Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Em foco: Sérgio Abranches
O debate errado

"Sem ruptura com o padrão atual, sem uma
revolução institucional, moral, intelectual e
pedagógica, em todos os campos da educação,
não daremos o salto que poderíamos dar"

O debate brasileiro está fora de foco. Nosso problema não é o superávit fiscal, a taxa de juros nem quanto vamos crescer. Se olharmos para além da conjuntura, deste ou do próximo governo, veremos um quadro muito diferente de oportunidades e grande ameaça.

Embora continuemos emergentes, não somos mais um país adolescente. Amadurecemos. Somos um país de meia-idade, como nos define a demógrafa Ana Amélia Camarano. Por décadas, vimo-nos como o país do futuro. O futuro chegou e não o reconhecemos. Não é que não tenhamos futuro. Temos, e pode ser brilhante. Curto é o tempo para construí-lo. O amadurecimento nos dá o potencial para um salto qualitativo, que nos leve muito além das melhores projeções lineares. Mas, ao mesmo tempo, põe-nos diante de um desafio decisivo: ou saltamos logo ou perdemos o melhor momento para saltar.

Se olharmos para trás, veremos uma trajetória espetacular nos últimos cinqüenta anos. Mas nos últimos 25 já não foi tão brilhante quanto poderia. Vencemos a inflação, um grande episódio, mas nos atolamos em uma crise sem fim. Fizemos muito, porém não o suficiente. Estamos parados, em muitas dimensões.

Na educação, universalizamos o ensino básico. Mas não demos o passo seguinte: o da qualidade. Nada fizemos de notável no ensino médio. A crise universitária é profunda, e até hoje não se vê proposta de reforma que chegue à raiz do problema.

Ilustração Ale Setti


Sem ruptura com o padrão atual, sem uma revolução institucional, moral, intelectual e pedagógica, em todos os campos da educação, não daremos o salto que poderíamos dar. Mas não basta educação. Nosso setor público não conseguirá, sem reforma profunda, responder a esse desafio. Nossa sociedade precisa querer saltar e saber saltar, sem a muleta do governo.

Em 2025, os brasileiros entre 15 e 30 anos serão 52,5 milhões, 22% da população. Será o auge de sua capacidade de aprender. Precisarão ter escola de qualidade, nos três níveis. Os que terão entre 30 e 60 anos serão 90,4 milhões, 39% da população. Estarão no auge da produtividade e necessitarão de emprego e de recursos de qualidade para realizar seu potencial. Teremos 61% da população em seu ápice. Se obtiverem sucesso, provavelmente teremos feito tudo o que é preciso para dar o salto.

Em 2025, 34,5 milhões de brasileiros terão mais de 60 anos, mais de três vezes a população de Portugal. Um crescimento de 79%, que adicionará mais 15 milhões de pretendentes à conta da Previdência. Não terão cobertura. O sistema naufragará com eles. E até agora não conseguimos desenhar uma previdência privada que possa complementar uma nova previdência pública.

O pior cenário é uma tragédia, sombria como Blade Runner. Os sinais dela são visíveis hoje. Nas grandes cidades, ela está matando jovens brasileiros como se estivessem na guerra. No Rio de Janeiro, são 87 homens para cada 100 mulheres. No Brasil, essa relação é de 95/100. A diferença é dada pela violência, que atinge os homens de 15 a 40 anos. As causas externas – homicídios, suicídios e desastres – respondem por 65,8% das mortes de homens jovens entre 14 e 25 anos. Coisa de país em guerra.

A sociedade está perdendo as referências. Transgride regras elementares de convivência sem atentar para o dano coletivo que esse comportamento traz. Perdeu a capacidade de se indignar com a violência, a decadência e a feiúra. A maioria acha que tudo é problema do governo e, se ele não resolver, cada um que se vire. Ora, o governo somos nós. Se não lhe impusermos padrões, prioridades, rumos, ele fará o que quiser.

Nosso problema não é se vamos crescer 3%, 4% ou 5%, neste ou no próximo ano. É a qualidade do crescimento que teremos nas duas ou três próximas décadas. Reforma fiscal profunda, não só superávits. Um Estado com prioridades claras, metas focadas e que deixe as pessoas realizarem seu melhor potencial, sem burocracia, achaques ou intervenções autoritárias. Mas que saiba proteger os cidadãos da violência e do abuso dos mais fortes na sociedade e na economia.

Há sempre dois cenários de futuro: ou criamos hoje as oportunidades para que as crianças e os jovens tenham educação e emprego nos diferentes momentos de sua vida ou vamos perder muitos deles para o desregramento anômico, para a violência e para a mediocridade. A projeção linear otimista do que temos sido não é ruim, mas é insuficiente. Temos em nosso DNA coletivo a capacidade de dar um grande salto de qualidade e quantidade, não linear. Outras sociedades deram esse salto. Grandes e pequenas. A última foi a Irlanda. Mas isso não é milagre nem dádiva que se espere de algum déspota esclarecido.

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 
 
 
 
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