O mito e a ciência na Bíblia

Ao tentar decifrar os mistérios da fé, cientistas
fazem novas descobertas sobre o Santo Sudário

Maurício Cardoso

Reprodução
A cena do sepultamento
de Jesus: polens que só
existem em Jerusalém


A botânica lançou, na semana passada, um alento na fé das pessoas que acreditam no Santo Sudário, o lençol de linho que teria servido de mortalha para Jesus Cristo. Pesquisadores israelenses anunciaram que a relíquia católica, conservada há 400 anos na Catedral de Turim, na Itália, é originária de uma época anterior ao século VIII e de uma região vizinha a Jerusalém e não de tempos muito mais recentes, conforme conclusão de uma polêmica pesquisa anterior, que praticamente transformou a relíquia numa peça fraudulenta. Chegaram a essa conclusão ao analisar amostras de pólen de plantas encontradas no Sudário. São espécies que só existem na região em que Jesus viveu e foi morto. E mais: elas só florescem na época da Páscoa, entre março e abril. Uma delas teria sido usada na confecção da coroa de espinhos de Jesus. "À luz de nossas descobertas, é muito provável que o Sudário tenha vindo realmente da Terra Santa", disse Avinoam Danin, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, durante o Congresso Internacional de Botânica, em Saint Louis, Estados Unidos. Há outra coincidência intrigante. As mesmas espécies de pólen foram encontradas em outra relíquia católica, o chamado Sudário de Oviedo. Menos conhecido que a relíquia de Turim, é um pedaço de tecido trazido de Jerusalém no século VIII e hoje exposto na Catedral de Oviedo, na Espanha. Acredita-se que seja o lenço com o qual Verônica enxugou o sangue e o suor de Jesus a caminho do Calvário.

Todas essas novidades vieram adicionar novos ingredientes a um dos ramos mais populares e polêmicos da ciência. São as pesquisas que envolvem personagens e eventos bíblicos. As histórias contadas na Bíblia ou, mais exatamente, em partes da Bíblia são artigo de fé para cerca de 3 bilhões de cristãos, judeus e muçulmanos. Antes restritas às discussões filosóficas e teológicas, elas ganham um interesse cada vez maior de historiadores, arqueólogos, lingüistas e outros estudiosos em diversos campos da ciência. Novos estudos e descobertas arqueológicas estão tentando separar fato de ficção para explicar o que tem algum fundamento histórico, o que é mitologia e o que é ciência nos relatos bíblicos.

Inst. de Agostin/Nippon
A criação do mundo nos afrescos de Michelangelo, na Capela Sistina: os sumérios e os gregos contavam em sua mitologia história semelhante à versão bíblica desse evento


A enchente universal
Tome-se o livro do Gênesis, que narra a criação do universo, o aparecimento da vida na Terra e a saga dos patriarcas do povo hebreu. Com pequenas variações, a frase "no princípio Deus criou o céu e a terra" aparece na mitologia de culturas tão diferentes como a dos sumérios e dos babilônios, dos zulus da África e dos índios da América. Outro exemplo é a história do dilúvio e da arca de Noé. Segundo a narrativa bíblica, Deus resolveu castigar a humanidade pecadora com uma enchente universal. Mas preservou da catástrofe o justo Noé, sua família e os animais que ele conseguiu recolher na arca antes da inundação. Os sumérios, povo contemporâneo dos hebreus, tinham uma lenda semelhante, em que Noé ganhava o nome de Utnapishtim. A história está contada na epopéia de Gilgamesh, um suposto rei da Babilônia que teria vivido em meados do terceiro milênio antes de Cristo. Neste ano dois cientistas americanos, William Ryan e Walter Pitman, publicaram um livro O Dilúvio de Noé em que dão uma explicação geológica ao evento. Segundo dados levantados pelos dois geólogos, por volta do ano 6000 a.C. uma barreira que dividia o Mar Mediterrâneo do Mar Negro se rompeu provocando uma inundação monstruosa na região onde Noé teria vivido.

