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Ficou caro demaisEnquanto investimentos em energia nuclear Alexandre Mansur O governo brasileiro marcou para o mês que vem o início das operações
da segunda usina nuclear do país, Angra 2, localizada no Rio de Janeiro.
Ela começará a gerar eletricidade comercialmente em fevereiro de 2000,
24 anos após o início da construção. Em seguida, de acordo com os planos
oficiais, começam as obras para erguer Angra 3. Quando o botão liga-desliga
de Angra 2 for acionado, o país estará fazendo, ao lado de China, Índia
e Japão, um movimento cada vez mais raro no mundo. A maior parte dos países
desistiu ou está abandonando os projetos nucleares, principalmente em
razão dos custos cada vez mais altos de construção ou da pressão dos ecologistas.
A Espanha cancelou a instalação de usinas. Na Itália, elas foram proibidas
por plebiscito. Na Suíça, o governo apresentou um cronograma para o fechamento
de reatores. Na França e na Alemanha, nações extremamente dependentes
de energia nuclear, a discussão ainda está na fase inicial, mas ninguém
fala em inaugurar usinas, apenas em fechá-las. Depois de crescer mais
de vinte vezes nos últimos trinta anos, os especialistas acreditam que
a produção de energia nuclear vai entrar numa curva descendente.
Essa queda vai ser mais forte nos próximos anos, mas já pode ser observada com base em alguns números. Na década de 70, a produção de energia nuclear, sempre medida em bilhões de watts, cresceu cerca de 700%. Nos anos 80, a taxa foi de 140%. Nos últimos dez anos, o aumento foi de apenas 5%. Em 1998, pela primeira vez, a quantidade de energia gerada por reatores nucleares foi menor que no ano anterior. Os Estados Unidos, que têm a maior concentração de usinas do planeta, não encomendaram nenhuma nova desde o acidente em um dos reatores de Three Mile Island, em 1979. Nesses vinte anos, 21 dos 125 reatores americanos foram desligados. O Departamento de Energia acredita que, em mais vinte anos, o país deixará de usar esse tipo de energia. O investimento americano tem-se concentrado nas termelétricas à base de gás natural, cuja construção é muito mais barata. Enquanto uma usina nuclear com a potência de Angra 2 custaria 2,5 bilhões de dólares se fosse erguida hoje e paga à vista, uma termelétrica a gás natural com capacidade equivalente sai por 700 milhões de dólares.
Um estudo comparativo feito pela Comissão Nacional de Energia Nuclear mostra que a energia elétrica gerada pelos reatores é a mais cara entre as nove analisadas. Custa 59,92 dólares por megawatt, contra 34,38 dólares do gás natural. O preço é alto por causa dos custos crescentes para garantir segurança, substituição de equipamentos, transporte de matéria-prima, armazenagem do lixo radioativo e, principalmente, pelas obras de construção e montagem das usinas. No caso brasileiro, os custos de construção de Angra são exorbitantes, mas a responsabilidade não é apenas dos átomos. É dos burocratas de Brasília, que provocaram um atraso inexplicável no cronograma de obras. Angra 1, comprada pronta dos Estados Unidos, custou 1,7 bilhão de dólares. Angra 2, que entrou em um pacote de desenvolvimento tecnológico acertado entre Brasil e Alemanha, saiu por 9 bilhões de reais, em valores atualizados. O governo já investiu 1,4 bilhão de reais em Angra 3 e diz precisar de mais 3 bilhões de reais para concluí-la. Outro problema das usinas nucleares para o qual não se encontrou solução é o lixo que elas geram. O governo americano não sabe o que fazer com mais de 42.000 toneladas de lixo radioativo hoje espalhadas em vários depósitos temporários. O projeto mais recente prevê a transferência de tudo para um armazém subterrâneo na Montanha Yucca, em Nevada, que custará 36 bilhões de dólares e só ficará pronto em 2010. O Brasil, com apenas uma usina em funcionamento, já acumulou 200 toneladas de rejeitos radioativos e não sabe onde vai guardá-las definitivamente. Nem quanto isso vai custar. O ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, garante que a fissão atômica é estratégica. "Nós necessitamos dela para suprir a demanda crescente de energia. E não temos tempo a perder, precisamos investir agora para evitar blecautes no futuro." Essa preocupação com um colapso é hoje um pesadelo para todos os governantes do mundo. Energia é, ao lado da oferta de água, uma das grandes discussões do início do século XXI. E cada país vem tentando resolver o problema a seu modo. No Brasil, onde a pressão antienergia nuclear não é tão forte, as usinas de Angra são uma alternativa mais viável. Na Europa, onde os partidos verdes são uma força importante, o debate é mais complicado. Desde a explosão em Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, apenas três reatores novos foram acionados no continente. |
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