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André
Petry
Uma doença política
"Talvez não seja apenas repulsivo
que as
vítimas pobres de São Sebastião não
tenham
merecido o mesmo empenho demonstrado
pelo governo quando a doença apareceu
em rica vizinhança"
Sabe-se que, para efeito noticioso, a vida
de um americano vale muito mais que a de um indiano. Basta observar
o noticiário das agências internacionais. Uma catástrofe
que mate, digamos, dez alemães ou dez ingleses é notícia
no mundo inteiro. Nada que mate dez indianos, ou dez bolivianos,
ou dez tailandeses, conseguirá ser notícia mundial.
Para tanto, é preciso que morram uns cinqüenta, 100,
talvez 200. Sendo claro: os ricos valem mais que os pobres. Se houver
cinqüenta mortos num acidente de carro em Paris, teremos uma
tragédia em escala planetária. Se o mesmo ocorrer
em Luanda, a capital de Angola, ninguém ficará sabendo.
Convive-se com essa diferença todos os dias e sem grandes
incômodos porque tal diferença é um mero produto
do critério comercial das agências sobre o que é
e o que não é notícia. Mas o que fazer quando
essa diferença pauta a política de saúde de
um governo?
Na semana passada, o governo do Distrito Federal
lançou uma campanha de combate à hantavirose, doença
transmitida por roedores silvestres que provoca sérias dificuldades
para respirar e pode levar à morte. Em Brasília, desde
que se descobriu que a hantavirose era uma ameaça real, já
morreram oito pessoas. Oito pessoas, jovens na maioria. O surto
da virose não fugiu ao controle, mas é um caso sério
e preocupante. O governo do Distrito Federal cumpre com sua obrigação
ao lançar a campanha para esclarecer a população
da capital federal sobre o que é a doença e como se
pode evitá-la. Na cronologia do surto, porém, descobre-se
um viés perigoso.
A primeira vítima foi uma estudante
de 17 anos, que morreu em 22 de maio. Ela morava em São Sebastião,
uma das cidades mais pobres da periferia de Brasília. Dez
dias depois de sua morte se descobriu que a estudante fora vítima
da hantavirose. Podia ser um caso isolado. No dia 23 de maio, a
doença fez outra vítima. Um adolescente de 16 anos,
também morador da paupérrima São Sebastião.
Duas mortes, uma após a outra, já não podem
ser vistas como um caso isolado. Em 27 de maio, deu-se a terceira
morte. Dessa vez, a vítima foi um jovem de 24 anos. Trabalhava
numa chácara a 8 quilômetros do centro de São
Sebastião. A essa altura, não se podia mais falar
em caso isolado. O governo tomou algumas providências, mandou
técnicos à região, fez uma caça aos
ratos, mas nada de discurso do governador ou de campanha em todo
o Distrito Federal. Nada de ações de envergadura.
Houve mais uma vítima, que felizmente conseguiu sobreviver.
Depois outra, que morreu. Depois mais outra, que sobreviveu. E outra,
que morreu...
E assim foi, até que apareceu uma vítima
no Lago Sul, o bairro mais rico de Brasília. A confirmação
de que a morte do morador do Lago Sul era mesmo decorrência
da hantavirose ocorreu numa sexta-feira e, cinco dias depois,
com um fim de semana no meio, a campanha estava lançada,
com a distribuição de 250.000
panfletos, previsão de visita de técnicos às
residências e divulgação de peças publicitárias
em jornal, rádio e televisão. Afinal, o governador
descobrira, e assim proclamou, em seu discurso no ato de lançamento
da campanha, que não existe "fronteira para os ratos". Talvez
não seja apenas repulsivo que as vítimas pobres de
São Sebastião não tenham merecido o mesmo empenho
demonstrado pelo governo quando a doença apareceu em rica
vizinhança. Talvez seja mais que repulsivo.
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