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Em
foco: Sérgio Abranches
O debate errado
"Sem ruptura com o padrão atual, sem
uma
revolução institucional, moral, intelectual e
pedagógica, em todos os campos da educação,
não daremos o salto que poderíamos dar"
O debate brasileiro está fora de foco.
Nosso problema não é o superávit fiscal, a
taxa de juros nem quanto vamos crescer. Se olharmos para além
da conjuntura, deste ou do próximo governo, veremos um quadro
muito diferente de oportunidades e grande ameaça.
Embora continuemos emergentes, não
somos mais um país adolescente. Amadurecemos. Somos um país
de meia-idade, como nos define a demógrafa Ana Amélia
Camarano. Por décadas, vimo-nos como o país do futuro.
O futuro chegou e não o reconhecemos. Não é
que não tenhamos futuro. Temos, e pode ser brilhante. Curto
é o tempo para construí-lo. O amadurecimento nos dá
o potencial para um salto qualitativo, que nos leve muito além
das melhores projeções lineares. Mas, ao mesmo tempo,
põe-nos diante de um desafio decisivo: ou saltamos logo ou
perdemos o melhor momento para saltar.
Se olharmos para trás, veremos uma
trajetória espetacular nos últimos cinqüenta
anos. Mas nos últimos 25 já não foi tão
brilhante quanto poderia. Vencemos a inflação, um
grande episódio, mas nos atolamos em uma crise sem fim. Fizemos
muito, porém não o suficiente. Estamos parados, em
muitas dimensões.
Na educação, universalizamos
o ensino básico. Mas não demos o passo seguinte: o
da qualidade. Nada fizemos de notável no ensino médio.
A crise universitária é profunda, e até hoje
não se vê proposta de reforma que chegue à raiz
do problema.
Ilustração Ale Setti
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Sem ruptura com o padrão atual, sem uma revolução
institucional, moral, intelectual e pedagógica, em todos
os campos da educação, não daremos o salto
que poderíamos dar. Mas não basta educação.
Nosso setor público não conseguirá, sem reforma
profunda, responder a esse desafio. Nossa sociedade precisa querer
saltar e saber saltar, sem a muleta do governo.
Em 2025, os brasileiros entre 15 e 30 anos
serão 52,5 milhões, 22% da população.
Será o auge de sua capacidade de aprender. Precisarão
ter escola de qualidade, nos três níveis. Os que terão
entre 30 e 60 anos serão 90,4 milhões, 39% da população.
Estarão no auge da produtividade e necessitarão de
emprego e de recursos de qualidade para realizar seu potencial.
Teremos 61% da população em seu ápice. Se obtiverem
sucesso, provavelmente teremos feito tudo o que é preciso
para dar o salto.
Em 2025, 34,5 milhões de brasileiros
terão mais de 60 anos, mais de três vezes a população
de Portugal. Um crescimento de 79%, que adicionará mais 15
milhões de pretendentes à conta da Previdência.
Não terão cobertura. O sistema naufragará com
eles. E até agora não conseguimos desenhar uma previdência
privada que possa complementar uma nova previdência pública.
O pior cenário é uma tragédia,
sombria como Blade Runner. Os sinais dela são visíveis
hoje. Nas grandes cidades, ela está matando jovens brasileiros
como se estivessem na guerra. No Rio de Janeiro, são 87 homens
para cada 100 mulheres. No Brasil, essa relação é
de 95/100. A diferença é dada pela violência,
que atinge os homens de 15 a 40 anos. As causas externas
homicídios, suicídios e desastres respondem
por 65,8% das mortes de homens jovens entre 14 e 25 anos. Coisa
de país em guerra.
A sociedade está perdendo as referências.
Transgride regras elementares de convivência sem atentar para
o dano coletivo que esse comportamento traz. Perdeu a capacidade
de se indignar com a violência, a decadência e a feiúra.
A maioria acha que tudo é problema do governo e, se ele não
resolver, cada um que se vire. Ora, o governo somos nós.
Se não lhe impusermos padrões, prioridades, rumos,
ele fará o que quiser.
Nosso problema não é se vamos
crescer 3%, 4% ou 5%, neste ou no próximo ano. É a
qualidade do crescimento que teremos nas duas ou três próximas
décadas. Reforma fiscal profunda, não só superávits.
Um Estado com prioridades claras, metas focadas e que deixe as pessoas
realizarem seu melhor potencial, sem burocracia, achaques ou intervenções
autoritárias. Mas que saiba proteger os cidadãos da
violência e do abuso dos mais fortes na sociedade e na economia.
Há sempre dois cenários de futuro:
ou criamos hoje as oportunidades para que as crianças e os
jovens tenham educação e emprego nos diferentes momentos
de sua vida ou vamos perder muitos deles para o desregramento anômico,
para a violência e para a mediocridade. A projeção
linear otimista do que temos sido não é ruim, mas
é insuficiente. Temos em nosso DNA coletivo a capacidade
de dar um grande salto de qualidade e quantidade, não linear.
Outras sociedades deram esse salto. Grandes e pequenas. A última
foi a Irlanda. Mas isso não é milagre nem dádiva
que se espere de algum déspota esclarecido.
Sérgio Abranches é
cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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