Lassie
(Inglaterra/Irlanda, 2006. Paris) Em suas incontáveis
encarnações cinematográficas e televisivas,
a collie Lassie (ou "Mocinha") foi sempre sinônimo não
apenas da proverbial fidelidade canina, mas também
de inteligência, sensibilidade e beleza. Poucas vezes,
porém, a história da mascote que é separada
de seu pequeno dono (ou dona, conforme a versão) e
enfrenta dificuldades indescritíveis para se reunir
a ele foi contada com tanto charme quanto nessa produção
inglesa recente. Lassie é vendida para um duque (Peter
O'Toole) porque sua família passa dificuldades. Mas
ela não se conforma: foge o tempo todo para voltar
à sua casa numa das vezes, cruzando centenas
de quilômetros de paisagens estonteantes. Uma história
que nunca fica velha. Veja
cenas.
Divulgação
9. Pelotão:
a guerra no Afeganistão, pelos russos
9. Pelotão
(9 Rota, Rússia/Ucrânia, 2005. Flashstar)
Depois de um longo inverno, o cinema russo atravessa
uma retomada junto a seu próprio público, graças
a filmes como Guardiões da Noite e este 9.
Pelotão, que acompanha um grupo de soldados desde
seu recrutamento até o combate no Afeganistão,
já no fim da guerra que foi de 1979 a 1989.
O tom é heróico, mas o realismo é um
bocado mais acentuado do que nos similares americanos. Tecnicamente,
também, o filme é um arraso, tirando excelente
partido das locações e transmitindo com grande
eficácia o terror que a soldadesca enfrentou nesse
conflito desastroso. Fyodor Bondarchuk, portanto, é
um diretor e um ator (ele interpreta aqui o sargento Khokhol)
cujo trabalho deve ser acompanhado, e que faz jus ao pai,
Sergey Bondarchuk, um dos grandes cineastas soviéticos
dos anos 50 e 60.
LIVROS
Roger Viollet/AFP
Racine: três versões
do mito de Hipólito
Hipólito
e Fedra, de Eurípides,
Sêneca e Racine (tradução de Joaquim Brasil
Fontes; Iluminuras; 496 páginas; 53 reais) Devotado
ao culto de Ártemis, deusa da caça, o adolescente
Hipólito filho de Teseu, rei de Atenas
leva uma existência casta, no meio das florestas. Sua
madrasta, Fedra, se apaixona pelo jovem. Incapaz de seduzi-lo,
ela o acusa de estupro e depois se mata. Esse mito ganhou
sua primeira grande representação literária
na tragédia Hipólito, do grego Eurípides,
dramaturgo do século V a.C. O romano Sêneca,
no século I d.C., comporia sua versão da história
em Fedra que também é título
da obra-prima de Jean Racine, dramaturgo do classicismo francês,
no século XVII. As três grandes tragédias
estão reunidas nesse livro, sempre em versão
bilíngüe.
Leia trecho.
Monstro
de Deus, de David Quammen (tradução
de Maria Guimarães; Companhia das Letras; 448 páginas;
57,50 reais) Embora o ser humano tenha conseguido se
colocar no topo da cadeia alimentar, o terror primitivo de
ser transformado na refeição de outro animal
ainda subsiste. Aparece tanto em mitos antigos quanto em filmes
de ficção científica como Alien.
Consagrado autor de história natural e colaborador
da revista National Geographic, o americano David Quammen
investiga a situação de ursos, leões
e crocodilos. Também examina o modo de vida dos povos
que convivem com os predadores como os udeges, que,
no extremo oriente russo, dividem território com os
tigres siberianos. Esse livro fascinante desvenda uma triste
ironia: quase todos esses grandes predadores hoje estão
ameaçados de extinção. Leia
trecho.
DISCOS
Divulgação
Interpol: a solidão
em Nova York, ao som de guitarras chorosas
Our
Love to Admire,Interpol (EMI)
O terceiro álbum do Interpol é o primeiro
lançado por uma grande gravadora, a Capitol. Mostra
o amadurecimento musical da banda, que deixa de lado o romantismo
do disco anterior, Antics mas sem abandonar
o estilo quase gótico, tanto no visual e nos temas
como nas guitarras chorosas. Our Love to Admire apresenta
pequenas crônicas da vida em Nova York, cidade da banda,
com ênfase na solidão e no lado sombrio da rotina
urbana. Pioneers to the Falls abre o álbum de
forma épica, mas as faixas seguintes seguem mais a
linha decadentista, com temas que vão do ménage
à trois (No I in Threesome) ao tédio
profundo (Rest My Chemistry). É também
um disco cheio de humor, e com texturas musicais sutis.
Champman Baehler
Queens: sem querer
salvar o rock
Era Vulgaris, Queens
of the Stone Age (Universal) A vida noturna de Hollywood,
com seus drogados e prostitutas, foi a inspiração
do vocalista e fundador do Queens, Josh Homme. O novo disco
traz canções cheias de sarcasmo e descrença,
embaladas por uma guitarra bem ritmada e uma bateria pulsante.
Apesar do clima desiludido, Era Vulgaris é um
álbum descompromissado, sem pretensões de ser
a salvação do rock, que critica com mais ironia
do que moralismo. Prova disso é I'm Designer,
em que Homme diz, ao som de um riff contagiante, que toda
sua geração está à venda. Destaque
para a participação de Julian Casablancas, do
Strokes, na guitarra e nos backing vocals de Sick, Sick,
Sick. Em tempo: a expressão latina era vulgaris
se refere à "era comum", ou seja, os dias de hoje.