulo de Getúlio
Vargas e Lula elogiou o general Medici. Que tirano sobrou para mim? D.
Pedro I? Aquele que meteu uma bala na cabeça de um escravo que
não pôde ajoelhar-se em sinal de reverência porque
carregava um enorme fardo? Viva a monarquia!
Quarta-feira Alguns de meus adversários se vangloriam de
ter tido uma infância pobre. Segundo o relato emocionado de Gugu
Liberato, José Serra é filho de um fruteiro, mas, graças
à sua determinação, conseguiu subir na vida. Eu fiz
o caminho inverso: nasci rico e fui empobrecendo ao longo dos anos. De
acordo com o formulário usado pelos publicitários para determinar
a classe social dos consumidores, atualmente pertenço à
classe C, como 51,3% dos moradores de favela do Rio de Janeiro. Sou o
mais pobre dos candidatos. Votem em mim, pobres!
Quinta-feira Os demais candidatos podem contar com o apoio de personalidades
de reconhecido valor intelectual, como Zeca Pagodinho (Lula), Fagner (Ciro),
KLB (Serra) e Edmílson (Garotinho). Onde estão meus formadores
de opinião?
Sexta-feira Ao contrário de Patrícia Pillar, minha
mulher se recusou a gravar uma declaração de voto a meu
favor. Disse que discorda de todas as minhas teses. E que sou grosso,
autoritário e mentiroso. E que, de agora em diante, recusa-se a
dormir comigo. Minha candidatura está abalada.
Sábado Desisti de ser presidente do Brasil. Prefiro ser
vereador em Teletubilândia.
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