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Governo
Muito além da crise
Sob um maremoto
de denúncias originadas
de uma CPI fora de controle, Meirelles segue
explicando-se pela metade e leva governo
a montar uma operação de salvamento

Alexandre Oltramari
Sérgio Lima/Folha Imagem
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| Henrique Meirelles,
presidente do Banco Central: a coisa está difícil,
mas o governo montou um cordão sanitário para
ele |
O presidente do Banco
Central, Henrique Meirelles, está numa situação
pouco confortável. Há um mês, Meirelles só
era chamado a dar explicações sobre a alta taxa de
juros. Há três semanas, teve de se explicar sobre a
milionária diferença entre seu patrimônio declarado
à Receita Federal e o declarado à Justiça Eleitoral.
Há duas semanas, precisou apresentar explicações
para o fato de seu procurador ter sido flagrado pela Polícia
Federal carregando 32.000 reais em dinheiro vivo, resultado da venda
de um terreno. Na semana passada, Henrique de Campos Meirelles,
58 anos, em vez de presidente do Banco Central, poderia ter um cargo
fictício de "explicador-geral da República". Teve
de explicar por que fez um depósito de 50 000 dólares
na conta de uma trinca de doleiros investigados por lavagem de dinheiro.
Teve de explicar por que registrou em cartório um imenso
terreno, de 34 000 metros quadrados, por 1 centavo de real. Teve
de explicar por que omitiu da Receita Federal a informação
de que é dono da Catenária, empresa que administra
seu próprio patrimônio. "Vai ser uma denúncia
por dia até as eleições", lamentou-se o presidente
do Banco Central ao jornal O Estado de S. Paulo. Será
mesmo?
É possível
que Meirelles passe realmente a ser alvo de uma denúncia
por dia e ele está convencido de que a maré
de denúncias é parte da engrenagem da oposição,
interessada em desestabilizar o governo do PT. Trata-se de um raciocínio
elementar, historicamente sensato, pois desde a Grécia antiga,
desde os primórdios da democracia política, a oposição
tem o hábito de fustigar a situação com todas
as armas de que dispõe. Éticas ou não, justas
ou injustas, pouco importa. Para a oposição o que
importa é se as armas funcionam. E as que ela tem usado contra
Meirelles fizeram um belo estrago. A complexidade das transações
apresentadas como ilegais e a freqüência com que elas
têm surgido colocaram Meirelles na incômoda situação
de se explicar, se explicar e sempre deixar uma zona de sombras.
Na quinta-feira passada, por exemplo, a edição eletrônica
de VEJA (www.veja.com)
noticiou que Meirelles sacou 50 677,12 dólares de sua conta
no Goldman Sachs, nos Estados Unidos, e depositou o dinheiro na
conta de doleiros, também em banco americano. Além
disso, VEJA apurou que Meirelles não informou o Fisco sobre
a existência de sua conta pessoal no Goldman Sachs.
Celso Junior/AE
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| Cássio Casseb, do Banco do Brasil: dois pedidos
de demissão |
No mesmo dia, Meirelles
divulgou uma nota com cinco itens. Sobre a conta não declarada,
deu uma explicação inquestionável. Disse que
a abriu no Goldman Sachs em 23 de agosto de 2002 e fechou-a em 3
de dezembro do mesmo ano, período em que estava de volta
ao Brasil e se encontrava mergulhado em sua campanha eleitoral para
deputado pelo PSDB de Goiás. Como a declaração
de renda é uma fotografia do patrimônio do declarante
no último dia do ano, exatamente em 31 de dezembro, Meirelles
não precisava declarar a conta, que, afinal, não mais
lhe pertencia nessa data. "A conta não tinha mesmo de ser
declarada porque não fazia mais parte de sua lista de bens",
atesta um tributarista. Com relação ao depósito
para doleiros, Meirelles disse que tinha de fazer um pagamento de
50 677,12 dólares e seu credor pediu que o dinheiro fosse
depositado numa determinada conta e, desafortunadamente,
a conta era de doleiros. A nota acrescenta, com uma ponta de ironia,
que ele não tinha como "controlar ou auditar contas bancárias
indicadas pelo recebedor".
