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"Na ânsia de viver mais, estamos perdendo o prazer de tomar um bom vinho, apreciar um prato de carne, matar a vontade de comer um doce" |
O cardiologista carioca Luiz Roberto Londres, de 61 anos, é proprietário e diretor da Clínica São Vicente, um dos hospitais mais conceituados do Rio de Janeiro. Nessa função, era de esperar que fosse um arauto dos incríveis avanços que remodelaram a medicina nos últimos anos. Mas Londres tem uma visão diferente de sua profissão. Mestre em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica carioca, ele é bastante crítico em relação ao modo como a medicina vem sendo praticada e divulgada nos dias de hoje. Condena o que chama de medicalização da vida e assesta suas baterias contra o primado da tecnologia nos diagnósticos. Londres acredita que, na maioria dos casos, os equipamentos não são tão eficazes quanto um médico bem treinado, que enxergue o paciente como um ser humano integral. "Os aparelhos, que deveriam ser coadjuvantes, roubaram a cena principal", diz Londres nesta entrevista a VEJA.
Veja Como o senhor vê o enorme interesse das pessoas
por assuntos médicos?
Londres
Com preocupação. Estamos vivendo um período que chamo
de ditadura da medicina. Todo mundo se sente obrigado a seguir rigorosamente
as normas médicas que nos são impostas. O resultado disso
é que, na ânsia de viver mais, estamos perdendo o prazer
de tomar um bom vinho, apreciar um prato de carne, matar a vontade de
comer um doce. Esses prazeres ficaram proibidos. É a medicalização
da vida. Tomar um vinho é uma das melhores coisas que existem.
Por que tirar esse prazer das pessoas? Essa ditadura está nos roubando
o sabor da existência. O tempo todo somos bombardeados com centenas
de novos estudos científicos que dizem que determinado alimento
pode causar câncer ou que tal hábito da vida moderna pode
levar ao infarto. É um verdadeiro terrorismo médico.
Veja Mas esses estudos não são sérios?
Londres
Não
estou dizendo que nenhum estudo merece crédito. Aliás, boa
parte deles tende a ser séria. É preciso tomar cuidado,
no entanto, com as suposições apresentadas em tom de afirmação.
Recentemente, um colega me trouxe um estudo que associava o uso do telefone
celular ao desenvolvimento de tumores no cérebro. Todo o texto
estava no condicional "poderia, levaria" , mas na transcrição
de uma frase de um pesquisador havia o fatídico "afirmou fulano".
Pode parecer um detalhe, mas esse tipo de coisa passa a idéia de
que todos os dados ali contidos estão comprovados, são verdade
absoluta. Na realidade, é hipótese em cima de hipótese,
com uma afirmação no final. Isso é um exemplo do
terrorismo médico a que me refiro. Além disso, é
preciso ter em mente que a verdade científica é quase sempre
passageira. No livro A Lógica da Descoberta Científica,
o filósofo austríaco Karl Popper mostra isso. Uma teoria
é verdadeira com base nos conhecimentos que existem até
o momento em que ela foi formulada. Ela pode ser reforçada ou contestada,
dependendo do que vai sendo descoberto. O exemplo mais recente foi dado
pela polêmica em torno da reposição hormonal. Há
pouco tempo, a verdade científica dizia que a reposição
era uma ótima terapia para as mulheres. Agora, o tratamento se
voltou contra elas. Concluiu-se e eu acho que há exagero
nisso que a reposição aumenta os índices de
câncer acima do tolerável, do ponto de vista estatístico.
Quando comecei a estudar medicina, sabia-se que o alcoolismo levava à
cirrose hepática. Nos últimos anos de faculdade, a causa
da cirrose passou a ser alcoolismo associado à desnutrição.
Depois que me formei, voltou-se à teoria do alcoolismo como fator
isolado da doença.
Veja O senhor acha que os resultados desses estudos não
deveriam ser divulgados?
Londres
De forma nenhuma. Sou da opinião de que, quanto mais conhecimento,
melhor. Acho que isso contribui para que as pessoas se tornem donas de
seus tratamentos e que se previnam contra doenças. Eu mesmo, quando
tenho algum problema de saúde, vou correndo para a internet. O
problema, volto a dizer, é que atualmente as medidas de prevenção
estão sendo levadas ao extremo. O grande risco humano não
é a morte. Viver é o grande risco. A maioria das proibições
impostas pelos doutores de hoje me lembra a religião católica,
em que tudo o que é prazeroso é proibido.