O Sacrifício de Isaac, por
Caravaggio: os pesquisadores
não encontraram referências
que pudessem comprovar
a existência de Abraão, de
seu filho ou dos patriarcas de
Israel fora dos textos bíblicos

A Bíblia é o maior best-seller de todos os tempos. A cada ano são vendidos ou distribuídos mais de 50 milhões de cópias em todo o mundo, traduzidas oficialmente para mais de 2.000 idiomas. Só no Brasil são 7 milhões de livros vendidos anualmente. Mesmo que se deixe de lado a fé, os livros sagrados são dignos de atenção, porque contêm inegáveis qualidades literárias e lições de grande sabedoria. "A Bíblia passa ensinamentos, propicia reflexões, é o grande código do pensamento e a matriz da literatura ocidental", diz o professor de história Hilário Franco Júnior, da Universidade de São Paulo, USP. Reais ou não, as histórias bíblicas são permeadas por regulamentos morais que moldaram de forma definitiva a civilização ocidental. Boa parte deles é de leis do senso comum, sem as quais a espécie humana não conseguiria sobreviver. É o caso dos Dez Mandamentos, em que se diz que é proibido matar e roubar. Ou, ainda, no caso do Novo Testamento, de ensinamentos que pregam a paz e a solidariedade humana, como na frase de Cristo: "Amarás ao próximo como a ti mesmo".

Judeus, cristãos e muçulmanos fundamentalistas não suportam a idéia de que parte da Bíblia possa ser fruto da imaginação de seus autores. No outro extremo, ateus e materialistas não se cansam de procurar evidências para provar que tudo que está lá não passa de história da carochinha. Se fizessem algum esforço, as duas correntes poderiam concordar em alguma coisa. A ciência costuma dar razão a ambas, pelo menos em parte. Evidentemente, há muitos fatos que ultrapassam os limites da razão e não podem ser objeto de análise científica. "A virgindade de Maria ou a ressurreição de Cristo não são demonstráveis cientificamente nem comprováveis historicamente", diz Ana Flora, uma americana residente no Brasil especialista em história do Novo Testamento. "Acredita-se neles por uma questão de fé." Outros relatos, no entanto, são passíveis de investigação. É o caso do Sudário de Turim.

Fraude medieval O primeiro relato a respeito do tecido que envolveu o corpo de Cristo no sepulcro aparece no Evangelho de São Marcos. Ali, conta-se que um homem chamado José de Arimatéia desceu Jesus da cruz e o enrolou no lençol de linho. Depois o colocou num sepulcro aberto na rocha. Por séculos, o destino desse lençol foi motivo de lenda e curiosidade. No século XIV, a relíquia foi finalmente encontrada. Ou, pelo menos, foi essa versão que circulou na época quando um cruzado chegou à França trazendo o pedaço de pano de 4,40 metros de comprimento por 1,20 de largura. Nele aparece a figura de um homem, com 1,77 metro de altura, peso aproximado de 70 quilos, cabelos compridos até a altura dos ombros, que teria morrido com idade entre 30 e 35 anos tudo conforme a descrição de Jesus nos Evangelhos. Também há manchas de sangue que coincidem com os ferimentos de Cristo: pregos nos pulsos e nos pés, a perfuração de uma lança na altura do peito e as marcas da coroa de espinhos na cabeça. Todas essas coincidências contribuíram para tornar o Sudário a mais importante relíquia católica, embora a Igreja oficialmente nunca se tenha pronunciado a respeito de sua autenticidade.

A descoberta anunciada pelos cientistas israelenses na semana passada contradiz estudos feitos por uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos, da Suíça e da Inglaterra e divulgados em 1988. Eles usaram testes de Carbono 14 técnica utilizada para medir a idade de materiais antigos para concluir que o tecido de linho teria sido fabricado entre 1260 e 1390. O estudo levava a crer que o manto seria uma fraude produzida na Idade Média para estimular a fé dos católicos. De lá para cá, pelo menos outras duas pesquisas contestaram essas conclusões. O que era até então apenas um objeto de culto e veneração por parte dos católicos se tornou motivo de excitação e controvérsia nos laboratórios. Obviamente, as pessoas que acreditam na morte e na ressurreição de Cristo não necessitam de comprovação científica alguma para reforçar a sua fé. A ressurreição é um dogma e, como tal, dispensa argumentos racionais. Há pelo menos 100 anos, no entanto, ciência e religião vivem uma curiosa relação de ambigüidade. Os religiosos fingem não precisar da ciência e os cientistas fingem não acreditar na religião. Mas uns não conseguem ignorar os outros. "O Santo Sudário é objeto de devoção de católicos e cristãos", disse na semana passada o porta-voz Steve Mamanella, da arquidiocese de Saint Louis, nos Estados Unidos. "Esperamos que as últimas descobertas sirvam para solidificar essa crença."