A explicação
de Meirelles faz todo o sentido, mas é tão hermética
que não esclarece pontos fundamentais. Quem era o credor
dos 50.677,12 dólares? Qual foi o motivo do pagamento? Meirelles
não se lembra nem da identidade do recebedor nem da razão
da dívida, informações que, uma vez reveladas,
aí, sim, esclareceriam definitivamente a questão.
Mas Meirelles diz que esses dados estão em seus arquivos
pessoais encaixotados em Nova York, e por isso não sabe dizer
quando nem se conseguirá encontrá-los. É óbvio
que Meirelles pode ter ingenuamente depositado 50.000 dólares
numa conta cabeluda. Também está claro que não
tinha a obrigação de saber que era uma conta de doleiros.
Não se tratava de uma informação tão
sigilosa, no entanto. A conta dos doleiros estava no nome de uma
offshore chamada Biscay Trading.
Filipe Araujo/AE
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"Não haverá intriga, não haverá futrica,
não haverá eleição que possa brecar, frear o desenvolvimento
que este país precisa e deve ter."
O presidente Lula, na quarta-feira
passada, sobre as denúncias contra os presidentes do Banco Central
e do Banco do Brasil |
A Biscay Trading pertence
a três doleiros portugueses que, por coincidência, são
radicados em São Paulo. Da tróica, dois já
foram donos de uma casa de câmbio e tornaram-se tão
notórios pelas piruetas heterodoxas no mercado que o Banco
Central resolveu descredenciá-los em 1999. Há outro
dado de notoriedade: o banco no qual a Biscay Trading movimentava
seu dinheiro nos Estados Unidos, o MTB Bank. Trata-se de uma instituição
bancária investigada por lavagem de dinheiro, que desde 2000
passou a chamar-se CBC. Os velhos arquivos bancários do velho
MTB estão sendo esquadrinhados em busca de operações
ilegais. Na CPI do Banestado, que investiga evasão de divisas,
há um CD com 700.000 operações financeiras
feitas no MTB Bank, enviado ao Brasil pelo promotor Robert Morgenthau,
de Nova York. Entre as 700.000 operações se encontra
o depósito de 50.000 dólares de Meirelles em favor
da Biscay. Meirelles, está claro, não precisava "controlar
nem auditar" contas bancárias para saber que o binômio
Biscay-MTB Bank tinha cheiro de pólvora. Portanto, se é
teoricamente correto que Meirelles não podia controlar a
ética do destinatário final do pagamento, ele, como
homem de mercado, tinha a obrigação de saber que a
conta para a qual estava mandando recursos poderia comprometê-lo
de alguma maneira.
Na semana passada, além
da nota à imprensa sobre a operação com doleiros,
Meirelles deu entrevistas a jornais e emissoras de televisão,
mas em nenhuma ocasião esclareceu essas e outras dúvidas
(veja quadro).
Em vez disso, Meirelles tem dito que já prestou explicações
ao presidente Lula e à trinca de ministros que está
na linha de frente da crise Meirelles Antonio Palocci (Fazenda),
José Dirceu (Casa Civil) e Márcio Thomaz Bastos (Justiça).
O presidente do BC garante que o presidente Lula e os três
ministros estão convencidos de que todas as acusações
contra ele são infundadas. De fato. Na quarta-feira, Lula
chamou o conjunto das denúncias contra Meirelles de "intriga"
e "futrica". No dia anterior, Dirceu já dizia que eram "acusações
infundadas". Lula e Dirceu devem estar mesmo convencidos de que
as suspeitas são devaneios e têm tentado desqualificá-las
pela linguagem. Ocorre que o desafio de Meirelles não é
convencer o presidente da República ou os ministros, em conversas
a portas fechadas.
Dida Sampaio/AE
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"O presidente lamenta que acusações
infundadas que beiram o denuncismo coloquem em risco a confiança
e a credibilidade que o país alcançou."
O ministro José Dirceu, da Casa Civil,
na terça-feira passada, sobre as denúncias contra os presidentes
do BC e do BB |
O grande desafio de
Meirelles é convencer seu patrão. Ou seja: convencer
o povo, a sociedade, o eleitor, a opinião pública.
