Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Entrevista: Carly Fiorina
A dama digital

A executiva mais poderosa do mundo
corporativo americano diz que os avanços
tecnológicos vão melhorar os governos
e
exigir revoluções éticas

 


Leandra Peres

 

André Penner

"Nossa noção de moral, do que é certo ou errado, leva mais tempo para evoluir do que a tecnologia"

Carly Fiorina, 49 anos, é a mulher mais poderosa do mundo dos negócios nos Estados Unidos. O título, concedido pela revista Fortune, é dela pelo sexto ano consecutivo. Não é difícil entender por quê. Carly comanda a 11ª maior empresa dos EUA, uma fabricante de computadores, impressoras e outros equipamentos digitais que, no ano passado, faturou 73 bilhões de dólares. Isso é mais que o PIB do Chile. Carly faz parte do fechado grupo de oito mulheres à frente de uma das 500 maiores companhias americanas. Com lemas como "O progresso é feito pelos otimistas" ou "Uma empresa é definida pelo seu caráter", ela tornou-se uma líder cuja carreira, especula-se, migrará para a política uma vez terminado seu combustível corporativo. Carly comandou há dois anos o maior processo de fusão na indústria de tecnologia – a compra da Compaq pela HP, uma operação de 19 bilhões de dólares. Ela conta que toda a sua atenção está dividida entre a empresa e a família. Tem pouco tempo para leituras e nenhum para hobbies. Formada em história medieval e filosofia e ex-professora de inglês, Carly esteve no Brasil na semana passada. Ela deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – A senhora diz que a era digital está em sua infância. Quais os indicadores disso?
Carly – Basta ver o que está acontecendo com a fotografia. Não há mais mistério, não é preciso esperar o processo de revelação para saber se uma fotografia ficou boa. As pessoas estão enviando instantaneamente fotos de um lado a outro do planeta. Não há dúvida de que essa é uma experiência diferente e que suas implicações ainda não são totalmente conhecidas. A maneira de governar também vai mudar. À medida que a tecnologia digital avançar e for incorporada pelos governos, eles se tornarão mais eficientes, mas também mais transparentes, receptivos às demandas sociais e mais responsáveis. Estamos assistindo a mudanças históricas dos fundamentos das sociedades modernas. As fronteiras geográficas não são mais barreiras para a troca de informações. Isso tudo vai transformar as fontes das quais se origina o poder.

Veja – A tecnologia tem tanto poder assim?
Carly – A nossa noção de moral, do que é certo ou errado, leva mais tempo para evoluir do que a tecnologia. As idéias mudam mais lentamente. Vou dar um exemplo cotidiano: a maioria das pessoas concorda que os pequenos furtos que ocorrem em lojas são ofensas e devem ser punidos por lei. No caso de roubo de conteúdos digitais, porém, as pessoas não têm lá muita certeza se é certo ou errado. Isso mostra que a ética está defasada. Os avanços da biotecnologia são outro desafio. Que ética deve prevalecer na clonagem? São questões para as quais ainda não temos respostas. Elas virão. Com o passar do tempo novos ordenamentos éticos e morais vão estar alinhados com as tecnologias que geraram os desafios hoje sem resposta.

Veja – A distância entre países ricos e pobres tende a aumentar na era digital?
Carly – Acho que o que determinará o rumo de cada país será uma combinação de escolha, decisão e investimento. Não há um diagnóstico definitivo. Em alguns casos, o fosso vai aumentar. Em muitos outros, a distância pode diminuir.

Veja – O que um país como o Brasil pode fazer para acertar o passo tecnológico em relação às nações mais ricas?
Carly – Acho que o Brasil, ou qualquer outro país, tem de fazer basicamente quatro coisas. A primeira é decidir competir de fato numa economia global. Essa é uma escolha vital. Em segundo lugar, é preciso investir naquilo que garante competitividade: educação. Outra exigência é investir também na formação de um ambiente propício aos negócios que seja transparente, íntegro, baseado no mérito. Finalmente, investir em inovação, tecnologia, pesquisa e empreendedorismo. Essas são as chaves do progresso neste século.

