|
|
Entrevista:
Carly Fiorina
A dama digital
A executiva mais
poderosa do mundo
corporativo americano diz que os avanços
tecnológicos vão melhorar os governos
e exigir
revoluções éticas

Leandra Peres
|
André Penner

|
"Nossa
noção de moral,
do que é certo ou errado, leva mais tempo para
evoluir do que a tecnologia" |
|
Carly Fiorina, 49 anos,
é a mulher mais poderosa do mundo dos negócios nos
Estados Unidos. O título, concedido pela revista Fortune,
é dela pelo sexto ano consecutivo. Não é difícil
entender por quê. Carly comanda a 11ª maior empresa dos
EUA, uma fabricante de computadores, impressoras e outros equipamentos
digitais que, no ano passado, faturou 73 bilhões de dólares.
Isso é mais que o PIB do Chile. Carly faz parte do fechado
grupo de oito mulheres à frente de uma das 500 maiores companhias
americanas. Com lemas como "O progresso é feito pelos otimistas"
ou "Uma empresa é definida pelo seu caráter", ela
tornou-se uma líder cuja carreira, especula-se, migrará
para a política uma vez terminado seu combustível
corporativo. Carly comandou há dois anos o maior processo
de fusão na indústria de tecnologia a compra
da Compaq pela HP, uma operação de 19 bilhões
de dólares. Ela conta que toda a sua atenção
está dividida entre a empresa e a família. Tem pouco
tempo para leituras e nenhum para hobbies. Formada em história
medieval e filosofia e ex-professora de inglês, Carly esteve
no Brasil na semana passada. Ela deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja
A senhora diz que a era digital está em
sua infância. Quais os indicadores disso?
Carly
Basta ver o que está acontecendo com a fotografia.
Não há mais mistério, não é preciso
esperar o processo de revelação para saber se uma
fotografia ficou boa. As pessoas estão enviando instantaneamente
fotos de um lado a outro do planeta. Não há dúvida
de que essa é uma experiência diferente e que suas
implicações ainda não são totalmente
conhecidas. A maneira de governar também vai mudar. À
medida que a tecnologia digital avançar e for incorporada
pelos governos, eles se tornarão mais eficientes, mas também
mais transparentes, receptivos às demandas sociais e mais
responsáveis. Estamos assistindo a mudanças históricas
dos fundamentos das sociedades modernas. As fronteiras geográficas
não são mais barreiras para a troca de informações.
Isso tudo vai transformar as fontes das quais se origina o poder.
Veja
A tecnologia tem tanto poder assim?
Carly A nossa noção
de moral, do que é certo ou errado, leva mais tempo para
evoluir do que a tecnologia. As idéias mudam mais lentamente.
Vou dar um exemplo cotidiano: a maioria das pessoas concorda que
os pequenos furtos que ocorrem em lojas são ofensas e devem
ser punidos por lei. No caso de roubo de conteúdos digitais,
porém, as pessoas não têm lá muita certeza
se é certo ou errado. Isso mostra que a ética está
defasada. Os avanços da biotecnologia são outro desafio.
Que ética deve prevalecer na clonagem? São questões
para as quais ainda não temos respostas. Elas virão.
Com o passar do tempo novos ordenamentos éticos e morais
vão estar alinhados com as tecnologias que geraram os desafios
hoje sem resposta.
Veja
A distância entre países ricos e pobres
tende a aumentar na era digital?
Carly Acho que
o que determinará o rumo de cada país será
uma combinação de escolha, decisão e investimento.
Não há um diagnóstico definitivo. Em alguns
casos, o fosso vai aumentar. Em muitos outros, a distância
pode diminuir.
Veja
O que um país como o Brasil pode fazer para
acertar o passo tecnológico em relação às
nações mais ricas?
Carly Acho que
o Brasil, ou qualquer outro país, tem de fazer basicamente
quatro coisas. A primeira é decidir competir de fato numa
economia global. Essa é uma escolha vital. Em segundo lugar,
é preciso investir naquilo que garante competitividade: educação.
Outra exigência é investir também na formação
de um ambiente propício aos negócios que seja transparente,
íntegro, baseado no mérito. Finalmente, investir em
inovação, tecnologia, pesquisa e empreendedorismo.