Veja Antes era melhor?
Londres
O que posso dizer é que, no passado, os médicos eram mais
humanos e valorizavam mais a alegria de viver como fator de manutenção
da saúde. Veja o caso dos franceses: eles almoçam sentados,
passam horas num café e ainda por cima fumam. Mas sofrem menos
de problemas cardíacos e são mais longevos do que os americanos.
Na minha opinião, uma pessoa que se dispõe a viver bem tem
muito mais chance de ter boa saúde do que aquela constantemente
preocupada em evitar doenças.
Veja O senhor acha que muitos procedimentos são desnecessários?
Londres
Sem dúvida. Os médicos estão tirando o doente da
vida, ainda em vida. Posso citar como exemplo a história de uma
conhecida minha. Aos 70 anos, ela recebeu o diagnóstico de um câncer
incurável, que não levaria mais do que seis meses para matá-la.
Mesmo assim, o médico lhe aconselhou a submeter-se a uma operação.
Com a cirurgia, viveria um pouco mais. Só que não lhe disseram
que, se não se submetesse à operação, ela
poderia aproveitar o pouco tempo que lhe restava com uma saúde
razoável, desfrutando a companhia dos filhos e dos netos, em casa.
Pois bem, essa senhora viveu nove meses, depois do diagnóstico
e da operação, mas teve de enfrentar sessões pesadas
de quimioterapia. Resumo da história: passou os seus últimos
meses sofrendo de um terrível mal-estar. O que teria sido melhor
para ela?
Veja Mas não é uma obrigação
médica tentar salvar uma vida até o fim, com todas as armas
disponíveis?
Londres
Sim,
mas não podemos nos esquecer do bom senso. O problema é
que, ao mesmo tempo que contamos com equipamentos de última geração,
que realmente salvam vidas, falta sensibilidade aos médicos de
hoje. O bom senso é fundamental. Os médicos estão
rigorosos além da conta. Eles costumam recomendar a um paciente
que tenha sofrido um infarto que evite, por exemplo, tomar um chope ou
comer uma feijoada. É um exagero. Obviamente não vou recomendar
que as pessoas saiam por aí bebendo mas um copo de chope
não faz mal a ninguém. O que faz mal é privar o paciente
desse pequeno prazer.
Veja Se alguma coisa der errado, o médico pode vir
a ser responsabilizado por aquele copo de chope.
Londres
A função primeira do médico não é se
defender. É defender o paciente. Esse é o grande problema:
os médicos que se defendem antes de defender o paciente não
estão exercendo a sua profissão como deveriam. É
o que acontece nos Estados Unidos hoje. O médico, para se prevenir
da acusação da chamada má prática, pede quinhentos
exames. Conheço a história de um cirurgião pediátrico
brasileiro que saiu da sala de cirurgia e disse à família:
"Cometi um erro, vou corrigi-lo". Sabe qual foi a reação
da família? Ela ficou agradecida pela sua franqueza e disposição
em cuidar do doente.
Veja Nos Estados Unidos, uma situação dessas
é motivo para um processo milionário, que pode até
resultar na cassação do registro profissional do médico.
Londres
Sim,
é tão grande o número de ações contra
médicos que hoje existe uma verdadeira indústria de processos.
Essa indústria alimenta o terrorismo médico. Com medo de
serem processados, eles cercam-se de todos os cuidados. No caso, o maior
número possível de exames e internações. É
uma bola de neve.
Veja À medida que aumenta o conhecimento sobre as
doenças, não aumenta também o medo das pessoas?
Londres
É o mesmo princípio do mercado financeiro: quanto mais notícias
negativas, maior o nervosismo. As pessoas são bombardeadas com
as informações do que faz mal, do que causa câncer,
problemas cardíacos, diabetes... E ficam cada vez mais assustadas,
correm para os consultórios médicos e entopem-se de remédios.
Um estilo de vida saudável é suficiente para evitar uma
montanha de medicamentos. A exceção fica por conta da aspirina,
que comprovadamente faz bem ao coração por ser um anticoagulante
fantástico. O grande problema do mundo moderno são os excessos.