Veja – Também será preciso investir, e nem sempre há dinheiro suficiente para isso nos países em desenvolvimento...
Carly – Não quero minimizar as dificuldades envolvidas nesse processo. Nunca governei um país, mas acho que algumas analogias podem ser feitas com uma empresa. Nos dois casos, nunca há dinheiro suficiente. Há sempre mais projetos do que recursos disponíveis. Então, no final, tudo acaba sendo uma questão de prioridades e, também, de como obter mais recursos. É por isso que o empreendedorismo se torna tão vital: é uma maneira de aumentar a capacitação da sociedade. A educação é a outra via. É preciso, ao mesmo tempo que se priorizam as potencialidades atuais, construir novas. Essas escolhas não são fáceis, mas precisam ser feitas.

Veja – Como a senhora avalia o ambiente para fazer negócios no Brasil?
Carly – O Brasil tem muitas características atraentes para o investidor internacional. Tem um grande mercado consumidor e capital humano qualificado. A comunidade internacional mostrou-se encorajada com os avanços que ocorreram no Brasil nos últimos anos. Isso é uma grande vantagem. O Brasil ainda está na moda entre os investidores. Tudo isso contribui para criar um clima positivo. No setor de tecnologia, fizemos uma proposta bastante clara ao governo: é preciso avançar na resolução do problema da pirataria, incentivar as exportações de tecnologia e estimular os brasileiros que querem empreender, abrir novos horizontes.
 

Veja – O Brasil pode um dia se tornar uma referência mundial no setor de tecnologia, como a Índia?
Carly – Acredito que sim, mas o Brasil não deve tentar copiar a Índia. Deve, sim, aprender com o exemplo indiano. A lição mais importante vinda da Índia é que é possível mudar o rumo dos acontecimentos. Dez anos atrás, a Índia não aparecia em nenhum mapa da indústria de tecnologia do mundo. Hoje está no centro das atenções. Isso não aconteceu por acaso. O país vislumbrou uma oportunidade e aproveitou-a.
 

Veja – Qual a característica imprescindível para que uma empresa progrida na era digital?
Carly – Adaptabilidade. Essa é a palavra-chave. A adaptabilidade se aplica a empresas, países e pessoas. É preciso reinventar-se, aumentar a capacidade de competir. No mundo da tecnologia todos sabem que a inovação é prioridade. Mas também é vital vender produtos a preços acessíveis e oferecer ao consumidor uma experiência diferente, nova, que seja mais que a simples aquisição de um produto.  

Veja – Há uma certa euforia no ar com a iminência da chegada do Google, empresa da moda na internet, ao mercado de ações dos Estados Unidos. As primeiras estimativas são de que o Google possa vender dezenas de bilhões de dólares em ações. Muitos analistas viram nisso uma supervalorização, uma nova bolha na internet. O mercado está presenciando uma nova bolha como a que estourou no fim da década de 90?
Carly – Ainda não, mas acho que no início de 2004 a expectativa de algumas pessoas sobre alguns mercados no setor de tecnologia ficou muito à frente da realidade. Na verdade, não acho improvável que venhamos a ver algumas outras "bolhas da internet" nos próximos anos. As pessoas se esquecem rapidamente das experiências amargas do passado e voltam a se sentir atraídas pelos modismos do momento. Isso é da natureza humana. Somos dominados pelo entusiasmo.
 

Veja – Especula-se que a senhora vai se candidatar a um cargo público quando deixar a HP. Isso faz parte de seus planos?
Carly – Todos os líderes têm um tempo de duração. Um dia o meu vai se encerrar e será a vez de outra pessoa conduzir os destinos da companhia. Não sei quando esse dia chegará. Quando isso acontecer, não sei o que farei depois e, sinceramente, não me preocupo com isso.
 