Essas são as chaves do progresso neste século.
Veja
Também será preciso investir, e nem
sempre há dinheiro suficiente para isso nos países
em desenvolvimento...
Carly
Não quero minimizar as dificuldades envolvidas
nesse processo. Nunca governei um país, mas acho que algumas
analogias podem ser feitas com uma empresa. Nos dois casos, nunca
há dinheiro suficiente. Há sempre mais projetos do
que recursos disponíveis. Então, no final, tudo acaba
sendo uma questão de prioridades e, também, de como
obter mais recursos. É por isso que o empreendedorismo se
torna tão vital: é uma maneira de aumentar a capacitação
da sociedade. A educação é a outra via. É
preciso, ao mesmo tempo que se priorizam as potencialidades atuais,
construir novas. Essas escolhas não são fáceis,
mas precisam ser feitas.
Veja
Como a senhora avalia o ambiente para fazer negócios
no Brasil?
Carly O Brasil tem muitas
características atraentes para o investidor internacional.
Tem um grande mercado consumidor e capital humano qualificado. A
comunidade internacional mostrou-se encorajada com os avanços
que ocorreram no Brasil nos últimos anos. Isso é uma
grande vantagem. O Brasil ainda está na moda entre os investidores.
Tudo isso contribui para criar um clima positivo. No setor de tecnologia,
fizemos uma proposta bastante clara ao governo: é preciso
avançar na resolução do problema da pirataria,
incentivar as exportações de tecnologia e estimular
os brasileiros que querem empreender, abrir novos horizontes.
Veja
O Brasil pode um dia se tornar uma referência
mundial no setor de tecnologia, como a Índia?
Carly Acredito que sim,
mas o Brasil não deve tentar copiar a Índia. Deve,
sim, aprender com o exemplo indiano. A lição mais
importante vinda da Índia é que é possível
mudar o rumo dos acontecimentos. Dez anos atrás, a Índia
não aparecia em nenhum mapa da indústria de tecnologia
do mundo. Hoje está no centro das atenções.
Isso não aconteceu por acaso. O país vislumbrou uma
oportunidade e aproveitou-a.
Veja
Qual a característica imprescindível
para que uma empresa progrida na era digital?
Carly
Adaptabilidade. Essa é a palavra-chave. A adaptabilidade
se aplica a empresas, países e pessoas. É preciso
reinventar-se, aumentar a capacidade de competir. No mundo da tecnologia
todos sabem que a inovação é prioridade. Mas
também é vital vender produtos a preços acessíveis
e oferecer ao consumidor uma experiência diferente, nova,
que seja mais que a simples aquisição de um produto.
Veja
Há uma certa euforia no ar com a iminência
da chegada do Google, empresa da moda na internet, ao mercado de
ações dos Estados Unidos. As primeiras estimativas
são de que o Google possa vender dezenas de bilhões
de dólares em ações. Muitos analistas viram
nisso uma supervalorização, uma nova bolha na internet.
O mercado está presenciando uma nova bolha como a que estourou
no fim da década de 90?
Carly Ainda não,
mas acho que no início de 2004 a expectativa de algumas pessoas
sobre alguns mercados no setor de tecnologia ficou muito à
frente da realidade. Na verdade, não acho improvável
que venhamos a ver algumas outras "bolhas da internet" nos próximos
anos. As pessoas se esquecem rapidamente das experiências
amargas do passado e voltam a se sentir atraídas pelos modismos
do momento. Isso é da natureza humana. Somos dominados pelo
entusiasmo.
Veja
Especula-se que a senhora vai se candidatar a um
cargo público quando deixar a HP. Isso faz parte de seus
planos?
Carly Todos os líderes
têm um tempo de duração. Um dia o meu vai se
encerrar e será a vez de outra pessoa conduzir os destinos
da companhia. Não sei quando esse dia chegará. Quando
isso acontecer, não sei o que farei depois e, sinceramente,
não me preocupo com isso.
Veja
Em um debate com empresários na semana passada
uma das perguntas foi sobre como uma mulher bonita pode ser também
inteligente e eficiente. Esse tipo de pergunta a constrange?
