Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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André Petry
Uma doença política

"Talvez não seja apenas repulsivo que as
vítimas pobres de São Sebastião não tenham
merecido o mesmo empenho demonstrado
pelo governo quando a doença apareceu
em rica vizinhança"

Sabe-se que, para efeito noticioso, a vida de um americano vale muito mais que a de um indiano. Basta observar o noticiário das agências internacionais. Uma catástrofe que mate, digamos, dez alemães ou dez ingleses é notícia no mundo inteiro. Nada que mate dez indianos, ou dez bolivianos, ou dez tailandeses, conseguirá ser notícia mundial. Para tanto, é preciso que morram uns cinqüenta, 100, talvez 200. Sendo claro: os ricos valem mais que os pobres. Se houver cinqüenta mortos num acidente de carro em Paris, teremos uma tragédia em escala planetária. Se o mesmo ocorrer em Luanda, a capital de Angola, ninguém ficará sabendo. Convive-se com essa diferença todos os dias e sem grandes incômodos porque tal diferença é um mero produto do critério comercial das agências sobre o que é e o que não é notícia. Mas o que fazer quando essa diferença pauta a política de saúde de um governo?

Na semana passada, o governo do Distrito Federal lançou uma campanha de combate à hantavirose, doença transmitida por roedores silvestres que provoca sérias dificuldades para respirar e pode levar à morte. Em Brasília, desde que se descobriu que a hantavirose era uma ameaça real, já morreram oito pessoas. Oito pessoas, jovens na maioria. O surto da virose não fugiu ao controle, mas é um caso sério e preocupante. O governo do Distrito Federal cumpre com sua obrigação ao lançar a campanha para esclarecer a população da capital federal sobre o que é a doença e como se pode evitá-la. Na cronologia do surto, porém, descobre-se um viés perigoso.

A primeira vítima foi uma estudante de 17 anos, que morreu em 22 de maio. Ela morava em São Sebastião, uma das cidades mais pobres da periferia de Brasília. Dez dias depois de sua morte se descobriu que a estudante fora vítima da hantavirose. Podia ser um caso isolado. No dia 23 de maio, a doença fez outra vítima. Um adolescente de 16 anos, também morador da paupérrima São Sebastião. Duas mortes, uma após a outra, já não podem ser vistas como um caso isolado. Em 27 de maio, deu-se a terceira morte. Dessa vez, a vítima foi um jovem de 24 anos. Trabalhava numa chácara a 8 quilômetros do centro de São Sebastião. A essa altura, não se podia mais falar em caso isolado. O governo tomou algumas providências, mandou técnicos à região, fez uma caça aos ratos, mas nada de discurso do governador ou de campanha em todo o Distrito Federal. Nada de ações de envergadura. Houve mais uma vítima, que felizmente conseguiu sobreviver. Depois outra, que morreu. Depois mais outra, que sobreviveu. E outra, que morreu...

E assim foi, até que apareceu uma vítima no Lago Sul, o bairro mais rico de Brasília. A confirmação de que a morte do morador do Lago Sul era mesmo decorrência da hantavirose ocorreu numa sexta-feira – e, cinco dias depois, com um fim de semana no meio, a campanha estava lançada, com a distribuição de 250.000 panfletos, previsão de visita de técnicos às residências e divulgação de peças publicitárias em jornal, rádio e televisão. Afinal, o governador descobrira, e assim proclamou, em seu discurso no ato de lançamento da campanha, que não existe "fronteira para os ratos". Talvez não seja apenas repulsivo que as vítimas pobres de São Sebastião não tenham merecido o mesmo empenho demonstrado pelo governo quando a doença apareceu em rica vizinhança. Talvez seja mais que repulsivo.

 
 
 
 
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