Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Auto-retrato
Caio Weser


Ana Araujo


O brasileiro Caio Koch-Weser é um dos mais influentes integrantes do governo da Alemanha. É um dos três vice-ministros do governo de Gerhard Schröder. Trata dos assuntos econômicos e financeiros com a União Européia e representa o ministro das Finanças junto ao Banco Mundial e ao FMI. Em visita ao Brasil para comemorar seus 60 anos, Weser deu a seguinte entrevista à repórter Chrystiane Silva.

POR QUE SUA FAMÍLIA VEIO PARA O BRASIL?
Nasci e morei em Rolândia, no Paraná, até a adolescência. Vivi em uma fazenda de café e adorava andar a cavalo. Meu pai me contava histórias do meu avô, que foi uma referência muito importante na minha vida. Ele era um político da República de Weimar e fugiu da Alemanha rumo ao Brasil após Adolf Hitler chegar ao poder, nos anos 30. Meu avô já pensava em termos mundiais, e isso sempre me fascinou. Com 15 anos, fui acabar o ensino médio na Alemanha e, depois, estudei economia.

O SENHOR SE CONSIDERA MAIS BRASILEIRO OU MAIS ALEMÃO?
Nasci no Brasil, estudei na Alemanha, morei 25 anos nos Estados Unidos, onde cheguei à direção do Banco Mundial, e depois voltei para a Europa. Mas é claro que no coração sou mais brasileiro. O lugar onde você passa a infância é onde está sua essência. Quando as seleções de futebol jogam, fico feliz porque, como teuto-brasileiro, nunca perco.

SEUS FILHOS FALAM PORTUGUÊS?
Tenho três filhos. A Yara tem 30 anos, a Ana, 27 anos, e o Jacob, 21 anos. Todos falam português. O Jacob é o que fala melhor porque morou no Brasil prestando serviços sociais em uma favela em São Paulo e depois realizou projetos ambientais na Amazônia. Minha esposa, Maritta, é alemã, mas fala português perfeitamente. Adora o Brasil. Fez tese de doutorado sobre a umbanda e as tradições africanas. Nós sempre passamos férias em Porto de Galinhas, em Pernambuco, onde temos uma casa de praia. É um dos lugares mais bonitos do mundo.

POR QUE OS EUA FORAM CONTRA A SUA INDICAÇÃO PARA DIRIGIR O FMI?
Fiquei chateado porque era candidato da União Européia, de todos os europeus. Mas em política é assim, ora se ganha, ora se perde. O governo americano acha que eu defenderia uma política diferente do que os EUA consideram a ideal. Não é assim. O FMI, como toda instituição, cometeu erros, mas as críticas que se fazem ao Fundo não são razoáveis. Quando um país está em crise, é preciso mesmo adotar políticas macroeconômicas duras.

O BRASIL DEVE INVESTIR NO FORTALECIMENTO DO MERCOSUL?
Acho que sim. É um projeto que pode ser muito benéfico. O Brasil e os outros países do bloco podem aprender muito com a unificação européia, que é o melhor modelo de união comercial existente. É essencial para o Brasil estreitar os acordos dentro do Mercosul e ampliar as negociações com a União Européia. O país só vai crescer de forma sustentada com o aumento do comércio internacional.

QUAL A SUA AVALIAÇÃO SOBRE A ECONOMIA BRASILEIRA?
É a primeira vez em muitos anos que as contas externas, a situação fiscal e a monetária estão em equilíbrio. Isso é a base para um crescimento que pode chegar a 7% ao ano, com o aumento das exportações. As reformas estruturais também foram importantes para construir a base de crescimento, mas precisamos de uma segunda onda de reformas, que devem acontecer após as eleições municipais. Na minha opinião, o país não precisa mais de acordos com o FMI. A área social é mais complicada. É necessário ter mais dinheiro. O Bolsa-Família já é uma boa iniciativa. Em geral, o Brasil tem de melhorar muito suas instituições. Um exemplo é o Poder Judiciário, que precisa ser reformado. Estamos desenvolvendo um consenso no grupo dos vinte países mais desenvolvidos que deve substituir o Consenso de Washington, que preconizava a abertura comercial, a desestatização da economia e uma política macroeconômica responsável. O problema do Consenso de Washington, que foi muito influente nos anos 90, é que não considerava o poder das instituições na economia. A história provou que os países também precisam ter instituições fortes e responsáveis.

 
 
 
 
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