Carly
Em pleno século XXI, o fato de eu ser mulher
não deveria chamar tanta atenção, mais até
do que a qualidade do meu próprio trabalho. Mas a verdade
é que ainda parece surpreendente que uma mulher possa sobressair
no trabalho, e isso é realmente decepcionante. Se uma empresa
pensa que suas funcionárias não podem fazer um determinado
trabalho porque são atraentes, no fim quem sai perdendo é
a própria empresa. Porém seria ingênua se dissesse
que não existem julgamentos tendenciosos. Mas também
acredito que as pessoas que mantêm seu foco nas oportunidades,
em vez de se concentrarem nas limitações, alcançam
mais coisas. As pessoas inteligentes compreendem que julgamentos
tendenciosos são limitadores.
Veja
A senhora já foi discriminada em sua carreira?
Carly
Claramente, sim. Lembro-me de reuniões importantes
em que meus colegas homens criaram propositadamente situações
embaraçosas e humilhantes. Eu tinha duas alternativas: sentir-me
envergonhada e humilhada ou colocá-los numa situação
embaraçosa e humilhante mostrando resultados, de modo que
eles entendessem que não poderiam fazer isso comigo uma segunda
vez.
Veja
Que conselhos a senhora daria às pessoas
que passam por situações semelhantes?
Carly
Em primeiro lugar, é preciso acreditar nas
próprias habilidades e não deixar que a percepção
de outros afete a imagem que a pessoa tem de si mesma. Isso é
fácil falar, mas é extremamente difícil fazer.
Em segundo lugar, eu diria a elas que procurem pessoas inteligentes,
que entendam que o talento vem em várias "embalagens". Todas
as vezes que eu enfrentei o preconceito, houve pessoas que me deram
oportunidades.
Veja
A senhora acha que o mundo corporativo está
mudando e se tornando menos restritivo às mulheres?
Carly Está. Eu
mesma sou um exemplo disso. Mas, se você me perguntar se está
mudando na velocidade necessária, a resposta provavelmente
será não. O século XXI é um século
de competição intensa, e as pessoas com muita freqüência
têm medo disso. Mas, quando a competição é
acirrada, mais gente tem a chance de participar do jogo porque o
que faz a diferença é o talento, e talento vem, repito,
em qualquer "embalagem". Esse ambiente representa uma oportunidade
para as mulheres.
Veja
A senhora tem algum medo?
Carly Tive medo do fracasso,
de não saber o suficiente, de não ser tão boa
quanto as outras pessoas... Ninguém é 100% confiante
o tempo todo. Hoje não tenho mais esse tipo de insegurança.
Veja
A seu ver quais são as características
básicas para o sucesso na carreira?
Carly
Em primeiro lugar, acredito que qualidades necessárias
a um líder não têm nada a ver com gênero.
A habilidade de ser humilde e ao mesmo tempo de acreditar em si,
de ser realista e otimista, sensível e firme não é
definida pelo gênero. O mundo dos negócios não
deve ser como um torneio de tênis, em que há a competição
masculina e a competição feminina. É um jogo
misto, pois, quanto mais gente puder entrar em quadra, melhor o
jogo. A liderança requer doses iguais de caráter e
capacidade. Exige fazer escolhas. O sucesso em qualquer atividade,
seja como pai, jornalista ou artista, exige dedicação
integral, trabalho duro e paixão. Também exige que
você seja fiel a seus princípios.
Veja
É possível conciliar vida pessoal
com uma carreira como executiva internacional?
Carly A família
e o trabalho são minha ocupação integral. Não
sobra tempo para mais nada. Não sou nenhuma supermulher,
mas não me arrependo das escolhas que fiz. Estou plenamente
satisfeita. No entanto há custos e sacrifícios envolvidos,
e cada um tem de tomar sua decisão. A vida é feita
de escolhas.
Veja
A revista Fortune a escolheu a mulher mais
poderosa do mundo dos negócios nos Estados Unidos pelo sexto
ano consecutivo. A senhora se orgulha disso?
Carly
Não quero parecer ingrata, claro que é
uma honra. Se outras mulheres podem vislumbrar nisso uma oportunidade
para elas mesmas, claro que é uma coisa positiva. Mas acho
essas listas meio fora de propósito. Aliás, por que
fazem a lista das mulheres mais poderosas e a dos homens mais poderosos?
Acho rankings irrelevantes. Aliás, acho que é um retrocesso.
|