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Diogo
Mainardi
As
Olimpíadas do Pateta
"Nossos atletas em Atenas: os meus preferidos
são os que chegam desacreditados aos Jogos
e, confirmando todos os prognósticos, perdem
logo de cara. Quanto mais incompetentes, melhor"
Estou pronto para as Olimpíadas. Enrolado
na bandeira nacional, e vestindo uma camiseta de poliéster
amarelinha, cortesia do Banco do Brasil, pretendo acompanhar com
ardor o desempenho de nossos atletas em Atenas. Eles não
costumam decepcionar. Quando não são eliminados no
primeiro dia de competição, são invariavelmente
eliminados no segundo. Os meus preferidos são os que chegam
desacreditados aos Jogos e, confirmando todos os prognósticos,
perdem logo de cara. Como o pugilista maranhense nocauteado no terceiro
assalto por um filipino canhoto. Ou a esgrimista paranaense sorteada
para enfrentar, em sua estréia, a segunda melhor do time
romeno. Ou o judoca goiano que sofre um estiramento no primeiro
minuto da repescagem. Ou o corredor paulista que comemora o quarto
lugar obtido numa final B. Quanto mais incompetentes, melhor. Apreço
também os que gozam de um certo favoritismo e, por falta
de controle emocional, acabam sendo derrotados por atletas estrangeiros
de retrospecto claramente inferior. Só desaprovo aqueles
irresponsáveis que teimam em ir derrotando seus adversários
um a um até a conquista de uma improvável medalha
de bronze, com direito a lágrimas no pódio e dedicatórias
a Deus. O dever dos atletas brasileiros é perder. Perder
sempre. Preferivelmente, de maneira espalhafatosa, tropeçando
nos obstáculos e se esborrachando na pista.
Sobre as virtudes cívicas da derrota,
assista a Campeão Olímpico. Trata-se da obra
definitiva sobre o tema. Estrelado por Pateta e dirigido por Jack
Kinney, insere-se no ciclo esportivo formado por A Arte da Defesa
Pessoal, A Arte de Esquiar, Como Nadar, Como Jogar Beisebol
e Como Jogar Golfe. Em Campeão Olímpico,
Pateta repercorre a origem dos Jogos Olímpicos e se exibe
nas principais modalidades do atletismo. Claro que ele tropeça
nos obstáculos. Claro que se esborracha na pista. Foi tropeçando
nos obstáculos e se esborrachando na pista que Pateta derrotou
Hitler. O lançamento de Campeão Olímpico
ocorreu em 9 de outubro de 1942. As Olimpíadas estavam suspensas
por causa da II Guerra Mundial. Os últimos Jogos, realizados
em 1936, em Berlim, haviam sido transformados em plataforma de propaganda
para o nazismo, exaltando conceitos como supremacia racial, orgulho
nacional, disciplina marcial e adoração do líder
totêmico. O documentário celebratório de Leni
Riefenstahl sobre as Olimpíadas de Berlim mostra tudo isso.
Campeão Olímpico é o contrário.
Dura oito minutos. E, em apenas oito minutos, Pateta consegue destruir
o ufanismo esportivo do nazismo e de outros regimes totalitários.
Comemoram-se o Dia D e a batalha de Stalingrado.
Proponho comemorar igualmente as Olimpíadas do Pateta. Ao
tropeçar nos obstáculos e se esborrachar na pista,
os atletas brasileiros não irão derrubar Hitler, porque
não temos nenhum Hitler. Quem sabe derrubem um diretor do
Banco do Brasil. Quem sabe até dois.
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