Chega de divas mal
saídas da adolescência.
Quem domina a parada, agora, são as calipígias
Beyoncé, Fergie e Shakira
Sérgio Martins
Fergie,
a desinibida do hip hop: artista mais madura, no controle
da própria carreira e com todas as polegadas
nos lugares certos
Até não
muito tempo atrás, o mercado pop vinha rodando à
base de um combustível que, sabe-se agora, era do tipo
não-renovável: artistas recém-saídas
da adolescência, com certo talento para o canto e o
rebolado, sensualidade ressaltada e uma submissão dócil
às táticas de seus marqueteiros. Foi o período
em que Britney Spears, Christina Aguilera e Lindsay Lohan
dominaram as paradas de sucesso. Britney e Lindsay, porém,
parecem ter trocado definitivamente as páginas de música
pela seção de polícia, enquanto Christina
se desinteressou de sua existência anterior e acabou
por se revelar uma boa intérprete (o milagre pode ser
verificado em Possibilities, DVD do jazzista Herbie
Hancock). Em substituição a elas, tem-se agora
uma nova modalidade de diva uma modalidade mais feminina,
versátil e, acima de tudo, mais madura, na certidão
de nascimento e na persona artística. Está-se,
agora, na era da tríade formada por Fergie, Beyoncé
e Shakira, que acrescentaram ao cenário pop algumas
polegadas (na região calipígia, novo fascínio
dos americanos), vozes mais cheias, um bocado de personalidade,
excelentes vendas (em especial entre os adolescentes, sempre
a fatia mais cobiçada e também mais volúvel
do público) e uma certeza: os fãs não
terão de acompanhar, ao vivo e em tempo real, suas
dores de crescimento, já que essas foram resolvidas
longe dos holofotes.
O caso mais curioso
do trio é o de Fergie, nome artístico de Stacy
Ann Ferguson. Nascida em Los Angeles, numa área cheia
de rappers mal-encarados, e ex-atriz mirim (ela dublou um
personagem em filmes do Charlie Brown), ela estreou como cantora
com o Wild Orchid, uma banda de pop ruinzinho, cuja carreira
não foi ajudada pelo fato de, à época,
sua vocalista ser dependente de drogas pesadas. Quatro anos
atrás, Fergie se reinventou. Deu um basta no abuso
de substâncias e se juntou ao grupo de hip hop Black
Eyed Peas. O resultado foi uma reação química
extraordinária. Isoladamente, nem Fergie nem os Black
Eyed Peas usufruíam grande prestígio. Combinados,
melhoraram-se mutuamente e saltaram para a linha de frente
do hip hop.
Fergie, ao vivo,
é uma potência, capaz tanto de emular divas do
soul quanto de posar de marota como na vulgar, mas
ainda assim deliciosa, My Humps (Meu Lombo, em português).
Era inevitável, portanto, que ela crescesse mais do
que sua banda. No ano passado, The Dutchess, seu primeiro
trabalho-solo, rendeu três hits nas rádios
Fergalicious, London Bridge e a balada Big
Girls Don't Cry e vendeu 2 milhões de cópias
apenas nos Estados Unidos. (No Brasil, o CD bateu em 30.000
cópias, marca respeitável num mercado assolado
por pirataria e downloads ilegais.) As únicas outras
cantoras capazes de ameçar a liderança de Fergie
nas paradas, hoje, são as também bootylicious
(palavra tomada de um velho hit de Beyoncé, que descreve
as moças com centímetros magnificamente distribuídos
abaixo da linha da cintura) Beyoncé e Shakira. Não
por acaso, a diva do R&B e a colombiana decidiram unir
forças, interpretando juntas Beautiful Liar,
um sucesso de sonoridade oriental que vem sendo divulgado
por meio de um clipe estonteante.
O que esse confronto
amigável mostra, porém, é que
ao contrário da "geração" anterior de
cantoras as líderes do momento não são
três vezes a mesma coisa. Fergie é a mais cheia
de balanço, sempre com um pé no rap e outro
no funk eletrônico. A texana Beyoncé, treinada
para ser famosa desde os 9 anos, quando formou o trio Destiny's
Child, sobressai pela voz cristalina, pelo bom gosto para
o repertório e pelo dom para tornar tudo que a envolva
uma megaprodução. Shakira, nascida em Barranquilla,
de uma família de imigrantes árabes, é
a mais versátil e experimentada das três. Quando
se mudou para os Estados Unidos, no fim dos anos 90, já
era um ícone sul-americano. Talentosa e aplicada, conseguiu
se tornar um sucesso também em inglês, desde
que lançou o disco Laundry Service, em 2001.
Hoje, ela mima seus dois públicos, o que prefere ouvi-la
em espanhol e o que só a entende em inglês. Dois
anos atrás, por exemplo, lançou Fijación
Oral e Oral Fixation, dois discos de repertório
praticamente idêntico, mas que contemplavam as particularidades
lingüísticas e rítmicas desses grupos distintos.
O que realmente
distingue esse trio de divas da leva que as antecedeu, porém,
é que elas têm de sobra aquilo que falta a Britney,
Lindsay e congêneres não, não só
talento digno do nome, como bom humor e espírito esportivo.
No ano passado, por exemplo, a cantora canadense Alanis Morissette,
que adora ser xarope, fez uma paródia do clipe de My
Humps, a fim de mostrar como a canção era
degradante para o público feminino. Fergie não
se abalou. Mandou para Alanis um bolo em formato de ancas
femininas e um cartão, agradecendo a homenagem. Aliás,
merecida.