Meirelles, tal como o presidente e os ministros, é servidor
público. Servidores públicos são, como o próprio
nome diz, servos do povo, conforme o melhor conceito democrático
e republicano, e ao povo devem todas as explicações
que o povo exigir. As explicações, para que sejam
capazes de convencer a opinião pública, não
podem ser apresentadas a portas fechadas, mas de forma aberta, pública,
transparente. Nada disso significa que o presidente do BC não
seja um homem íntegro ou que não tenha condições
de explicar as suspeitas em torno de seu patrimônio e suas
operações financeiras. Significa apenas que surgiram
dúvidas a respeito do assunto e, em havendo dúvidas,
é preciso esclarecê-las. É assim que funciona
qualquer democracia avançada do mundo. Aliás, a cobrança
da sociedade costuma ser maior nos países onde a democracia
está mais avançada e as instituições
são mais sólidas. Nesses lugares, ninguém vira
as costas à sociedade.
Em países atrasados,
nenhum servidor público perderia o emprego por discriminar
um homossexual, assediar uma colega de trabalho ou aceitar o pagamento
de uma diariazinha de hotel de um cliente privado. Em países
avançados, nos quais a sociedade é mais vigilante,
tudo isso é motivo de escândalo e demissão
e não ocorre aos mandatários descrever os episódios
como "intriga" ou "futrica". Na França, existe lei punindo,
com prisão e multa, o assédio moral, no qual um chefe
ou um colega de trabalho faz tudo para estraçalhar a auto-estima
da vítima. Alguém acha que uma denúncia de
assédio moral teria conseqüência prática
no Gabão, no Haiti, no Burundi, em Botsuana...? Recentemente,
o presidente do banco central da Alemanha teve de encerrar quatro
anos de trabalho bem-sucedidos porque cometeu um deslize ético:
ele e sua família passaram quatro dias num hotel de luxo
em Berlim à custa de um banco privado. A conta, para quem
ganhava 350.000 euros por ano no BC alemão, era ninharia.
Mesmo assim, o executivo caiu. Por quê? Porque sua conduta
maculara sua idoneidade e poderia afetar o próprio BC.
Ed Ferreira/AE
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| O senador Antero Paes de Barros, presidente
da CPI do Banestado: ninguém o acusou, mas ele se defendeu |
Henrique Meirelles encontra-se
no centro de um drama semelhante: até quando a credibilidade
do Banco Central se manterá intacta diante das denúncias
que fustigam seu presidente? No Palácio do Planalto, produziu-se
o receio de que uma eventual saída de Meirelles dê
estímulo a um novo ataque especulativo contra a política
econômica do governo. Não há dúvida de
que as viúvas do mito desenvolvimentista e da gastança
irresponsável tentariam dar o bote, mas o problema é
exatamente o inverso: desgastado como está, Meirelles pode
transformar-se, ele próprio, numa ameaça à
atual política econômica. A exemplo de Ernst Welteke,
o caído presidente do BC alemão, Meirelles precisa
de credibilidade para comandar o Banco Central e, no campo da liturgia
pública, não pode recair sobre ele uma mínima
dúvida quanto a suas operações financeiras.
É por isso que Meirelles está virando um motivo de
preocupação para os aliados de Meirelles, para aqueles
que defendem sua gestão à frente do BC e aplaudem
o saldo de seu trabalho, que nem de longe pode ser considerado desprezível.
Na semana passada, o
Palácio do Planalto mandou recados inequívocos de
que não abandonará Meirelles. Na sexta-feira passada,
em Belo Horizonte, o ministro Palocci aproveitou um evento público
e fez uma defesa veemente do presidente do Banco Central. "Pela
sua seriedade e por sua postura de homem público, Meirelles
é o presidente de que o Brasil precisa para um Banco Central
forte e adequado. Para mim, ele é hoje uma pessoa mais forte
do que era antes de esses problemas terem ocorrido", disse o ministro.
No mesmo evento, Lula, à guisa de defender o presidente do
BC, lançou ataques virulentos à imprensa que
comete erros, exageros e equívocos, sem dúvida, mas
é melhor ter a imprensa num ambiente de liberdade, no qual
corre o risco de errar, do que tê-la sob o silêncio
da mordaça, no qual está proibida de acertar. É
impossível prever qual será o efeito do cordão
sanitário montado pelo governo em torno de Meirelles, mas
é interessante analisar por que o Palácio do Planalto
tem se empenhado tanto para segurá-lo no cargo.