Comer de vez em quando um hambúrguer de lanchonete não mata
ninguém do coração, por mais "cardiopatizantes" e
"obesificantes" que sejam os fast foods.
Veja Então um cigarro por dia não faz mal?
Londres
Por que um cigarro faria mal a alguém? Nenhum médico libera
o cigarro a seus pacientes porque quase ninguém consegue fumar
apenas um por dia. Mas insisto: tudo é uma questão de bom
senso. Conheço o caso de uma mulher acidentada que ficou tetraplégica.
Quando estava internada, ela pediu ao seu médico para fumar um
cigarro e ele negou. A paciente estava fragilizada, queria ter um pequeno
prazer e recebeu um não como resposta por causa de um rigor bobo.
Isso não é ser razoável.
Veja Bons equipamentos não garantem uma melhor prática
médica?
Londres
Na maior parte das vezes, o uso extensivo de equipamentos só serve
para encarecer o sistema de saúde. Nosso modelo tem sido a medicina
americana, a mais cara do planeta, com custos 60% maiores do que a canadense
e 100% maiores do que a européia. E nem assim ela apresenta resultados
grandiosos. Um estudo recente feito em um hospital universitário
alemão analisou a acuidade diagnóstica nos anos de 1958,
1968, 1978 e 1988. A avaliação dos resultados chegou a duas
conclusões básicas. Primeira: o uso da tecnologia pesada
não melhorou o diagnóstico. À exceção
do câncer, os índices de acerto ficaram iguais ou até
pioraram. Veja: em 1958, não existiam endoscopia, tomografia, ressonância,
biópsia nem ultra-som. A segunda conclusão: de todos os
métodos diagnósticos, o que se mostrou mais conclusivo foi
o relato da história clínica do paciente seguido do exame
físico. É o de menor custo e o que mais agrada ao paciente.
Veja Como é possível que, mesmo com todo o
aparato técnico, os resultados não sejam melhores?
Londres
Os aparelhos, que deveriam ser coadjuvantes, roubaram a cena principal.
A tecnologia, citando o médico americano Eric Cassell, um estudioso
do assunto, tornou-se a vassoura da feiticeira: adquiriu vida própria.
Os médicos perderam o contato com os pacientes, não os ouvem
como deveriam. O quadro tende a piorar porque os novos candidatos a médicos
têm características cada vez mais técnicas e menos
humanitárias. Um médico de verdade tem de entrar na complexidade
psicológica e biológica de seu paciente. E isso não
se faz somente com aparelhos.
Veja O senhor não tem medo de soar passadista?
Londres
Eu não repudio os avanços técnicos. Não sou
louco. Mas constato que a medicina saiu fora de seu eixo principal, a
consulta, para se basear em exames complementares. Quando uma consulta
é bem-feita, o diagnóstico correto é atingido em
cerca de 90% dos casos. Há uma frase atribuída a Maimônides,
médico espanhol do século XII, que diz: "Uma consulta deve
durar uma hora. Por cinqüenta minutos ausculte a alma do paciente.
Nos outros dez faça de conta que o examina". Um certo exagero,
é verdade, mas ela serve para mostrar a importância da dimensão
humana. Atribuir a aparelhos a arte da clínica é o mesmo
que atribuir a arte de Picasso à marca de seus pincéis.
Veja Qual o critério que o senhor, como paciente,
utiliza para escolher um médico?
Londres
Em primeiro lugar, não vou a médico mais importante do que
eu. Médicos que dão mais importância a si próprios
do que aos pacientes devem ser evitados. Profissionais pouco afetivos
também representam um problema. Há alguns anos, o escritor
João Ubaldo Ribeiro foi internado na minha clínica. Depois
que recebeu alta, ele escreveu uma crônica sobre a experiência.
João Ubaldo criticou o atendimento que recebeu no centro de terapia
intensiva. Disse que tudo era muito impessoal e que faltava humanidade
naquele ambiente. Resolvi, então, convidá-lo para um debate
na minha clínica, do qual participariam médicos, enfermeiros
e estudantes. A maior parte dos profissionais reclamou. Eles achavam que
a presença do escritor era desnecessária. Fiquei impressionado
com a falta de visão humana. Na minha opinião, esse problema
é fruto do tecnicismo que domina a prática médica
hoje em dia. O paciente é tratado como um número de estatística,
um corpo desprovido de vontade e de história.
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