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Ponto
de vista: Lya Luft
Para honrar um pai
"Vivi o bastante para conhecer facetas
do ser
humano que nem o diabo adivinharia. O anjo
do lar, a santa senhora, nem sempre realiza
essa função. Muitas vezes se porta como dona
dos filhos, traindo aquele que devia ser seu parceiro,
deixado à margem da ternura e da alegria"
Tenho escrito e falado sobre transgredir modismos
e nadar contra correntezas. Mas podemos usar a força das
águas em nosso favor para chegar a uma praia. Datas comerciais,
como o Dia das Mães, o Dia dos Pais e tantas outras, podem
proporcionar gestos necessários e salvadores se verdadeiros.
Datas como essas mexem com emoções
complicadas e por vezes dolorosas. Mas, já que estão
instauradas, é possível usar delas com delicadeza:
prevenir-se de gastos extravagantes e manifestações
constrangedoras porque falsas, e agir com naturalidade, sendo terno,
sendo sincero. Melhor, aliás, calar-se, caso o afeto seja
inexistente ou ralo demais até para um abraço, um
telefonema que seja. Calar pode ser mais decente do que fingir.
Seria o Dia dos Pais mais complicado emocionalmente
que o das Mães? Sempre é fácil fazer onda com
a figura da mãe: a santa senhora, a tantas vezes vítima,
a tantas vezes sacrificada. Mas, muitas vezes, se não houve
um verdadeiro e cálido afeto, não sabemos bem o que
fazer com a outra parte, o pai em geral visto mais como o
provedor, o que passava o dia fora, o que reclamava dos gastos,
o que conferia o boletim, o que chegava tarde e saía tão
cedo que mal o encontrávamos.
Não posso falar dos homens sem pensar
em suas mulheres: nem sempre tão boazinhas quanto nos faz
parecer parte da literatura, da tradição. Como cumpriram
ou cumprem seu papel de introduzir o homem na vida dos filhos e
abrir-lhe o espaço necessário do qual meninos
e meninas precisam para que sua visão do mundo e do humano
seja mais completa?
Ilustração Ale Setti
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Vivi o bastante para conhecer facetas do ser humano que nem o diabo
adivinharia. O anjo do lar, a santa senhora, nem sempre realiza
essa função. Muitas vezes se porta como dona dos filhos,
traindo (não se trai só na cama) aquele que devia
ser seu parceiro, e não apenas mantenedor de um status, deixado
à margem da ternura e da alegria, correndo de um lado para
outro para sustentar a família, sem estar de verdade integrado
nela.
Círculo filhos-mãe fechado,
o que moureja para que tudo isso se mantenha apenas espia, vagamente
desajeitado. Nem sempre é assim, claro: mulheres generosas
e equilibradas, por amarem verdadeiramente os filhos, fazem questão
de que seus homens participem. Porque, não se iludam, filho
precisa de pai para ser também um homem íntegro.
Dia dos Pais pode parecer bobagem, mas com
certeza o velho espera alguma coisa. Porque velho pai ou pai moço
é gente: entra na onda e, ainda que não espere presente,
certamente espera carinho, memória, esforço para superar
alguma barreira. Por isso mesmo, caso ainda exista amor, é
bom reavivar os velhos laços. Qualquer coisa que dê
a mensagem: você ainda é tão importante como
quando eu tinha 4 anos e você se levantava de noite para me
confortar de um pesadelo. Ou me apanhava na escola quando a mamãe
não podia. Ou me ensinou a jogar bola, me defendeu quando
meu irmão maior me batia, me aconselhou no primeiro emprego
ou no primeiro namoro, me levou ao pediatra, ao terapeuta, me ensinou
a nadar, a pescar, a começar a viver.
Para honrar um pai na vida adulta é
preciso a coragem de um coração grande e a memória
daqueles tempos em que o passo dele no corredor nos salvava quando
a gente era pequeno e a noite, muito escura.
Lya Luft é escritora
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