AP
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| O promotor Robert Morgenthau, de Nova York:
arquivo com 700 000 dados do MTB Bank |
O primeiríssimo argumento é que, com sua experiência
internacional como presidente do BankBoston, Meirelles conquistou
a confiança do mercado e virou garantia de estabilidade.
"O desgaste do Meirelles é passageiro, os mercados estão
na normalidade", diz um membro do governo que esteve com Lula na
sexta-feira. "Mas a saída de Meirelles deixaria o mercado
em polvorosa. Até porque seria muito difícil achar
um substituto." A questão do substituto, aliás, é
o segundo argumento do governo. Na semana passada, em tom de mera
prevenção, membros da equipe econômica chegaram
a conversar com possíveis candidatos ao cargo. Era apenas
para se precaver de um eventual pedido de demissão de Meirelles.
Ouviram duas negativas.
É árdua
a tarefa de encontrar alguém disposto a se sentar na cadeira
de presidente do BC. Não são muitos os economistas
de alto gabarito do mercado financeiro que aceitam trocar seu conforto
atual pelo bombardeio diário na presidência do BC.
Ex-ocupantes do cargo, como Gustavo Loyola e Gustavo Franco, enfrentam
até hoje processos na Justiça por decisões
que tomaram quando comandavam o banco. Além disso, as feras
do mercado costumam faturar alto e, em Brasília, o presidente
do BC recebe um salário de pouco mais de 8.000 reais, com
1.800 reais de auxílio-moradia e 161 reais de vale-refeição.
Trata-se de uma renda fabulosa para a maioria dos trabalhadores
brasileiros, mas não passa de ajuda simbólica para
quem está acostumado aos padrões de ganho financeiro
dos operadores do mercado. Na montagem do governo, o presidente
Lula sentiu a dificuldade de encontrar um presidente para o BC.
Antes de chegar a Meirelles, tropeçou em cinco outras alternativas.
Marcia Mendes/JC Imagens/AE
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| O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos:
linha de frente na batalha para manter Meirelles no Banco Central
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Com seu conhecido embaraço
quando se trata de demitir um auxiliar, o presidente Lula também
acha que, no caso de Meirelles, a situação é
particularmente delicada. Isso porque, para assumir o comando do
BC, Meirelles teve de renunciar ao mandato de deputado federal que
acabara de conquistar nas eleições de 2002 e, com
isso, adiou todos os seus projetos políticos. Ainda teve
de enfrentar uma oposição dura da ala esquerda do
PT. Lula acha que, dessa forma, contraiu uma dívida de gratidão
com Meirelles. Mas, além da questão econômica
e dos motivos pessoais, existem razões políticas para
que o Palácio do Planalto esteja se esforçando com
tanto afinco para proteger o presidente do BC e, também,
o presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb que,
na semana passada, pediu demissão duas vezes, uma para o
ministro Palocci e outra para o presidente Lula, mas ambos se negaram
a aceitá-la. O governo não quer entregar uma vitória
nas mãos da oposição, principalmente do PSDB.
Dentro das fileiras tucanas, o adversário principal é
o senador Antenor Paes de Barros, presidente da CPI do Banestado.
Na última semana, sem que tivesse sido acusado de nada, o
senador achou que deveria subir à tribuna do Senado para
dizer que não municiou ninguém de denúncias.
Criada em junho do ano
passado, a CPI do Banestado virou um corpo exótico no Congresso
Nacional. Se chegar a dezembro próximo, será a CPI
mais longa da história do Parlamento brasileiro e,
no entanto, instalada com a missão de investigar a evasão
de divisas, não parece estar nem perto de uma conclusão.
Ninguém sabe por que a CPI está durando tanto tempo
e investigando seu propósito central assim tão a esmo,
mas todo mundo sabe que, em seus arquivos, há pilhas de denúncias
capazes de fustigar muita gente, honesta ou não. O controle
aos dados da CPI é falho e a eles estaria tendo acesso muito
mais gente do que os deputados que a dirigem e os funcionários
de sua confiança. Existem evidências de que parte desse
material está sendo usada não apenas para servir de
munição contra Meirelles e Casseb mas para chantagear
pessoas cujo nome aparece nas listagens.