Moisés e a Punição dos
Rebeldes
, de Botticelli:
o êxodo, a saga do povo
hebreu vagando durante
quarenta anos pelo deserto
na fuga do domínio do faraó,
não mereceu nenhum registro
nos anais da História do Egito

Graças a essa curiosidade de mão dupla, a Bíblia tornou-se um importante campo de investigação científica. Um dos recursos usados pelos cientistas é confrontar os relatos bíblicos com fontes não bíblicas. Nesse caso, existem coincidências instigantes. Os historiadores romanos Plínio e Flávio Josefo, que trataram da rebelião dos judeus contra o império romano no início da era cristã, fazem referência às pregações de um homem chamado Jesus, que dizia ser o Cristo, pela Palestina. É preciso entender o contexto em que isso acontecia. Naquela época, a Palestina estava ocupada pelos romanos. Os judeus esperavam ansiosamente pelo messias, o salvador que os lideraria numa guerra santa contra o opressor. Alguns especialistas acreditam que Jesus fosse um desses muitos rebeldes políticos que percorreriam a região. Era também um tempo em que se vivia em clima de intenso fervor apocalíptico, como mostram os chamados Manuscritos do Mar Morto. Encontrados numa gruta às margens do Mar Morto em 1947, eles contêm 600 manuscritos e milhares de fragmentos de relatos em pergaminho, nos quais se anuncia a vinda do messias para breve. Acredita-se que boa parte desses textos foi escrita entre os séculos III e I d.C.

Davi Vitorioso, de Nicolas Poussin: é pouco provável que o duelo contra Golias tenha ocorrido realmente, mas manuscritos da época se referem à "Casa de Davi" e ao "Rei de Israel"

A história de Davi Fora da Bíblia, não existe nenhuma prova de que o menino Davi tenha duelado e vencido o gigante Golias, mas sua existência como rei de Israel já foi comprovada com os achados da arqueologia. No fim do século passado, um pastor anglicano encontrou em Dhiban, na Jordânia, uma pedra com inscrições em que o rei Mesha, de Moab, relata seus feitos guerreiros contra o "Rei de Israel" e a "Casa de Davi". Mesha, que teria reinado na pequena Moab no século IX a.C., tem seu nome citado pelo Livro dos Reis, um dos livros do Antigo Testamento. Davi é mencionado em outra pedra encontrada em Tel Dan, no norte de Israel, em 1993. Graças às escavações, hoje já não se tem nenhuma dúvida a respeito da existência real de algumas figuras bíblicas. Em 1990, arqueólogos acharam no bairro judeu da cidade velha de Jerusalém um ossuário em que se lia a inscrição "José, filho de Caifás". É a primeira evidência arqueológica a respeito do sumo sacerdote Caifás, que, segundo os evangelhos, presidiu o julgamento de Jesus no sinédrio judeu. Também não há dúvidas a respeito de Pilatos, o governante romano que teria lavado as mãos diante da condenação de Jesus. Em 1961, escavações na região de Cesaréia revelaram fragmentos de uma placa indicando que o edifício tinha sido dedicado a "Pontius Pilatus, prefeito da Judéia".

Muitos relatos continuam sem explicação. Até hoje não surgiram sinais arqueológicos da célebre batalha de Jericó, em que os judeus comandados por Josué teriam iniciado a conquista de Canaã, a Terra Prometida. Pela descrição bíblica, a batalha contra os cananeus foi tão demorada que, a pedido de Josué, Deus fez o sol parar e prolongou o dia até que os judeus conquistassem a vitória. Pelo que se conhece hoje de astronomia, a história é absurda. Ainda que se dê um desconto no caso do sol, ao verificar se realmente houve a batalha, os cientistas descobriram que na época em que aconteceram os fatos narrados, o século XIII a.C., Jericó simplesmente não existia. Israel Filkenstein, da Universidade de Tel Aviv, sustenta que a ocupação da Terra Prometida ocorreu de forma gradual, durante um longo período, envolvendo povos vindos de diferentes regiões, inclusive do Egito, de onde trouxeram a idéia do monoteísmo. "Eles só tiveram de lutar quando se uniram para formar Israel."

