Do fundo do baú

Ofícios que estavam decadentes
renascem e dão um bom dinheiro

Alice Granato

Antônio Milena

Isabella Suplicy: trocou o diploma de advogada pelo fogão


Há cinco anos, a jovem Isabella Suplicy abandonou pelo meio um curso de direito e decidiu que teria outra profissão. Trocou sem hesitação o Código Penal e a Constituição brasileira por um conjunto de assadeiras e um bico de confeitar. Abriu mão dos computadores, da internet e, principalmente, de um prestigiado diploma universitário para ser doceira, uma atividade considerada até há pouco tempo como simplória, antiquada e típica das donas de casa que precisavam reforçar o orçamento doméstico. Hoje, aos 26 anos, consegue atender, com a ajuda da mãe, da avó e da irmã, a encomendas para festas de até 3.000 pessoas, cobrando 130 reais em cada lote de 100 doces. Isabella tem entre seus clientes a cantora Maria Bethânia, a apresentadora Eliana e um punhado de paulistanos endinheirados. "Vou para a beira do fogão sem preconceito", diz ela. "Meu trabalho é absolutamente artesanal, feito com o máximo de dedicação."

Isabella é parte de um grupo de profissionais que conseguem viver, e bem, trabalhando com atividades que até algum tempo atrás eram consideradas anacrônicas e decadentes na moderna sociedade de consumo. Quem pensou que os supermercados, as comidas congeladas, os shopping centers e as grandes lojas eliminariam de vez antigos ofícios, como produzir doces para festas, costurar roupas sob medida ou mesmo encadernar livros, enganou-se redondamente. Essas profissões não só continuam a existir como ganharam um verniz de sofisticação. São uma alternativa de consumo personalizado. Jardinagem e pintura de parede, por exemplo, já se aprendem na escola. O Serviço Nacional do Comércio, Senac, mantém os dois ofícios entre seus cursos e apenas no ano passado formou 130 novos jardineiros e noventa pintores. Em média, a procura por cursos desse tipo tem sido 20% superior ao número de vagas oferecidas.

Tesoura e agulha "Vivemos um renascimento", afirma Marcelo Colameo, filho de um alfaiate que assumiu os negócios do pai à frente da oficina Leonardo Ufficio Di Moda. Ele lembra que nos anos 70, com a explosão da indústria de confecção, os artesãos que trabalhavam com tesoura, fita métrica, agulha e tecido acharam que não resistiriam à força das máquinas. "As pessoas só queriam usar roupas prontas", relembra ele. "Isso acabou. Nosso trabalho voltou a ser sinônimo de qualidade e bom gosto." Colameo, que tem 40 anos, cobra entre 1.000 e 3.000 reais por suas criações. A cada mês, a oficina produz cerca de trinta ternos.

O presidente Fernando Henrique Cardoso é provavelmente o cliente mais ilustre do sapateiro Renzo Nalon. Ele tem em seu armário doze pares de sapato feitos a mão pelo artesão. São produtos especiais com características que dificilmente poderiam ser oferecidas por aqueles fabricados em escala industrial. "O presidente calça número 40 e meio, mas a largura e a altura de seus pés são equivalentes ao número 42", conta Nalon, de 62 anos. "Como o sapato é feito a mão, é muito mais confortável." O preço do conforto é digno do poder de quem o exige. Cada par feito por Nalon pode custar até 380 reais.

 
 

 




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