Ensaio:
Roberto Pompeu
de Toledo O Brasil que veio do frio
A relação
com a seleção, tanto do torcedor
quanto do jogador, já não é a mesma
Eles vêm
da Espanha, da Itália, da Alemanha, da Inglaterra,
da França. Vêm também de Portugal, da
Holanda e até da Ucrânia e da Rússia.
Juntam-se num campo de futebol, ganham uma camisa amarela,
e a isso se chama seleção brasileira. Informam
os repórteres esportivos que eles não gostam
de calor. Estão desacostumados. Em outros tempos era
o contrário. O pavor era enfrentar o frio. Quando jogador
brasileiro ia jogar na Europa, tinha medo de, numa cobrança
de lateral, acabar congelado na posição de mãos
ao alto, como bandido rendido pelo xerife. Ou então,
ao tentar uma cabeçada, não sair do solo, o
gelo acumulado nos pés pesando como bola de chumbo
na canela do condenado. Os goleiros, entre os três paus,
ofereciam imperdível oportunidade para usar o verbo
tiritar, com suas três sílabas que tremelicam
e se debatem uma contra a outra. Hoje, para usar sua linguagem,
eles tiram de letra. Paisagem de neve lhes é mais familiar
do que praia com coqueiro.
Aquilo que hoje
em dia se insiste em chamar de seleção brasileira
no momento se apresenta na Venezuela, na disputa da Copa América.
Dos 22 jogadores que a integram, dezenove jogam na Europa,
só três no Brasil (até quando?). Dois,
entre os dezenove "europeus", vêm de países cuja
inserção entre os "civilizados" seria tão
discutível quanto a do Brasil a Ucrânia,
onde joga o ex-santista Elano, e a Rússia do ex-palmeirense
Vágner Love. A Ucrânia tem um presidente, Viktor
Yushchenko, cujo rosto foi deformado em virtude do que se
supõe tenha sido tentativa de envenenamento por parte
dos adversários. A Rússia das muitas gangues
e máfias é um lugar em que uma jornalista que
incomoda o governo com suas reportagens investigativas um
dia pode acabar assassinada por um balaço, como ocorreu
no ano passado com Anna Politkovskaia. Até em lugares
como esses os jogadores brasileiros e jogadores bons,
de primeiro time hoje vão parar.
Os outros convocados
habitam países em que escândalos políticos
não brotam com tanta fartura, e quando brotam têm
conseqüência. Moram em cidades em que se pode passear
à noite e em que os motoristas param diante das faixas
de pedestres, respeitam limites de velocidade, só ultrapassam
pela esquerda, não trafegam no acostamento e não
costumam jogar lixo pela janela dos carros. O leitor pensa
que isso é perfumaria? Não, são coisas
que depois de alguns anos entram na circulação
sanguínea do indivíduo. Ele passa a achar que
o normal é assim e não, como os brasileiros,
que o normal é viver entre seqüestros, balas perdidas
e trânsito que reproduz uma luta na selva. Acresce que
há boas escolas para os filhos e bom tratamento médico
mesmo para os pais, irmãos, avós e tios que
costumam levar como agregados. De repente ai!
vem a convocação para a seleção
brasileira. Não foi à toa que Kaká e
Ronaldinho Gaúcho se apressaram em pedir dispensa.
A camisa amarela os arrasta de volta ao Brasil. E o Brasil
é um pesadelo do qual estavam conseguindo despertar.
A camisa amarela
era a expressão mais alta da nacionalidade. O.k., somos
uma nação de retirantes e favelados, desdentados
e analfabetos funcionais, mas tínhamos a seleção.
Hoje a relação com a camisa amarela dá
sinais de esgarçamento, tanto para quem a veste como
para quem torce por ela. O desrespeito de quem a veste por
suas glórias e seu significado ficou cristalizado,
na última Copa do Mundo, na figura do jogador Roberto
Carlos menos pelo célebre momento em que, no
jogo contra a França, ajeitava a meia enquanto o adversário
fazia o gol e mais pela cena do jogo anterior, contra o Japão,
quando, poupado pelo treinador, assistiu à partida
não sentado no banco de reservas, mas escarrapachado
no gramado, em posição de maja desnuda.
Era a expressão viva de um descaso e um deboche que
não ousaria ostentar em seu clube.
Para o torcedor,
o esgarçamento vem de que soa cada vez mais estranha
uma seleção feita de jogadores que não
têm nada a ver com os clubes e os campeonatos que se
jogam aqui. Antes, ficava-se esperando a convocação
e torcendo para que o próprio clube tivesse o máximo
de jogadores convocados. Era uma alegria para os flamenguistas
quando quatro jogadores de seu time eram convocados contra
só um do Vasco, ou, para os são-paulinos, quando
cravavam três contra dois corintianos. Hoje, salvo raríssimas
e eventualíssimas exceções, sabe-se de
antemão que não haverá jogador do próprio
clube convocado. Eles virão do Barcelona e do Milan,
quando não de um certo SC Heerenveen, time holandês
de um certo Afonso, de quem até muito cronista esportivo
não tinha ouvido falar. Outro dos atuais convocados,
Anderson, que, como hoje é regra, cedo trocou o Grêmio
pelo Porto, fala com sotaque português. A seleção
vai se descolando do Brasil como uma nave que arranca para
distantes paragens. Talvez não volte mais. Um dia,
ela foi a pátria de chuteiras. Hoje, é um Brasil
que veio do frio. Ocorre que, por lá, não há
Brasil.