Natividade, de Gentile da
Fabriano: pesquisadores
americanos concluíram que
o único detalhe da descrição
do natal de Jesus contida
nos Evangelhos que merece
credibilidade é o nome
da mãe do menino, Maria

Da mesma forma, Abraão, o patriarca fundador do povo judeu, passou pela Terra sem deixar vestígios. Tanto ele como seu filho Isaac e todos os patriarcas só ganham corpo e figura nas páginas da Bíblia. O que não significa que não existiram. Todas as referências sociais, econômicas e políticas que compõem o ambiente em que eles viveram coincidem com as circunstâncias históricas da época. O caso mais chocante de falta de registro é o da história de Moisés e do êxodo, a fuga de 40.000 israelitas dos domínios do faraó do Egito, na qual vagaram pelo deserto durante quarenta anos. Entre 1967 e 1982, período em que Israel ocupou o Deserto do Sinai após a Guerra dos Seis Dias, contra o Egito, arqueólogos vasculharam a região em busca de sinais do acampamento de Moisés e sua gente. Nada foi encontrado. Nem os documentos e registros egípcios da época dos faraós fazem menção a Moisés e aos 40.000 escravos em fuga. Acontecimentos miraculosos e extraordinários como as pragas do Egito ou o desaparecimento do Exército egípcio tragado pelo Mar Vermelho também não receberam nenhuma menção. Alguns historiadores acreditam que não é de estranhar tal indiferença. "O Egito era a potência militar e econômica da época, e Israel, um país sem expressão. Um fato como esse, determinante para os judeus, poderia perfeitamente passar despercebido pelos egípcios", diz o historiador Hilário Franco Júnior.

Falar de mitologia na Bíblia pode parecer blasfêmia para os fundamentalistas, mas não assusta teólogos esclarecidos. "Não se pode confundir mito com quimera", diz Domingos Zamagna, professor de história e tradutor da Bíblia para o português. "A mitologia está ligada às profundezas da alma humana. Todas as civilizações têm sua mitologia. Os seres humanos sempre recorreram aos mitos para se comunicar e tentar entender a realidade." A arte se valeu do mito em todos os tempos e cria ela própria sua mitologia. O que seria o mundo da comunicação de massa, do espetáculo, do show business moderno sem o mito? "Ninguém discute que a Odisséia, de Homero, seja uma obra mitológica, mesmo sabendo que ela tem aspectos históricos comprovados. Então, por que não podemos admitir os aspectos mitológicos da Bíblia?", pergunta o historiador Hilário Franco Júnior.

As dificuldades para entender a Bíblia e estabelecer o que é realidade histórica e o que é ficção decorrem das peculiaridades dessa obra literária incomparável. A história da Bíblia é complexa e cheia de controvérsias. Acredita-se que os autores dos textos bíblicos foram muitos. É provável que os relatos tenham sido escritos aos poucos, no decorrer dos séculos, por autores diversos que acrescentaram, cortaram e revisaram os escritos existentes. Os tradicionalistas dizem que os cinco primeiros livros foram escritos diretamente por Moisés, sob inspiração divina. Os liberais têm certeza apenas a respeito das Cartas aos Romanos, aos Gálatas e aos Coríntios, do Novo Testamento da Bíblia cristã. Foram escritas pelo apóstolo Paulo. Quanto aos outros autores, há muitas dúvidas. Alguns, como os profetas Jeremias ou Isaías, podem ter dado uma contribuição maior nos livros que levam seus nomes, mas seriam na verdade os mestres e fundadores de uma linha de pensamento que ficou expressa e compilada em relatos posteriores. "Na antiguidade era comum atribuir textos às celebridades da época", explica Zamagna. "Na verdade, os textos bíblicos eram criações coletivas que iam sendo compostas e alteradas durante um longo período."