Joedson Alves/AE
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| O ministro Antonio Palocci, da Fazenda: apesar
das denúncias, ele acha que Meirelles está hoje mais forte do
que estava ontem |
O CD com 700.000 operações
do MTB Bank, cedido pelo promotor Robert Morgenthau, por exemplo,
está lá e é uma inesgotável fonte de
confusões para quem quer apenas provocar algum barulho. Também
está lá um arquivo com as remessas feitas daqui para
o exterior por meio de contas CC-5 desde 1996 e, nesta lista,
estão misturadas operações lícitas com
transações ilegais, o que é um prato cheio
para quem quer incriminar inocentes. Além disso, a CPI rachou.
Seu presidente, o senador tucano Antero Paes de Barros, é
acusado de fazer todos os movimentos capazes de prejudicar o PT
e os petistas. O relator, o deputado petista José Mentor,
é suspeito de fazer tudo para embaraçar o PSDB e os
tucanos. Os dois nem se cumprimentam e, na semana passada, recusaram
uma tentativa de reatar relações patrocinada pelo
senador Eduardo Suplicy. Alguém duvida que, dessa briga,
tem saído papel para tudo que é lado?
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Bastou a suspeita para derrubá-los
Em muitos países,
em vez de ser tratada como futrica ou intriga, a simples
dúvida sobre a retidão de uma autoridade
costuma custar o seu cargo. O presidente do BC alemão,
Ernst Welteke, caiu por aceitar que um banco privado
lhe bancasse um hotel de luxo. O presidente do BC chileno,
Carlos Massad, dançou porque sua secretária
usou seu computador para mandar informações
privilegiadas a um amigo. Linda Chavez, suspeita de
contratar uma imigrante ilegal, nem virou ministra de
Bush. Quando a exigência é alta, também
há injustiças. Peter Mandelson, auxiliar
de Tony Blair, foi acusado de facilitar ilegalmente
a vida de dois indianos. Acabou demitido, mas era inocente.
Pierre Bérégovoy, ex-primeiro-ministro
francês, recebeu empréstimo de um ricaço
enrolado. Estava tudo certo, mas ele ficou tão
envergonhado que se suicidou.
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Censores, uni-vos!!
Em meio às
acusações de que a imprensa tem sido irresponsável
na divulgação de denúncias sobre
o presidente do Banco Central, o governo mandou um projeto
ao Congresso Nacional propondo a criação
de um Conselho Federal de Jornalismo. Pela proposta,
a entidade ficaria encarregada de "orientar, disciplinar
e fiscalizar" a imprensa. Apresentado assim, o projeto
até parece corriqueiro e bem-intencionado, mas
analisado com um pouco mais de atenção
descobre-se que se trata de uma idéia duplamente
espantosa. Primeiro, porque é autoritária,
pois um conselho de jornalismo não terá
outra função a não ser cercear
a liberdade de imprensa. "Isso pode ser uma violação
da ordem democrática definida pela Constituição
Federal", analisa Maurício Azêdo, presidente
da Associação Brasileira de Imprensa.
Segundo, porque é uma idéia cubana, já
que reafirma a impressão de que o governo acha
que deve e pode comandar todos os processos
da sociedade, sem entender que o próprio mercado
consumidor se encarrega de eliminar as publicações
ruins e prestigiar as boas.
Em Cuba,
o ditador Fidel Castro mandou fechar todos os jornais.
Deixou circular apenas um, o Granma, órgão
oficial do Partido Comunista. Seguindo-se seu pensamento
rupestre, a decisão até que faz sentido.
Fidel achava um desperdício de papel manter vários
jornais para divulgar um mesmo fato. Ou seja: na cabeça
do ditador cubano, não existem matizes, nuances,
enfoques distintos, abordagens diversas, muito menos
opiniões divergentes. É uma decisão
lógica, portanto, deixar que circule apenas um
jornal. Talvez o governo ganhasse em tempo, e sobretudo
em transparência, se a proposta enviada ao Congresso
decretasse o seguinte: de agora em diante, o Brasil
se bastará com a leitura do Em Questão,
informativo eletrônico distribuído
pelo governo federal cujo conteúdo é tão
eletrizante que ganhou o apelido de Pravda.
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