A
guitarra já foi um grande objeto de idolatria. Nos
anos 60 e 70, todo show de rock incluía aqueles momentos
em que o guitarrista dava um passo à frente para se
entregar a longas exibições de virtuosismo.
Não é mais assim. Gêneros como o rap e
a música eletrônica baniram a guitarra do palco.
O rock contemporâneo ainda tem grandes guitarristas,
como Jack White, da dupla White Stripes, mas desapareceram
figuras como Jimi Hendrix e Jimmy Page, com seus solos intermináveis.
Hoje, só a turma com mais de 30 anos ainda aprecia
mais de sessenta segundos de distorção e microfonia.
O solista de guitarra, porém, ganhou uma inusitada
sobrevida: o Guitar Hero, um dos videogames mais populares
da atualidade, oferece ao usuário a oportunidade de
reproduzir solos famosos de bandas como Black Sabbath e Rage
Against the Machine. Claro que tudo é de brincadeirinha
inclusive a guitarra.
Já em sua
segunda versão, disponível para os consoles
PlayStation e Xbox, o jogo segue a tendência de descartar
o equipamento mais tradicional do videogame: o joystick. O
console Nintendo Wii é o mais avançado nesse
sentido: utiliza um controle sem fio que detecta os movimentos
do jogador com isso, um taco pode ser simulado em um
jogo de golfe ou uma raquete em uma partida de tênis.
Não tão sofisticado, o Guitar Hero II
inclui um controle em formato de guitarra, cujo desenho imita
a Gibson SG que ficou famosa nas mãos de Pete
Townshend, do The Who. A guitarra traz cinco botões
coloridos no braço. O objetivo do jogador é
imitar seqüências de "notas", representadas por
cores, que aparecem na tela. Não é possível
compor músicas, apenas copiar movimentos predeterminados,
como nos pumps, as máquinas de dança
dos fliperamas. Lançado em novembro do ano passado,
o Guitar Hero II já vendeu 3,5 milhões
de cópias. Dois meses no mercado foram suficientes
para colocá-lo em quinto lugar na lista dos games mais
vendidos de 2006 nos Estados Unidos.
O Guitar Hero
II exige uma certa coordenação motora
mas a técnica do jogo não tem muito a ver com
a habilidade exigida por uma guitarra de verdade. VEJA convidou
músicos profissionais dois guitarristas da banda
de metal Angra, Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt, e o guitarrista
de jazz e produtor Conrado Goys e um aficionado do
jogo, Carlos Alberto de Freitas, estudante e fundador do fórum
on-line Guitar Hero Brasil, para um campeonato informal em
São Paulo. Os guitarristas apreciaram a brincadeira.
"As notas da música são tocadas direitinho na
tela. É bem-feito", diz Bittencourt. Na hora da competição,
porém, os profissionais perderam para o amador. A partida
final, entre Goys e Freitas, foi com a música Strutten,
do Kiss. Nem toda a técnica da guitarra profissional
foi suficiente para vencer quem é viciado no game:
Freitas conseguiu mais de 90% de acerto na reprodução
das notas, enquanto Goys estacionou nos 80%. Os novos heróis
da guitarra não precisam nem mesmo saber tocar.