Veja – Em um debate com empresários na semana passada uma das perguntas foi sobre como uma mulher bonita pode ser também inteligente e eficiente. Esse tipo de pergunta a constrange?
Carly – Em pleno século XXI, o fato de eu ser mulher não deveria chamar tanta atenção, mais até do que a qualidade do meu próprio trabalho. Mas a verdade é que ainda parece surpreendente que uma mulher possa sobressair no trabalho, e isso é realmente decepcionante. Se uma empresa pensa que suas funcionárias não podem fazer um determinado trabalho porque são atraentes, no fim quem sai perdendo é a própria empresa. Porém seria ingênua se dissesse que não existem julgamentos tendenciosos. Mas também acredito que as pessoas que mantêm seu foco nas oportunidades, em vez de se concentrarem nas limitações, alcançam mais coisas. As pessoas inteligentes compreendem que julgamentos tendenciosos são limitadores.  

Veja – A senhora já foi discriminada em sua carreira?
Carly – Claramente, sim. Lembro-me de reuniões importantes em que meus colegas homens criaram propositadamente situações embaraçosas e humilhantes. Eu tinha duas alternativas: sentir-me envergonhada e humilhada ou colocá-los numa situação embaraçosa e humilhante mostrando resultados, de modo que eles entendessem que não poderiam fazer isso comigo uma segunda vez.

Veja – Que conselhos a senhora daria às pessoas que passam por situações semelhantes?
Carly – Em primeiro lugar, é preciso acreditar nas próprias habilidades e não deixar que a percepção de outros afete a imagem que a pessoa tem de si mesma. Isso é fácil falar, mas é extremamente difícil fazer. Em segundo lugar, eu diria a elas que procurem pessoas inteligentes, que entendam que o talento vem em várias "embalagens". Todas as vezes que eu enfrentei o preconceito, houve pessoas que me deram oportunidades.  

Veja – A senhora acha que o mundo corporativo está mudando e se tornando menos restritivo às mulheres?
Carly – Está. Eu mesma sou um exemplo disso. Mas, se você me perguntar se está mudando na velocidade necessária, a resposta provavelmente será não. O século XXI é um século de competição intensa, e as pessoas com muita freqüência têm medo disso. Mas, quando a competição é acirrada, mais gente tem a chance de participar do jogo porque o que faz a diferença é o talento, e talento vem, repito, em qualquer "embalagem". Esse ambiente representa uma oportunidade para as mulheres.
 

Veja – A senhora tem algum medo?
Carly – Tive medo do fracasso, de não saber o suficiente, de não ser tão boa quanto as outras pessoas... Ninguém é 100% confiante o tempo todo. Hoje não tenho mais esse tipo de insegurança.

Veja – A seu ver quais são as características básicas para o sucesso na carreira?
Carly – Em primeiro lugar, acredito que qualidades necessárias a um líder não têm nada a ver com gênero. A habilidade de ser humilde e ao mesmo tempo de acreditar em si, de ser realista e otimista, sensível e firme não é definida pelo gênero. O mundo dos negócios não deve ser como um torneio de tênis, em que há a competição masculina e a competição feminina. É um jogo misto, pois, quanto mais gente puder entrar em quadra, melhor o jogo. A liderança requer doses iguais de caráter e capacidade. Exige fazer escolhas. O sucesso em qualquer atividade, seja como pai, jornalista ou artista, exige dedicação integral, trabalho duro e paixão. Também exige que você seja fiel a seus princípios.  

Veja – É possível conciliar vida pessoal com uma carreira como executiva internacional?
Carly – A família e o trabalho são minha ocupação integral. Não sobra tempo para mais nada. Não sou nenhuma supermulher, mas não me arrependo das escolhas que fiz. Estou plenamente satisfeita. No entanto há custos e sacrifícios envolvidos, e cada um tem de tomar sua decisão. A vida é feita de escolhas.
 

Veja – A revista Fortune a escolheu a mulher mais poderosa do mundo dos negócios nos Estados Unidos pelo sexto ano consecutivo. A senhora se orgulha disso?
Carly – Não quero parecer ingrata, claro que é uma honra. Se outras mulheres podem vislumbrar nisso uma oportunidade para elas mesmas, claro que é uma coisa positiva. Mas acho essas listas meio fora de propósito. Aliás, por que fazem a lista das mulheres mais poderosas e a dos homens mais poderosos? Acho rankings irrelevantes. Aliás, acho que é um retrocesso.

 
 
 
 
topovoltar