Pele de cabra A incerteza a respeito da originalidade dos textos bíblicos decorre de dois fatores. O primeiro é que não se tem certeza a respeito da fidelidade aos fatos por parte de quem os escreveu. Além disso, também os copistas, encarregados de reproduzir os livros num tempo em que ainda não havia tipografia, cometiam erros, nem sempre involuntários. É possível que, dependendo dos valores da época, do clima político e religioso, cortassem ou acrescentassem trechos para satisfazer a ordem vigente. O papel só surgiu no Ocidente no século VII d.C. Até essa época, a escrita era feita em tabletes de argila, pedra, pergaminho de pele de cabra ou papiro, uma fibra vegetal. Uma das dificuldades para entender os textos bíblicos é a língua. A Bíblia foi escrita em hebraico em sua maior parte e também em aramaico. O hebraico bíblico tem uma peculiaridade. É escrito sem vogais, o que torna ainda mais complicada sua interpretação.

Mesmo quando se trata do Novo Testamento, a parte mais recente da Bíblia cristã, há divergências. Os Evangelhos, a principal fonte para reconstituir a vida de Cristo, foram escritos pelo menos quarenta anos após sua morte. Lucas e Marcos não conviveram com Jesus e escreveram a partir de depoimentos de terceiros. No caso de João e Mateus, os apóstolos aos quais são atribuídos os outros dois Evangelhos, existem dúvidas de que tenham sido eles mesmos que escreveram a obra. Comparando os quatro Evangelhos e também o Evangelho apócrifo de São Tomé, estudiosos americanos chegaram à conclusão de que apenas 18% das palavras atribuídas a Jesus poderiam realmente ter sido ditas por ele.

Até agora, as dúvidas dos cientistas a respeito dos relatos bíblicos são infinitamente maiores do que as certezas. É o que acontece com o Santo Sudário, alvo de pesquisas freqüentemente contraditórias e inconclusivas. Provavelmente muitas dessas dúvidas nunca terão uma resposta definitiva à luz da razão e da lógica. Para milhões e milhões de judeus, cristãos e muçulmanos devotos, isso pouco importa. Para eles, a fé na inspiração divina dos textos que consideram sagrados é muito mais confiável do que qualquer evidência desenterrada pelos arqueólogos. É por isso que ciência e fé são coisas diferentes. Os cientistas baseiam suas teorias em informações concretas, resultantes de experiências e fatos comprovados. Os crentes retiram suas certezas de uma substância muito mais etérea a convicção de que algo existe e é verdadeiro porque foi revelado pelo próprio Deus.

Os caçadores de relíquias

Quando o pastor Juma Mohammed saiu para procurar uma cabra desgarrada naquela tarde de abril de 1947, não sabia que estava às portas de uma das mais preciosas descobertas arqueológicas do século. Dentro de uma caverna e de outras dez da região, em Qumran, às margens do Mar Morto, recolheu-se mais tarde a maior e mais antiga coleção de textos bíblicos conhecidos. Eram mais de 900 rolos inteiros ou fragmentos de pergaminho com quase todos os livros do Antigo Testamento, datados do ano 225 a.C. ao ano 70 d.C. Esse tesouro, que contém também documentos dos essênios, a seita judaica que provavelmente redigiu e guardou os manuscritos, continua sendo interpretado e traduzido por uma equipe internacional de especialistas.

A curiosidade científica em torno da Bíblia acabou por transformar o território de Israel no maior sítio arqueológico do mundo. Nem mesmo no Egito há tantas pesquisas em andamento. A Autoridade de Antiguidades Israelense, ministério encarregado de administrar o patrimônio de antiguidades do país, tem cadastrados 14.000 locais de interesse arqueológico num território de 22.000 quilômetros quadrados, o equivalente à área de Sergipe, o menor Estado brasileiro. Desses, 6.000 já estão sendo escavados, em alguns casos por cientistas e arqueólogos, mas em grande parte por curiosos em busca de algum tesouro perdido.

As pesquisas arqueológicas na Terra Santa começaram em meados do século passado. O primeiro explorador a empregar métodos científicos na busca de documentos históricos foi o americano Edward Robinson, que esteve na Palestina entre 1837 e 1852 identificando centenas de lugares sagrados. A arqueologia bíblica tomou novo impulso em 1920 com a chegada à região de William Foxwell Albright, professor de hebraico na Universidade Johns Hopkins. Apesar de toda essa riqueza arqueológica, as relíquias do período bíblico nem sempre foram bem preservadas. A reconstrução de uma cidade quase sempre implicava a destruição dos vestígios de cidades preexistentes. Em Jerusalém, os escavadores encontraram várias camadas arqueológicas correspondentes às sucessivas reedificações da cidade.

 
 

 




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