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Auto-retrato
Caio Weser
Ana Araujo
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O brasileiro Caio Koch-Weser é um dos
mais influentes integrantes do governo da Alemanha. É um
dos três vice-ministros do governo de Gerhard Schröder.
Trata dos assuntos econômicos e financeiros com a União
Européia e representa o ministro das Finanças junto
ao Banco Mundial e ao FMI. Em visita ao Brasil para comemorar seus
60 anos, Weser deu a seguinte entrevista à repórter
Chrystiane Silva.
POR QUE SUA FAMÍLIA VEIO PARA O BRASIL?
Nasci e morei em Rolândia, no Paraná, até
a adolescência. Vivi em uma fazenda de café e adorava
andar a cavalo. Meu pai me contava histórias do meu avô,
que foi uma referência muito importante na minha vida. Ele
era um político da República de Weimar e fugiu da
Alemanha rumo ao Brasil após Adolf Hitler chegar ao poder,
nos anos 30. Meu avô já pensava em termos mundiais,
e isso sempre me fascinou. Com 15 anos, fui acabar o ensino médio
na Alemanha e, depois, estudei economia.
O SENHOR SE CONSIDERA MAIS BRASILEIRO OU
MAIS ALEMÃO?
Nasci no Brasil, estudei na Alemanha, morei 25 anos nos Estados
Unidos, onde cheguei à direção do Banco Mundial,
e depois voltei para a Europa. Mas é claro que no coração
sou mais brasileiro. O lugar onde você passa a infância
é onde está sua essência. Quando as seleções
de futebol jogam, fico feliz porque, como teuto-brasileiro, nunca
perco.
SEUS FILHOS FALAM PORTUGUÊS?
Tenho três filhos. A Yara tem 30 anos, a Ana, 27 anos,
e o Jacob, 21 anos. Todos falam português. O Jacob é
o que fala melhor porque morou no Brasil prestando serviços
sociais em uma favela em São Paulo e depois realizou projetos
ambientais na Amazônia. Minha esposa, Maritta, é alemã,
mas fala português perfeitamente. Adora o Brasil. Fez tese
de doutorado sobre a umbanda e as tradições africanas.
Nós sempre passamos férias em Porto de Galinhas, em
Pernambuco, onde temos uma casa de praia. É um dos lugares
mais bonitos do mundo.
POR QUE OS EUA FORAM CONTRA A SUA INDICAÇÃO
PARA DIRIGIR O FMI?
Fiquei chateado porque era candidato da União Européia,
de todos os europeus. Mas em política é assim, ora
se ganha, ora se perde. O governo americano acha que eu defenderia
uma política diferente do que os EUA consideram a ideal.
Não é assim. O FMI, como toda instituição,
cometeu erros, mas as críticas que se fazem ao Fundo não
são razoáveis. Quando um país está em
crise, é preciso mesmo adotar políticas macroeconômicas
duras.
O BRASIL DEVE INVESTIR NO FORTALECIMENTO
DO MERCOSUL?
Acho que sim. É um projeto que pode ser muito benéfico.
O Brasil e os outros países do bloco podem aprender muito
com a unificação européia, que é o melhor
modelo de união comercial existente. É essencial para
o Brasil estreitar os acordos dentro do Mercosul e ampliar as negociações
com a União Européia. O país só vai
crescer de forma sustentada com o aumento do comércio internacional.
QUAL A SUA AVALIAÇÃO SOBRE
A ECONOMIA BRASILEIRA?
É a primeira vez em muitos anos que as contas externas,
a situação fiscal e a monetária estão
em equilíbrio. Isso é a base para um crescimento que
pode chegar a 7% ao ano, com o aumento das exportações.
As reformas estruturais também foram importantes para construir
a base de crescimento, mas precisamos de uma segunda onda de reformas,
que devem acontecer após as eleições municipais.
Na minha opinião, o país não precisa mais de
acordos com o FMI. A área social é mais complicada.
É necessário ter mais dinheiro. O Bolsa-Família
já é uma boa iniciativa. Em geral, o Brasil tem de
melhorar muito suas instituições. Um exemplo é
o Poder Judiciário, que precisa ser reformado. Estamos desenvolvendo
um consenso no grupo dos vinte países mais desenvolvidos
que deve substituir o Consenso de Washington, que preconizava a
abertura comercial, a desestatização da economia e
uma política macroeconômica responsável. O problema
do Consenso de Washington, que foi muito influente nos anos 90,
é que não considerava o poder das instituições
na economia. A história provou que os países também
precisam ter instituições fortes e responsáveis.
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