Uma coisa não
se pode negar a respeito do time que cuida de fazer rodar
a gigantesca engrenagem que é a série Harry
Potter: a despeito de ela não guardar mais nenhuma
surpresa, apesar das limitações de seu elenco
jovem, contra todas as imposições do enredo
estabelecido nos livros da autora J. K. Rowling e, principalmente,
não obstante o fato de que o dia dessas pessoas já
está ganho (a mais baixa bilheteria individual da franquia
foi de 790 milhões de dólares), esse time não
desiste de, a cada novo filme, tentar oferecer algo diferente
a seu público e avançar no teor dramático
da história nem que seja um pequeno passo. Em
Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry
Potter and the Order of the Phoenix, Inglaterra/ Estados
Unidos, 2007), o quinto título da marca, que tem estréia
mundial nesta quarta-feira 11, o ataque se dá por dois
flancos. O primeiro é o da crescente agitação
do protagonista, pressionado não apenas pelo fortalecimento
de seu arquiinimigo Lorde Voldemort (Ralph Fiennes, que recuperou
muitos de seus poderes, mas ainda não o nariz), como
também por seus próprios hormônios. Não
há varinha de condão que dê jeito na adolescência,
e Harry oscila aqui entre aqueles estados de ânimo típicos
da fase da paixonite por Cho Chang (Katie Leung), com
quem ele finalmente troca um beijo, às explosões
de raiva e tristeza da variante ninguém-me-entende.
O outro flanco
em que o diretor David Yates se desdobra é o do visual,
que, desde a grande virada operada pelo diretor Alfonso Cuarón
no terceiro filme, vem se tornando progressivamente mais sombrio
e cheio de presságios. O ministro da magia, que conduz
uma campanha contra Harry, é visto por toda parte em
telas imensas, à semelhança do Grande Irmão
de 1984. A escola de Hogwarts, antes um refúgio,
abriga cada vez mais penumbra e estranheza. E até a
vila do interior na qual Harry passa o verão com seus
detestados tios e primo se tornou ameaçadora. Na cena
que abre o filme, enquanto ele enfrenta o perigo bem bretão
de um grupo de valentões, uma tempestade se forma,
trazendo em seu interior um outro terror, este mágico
os Dementores, espectros que sugam a alma de suas vítimas.
É um começo cheio de atmosfera. Mas A Ordem
da Fênix não tarda a revelar que, em que
pesem os esforços de sua equipe criativa, o crescimento
da série enfrenta barreiras muito claras.
O beijo com Cho: entre o mal
e os hormônios
A mais desafiadora
delas é que Harry Potter já há
tempo entrou no território do culto, e seu público
cativo tolera uma dose não mais do que moderada de
transgressão. Em nenhum momento, também, se
achou solução mais eficiente para os novos papéis
que surgem a cada capítulo do que preenchê-los
com nomes tirados do quem-é-quem das artes dramáticas
britânicas. Imelda Staunton e Helena Bonham Carter são
os acréscimos da vez, juntando-se aos veneráveis
Michael Gambon, Maggie Smith, Gary Oldman, Emma Thompson,
David Thewlis etc. E, como eles, estão ali acima de
tudo para desviar a atenção das deficiências
dos atores mais jovens. Recrutar crianças na esperança
de que elas mantenham sua promessa de carisma e talento ao
se tornarem adolescentes foi sempre tomado como um risco necessário
à franquia. Mas, à exceção de
Daniel Radcliffe, que há pouco encerrou uma bem-sucedida
temporada de Equus no teatro londrino (muito comentada,
também, por ele ficar nu no palco) e que vem melhorando
à custa de esforço visível, nenhuma das
promessas se cumpriu. De onde se volta à questão
inicial, a da liberdade muito restrita de que a série
usufrui. Fosse sua matéria-prima menos sacrossanta
para os fãs, ela poderia sofrer as transformações
mais profundas pelas quais está implorando e crescer
para além de todas essas barreiras. Essa é a
possibilidade com que o início de A Ordem da Fênix
acena. Harry, porém, pertence a um clube. E este, ao
que parece, é quem dita que tamanho ele deve ter.
"QUANTO MAIS
DIFÍCIL, MELHOR"
Radcliffe: com raiva em
A Ordem da Fênix e sem roupa em Equus
COM
A ORDEM DA FÊNIX, A SÉRIE FICOU MAIS
PESSIMISTA DO QUE NUNCA. VOCÊ ACHA QUE O PÚBLICO
DE HARRY POTTER ESTÁ ACOMPANHANDO ESSA MUDANÇA?
As reações que colhemos até agora
têm sido muito positivas. Os fãs de Harry,
na verdade, também estão crescendo e mudando
como o personagem.
NESSE FILME
HARRY ESTÁ SEMPRE ANGUSTIADO OU COM MUITA, MUITA
RAIVA. VOCÊ, NO ENTANTO, NÃO PARECE UM
RAPAZ PARTICULARMENTE RAIVOSO. Quanto mais difícil
o trabalho, mais interessante ele fica. E, como todo
mundo, tenho um lado irascível ou sombrio. A
novidade, para mim, foi investir de forma tão
sistemática nesse aspecto. Mas encontrei um método:
ouvir música pesada antes de fazer minhas cenas.
Ouvi muito Radiohead durante a filmagem.
VOCÊ
É FÃ DE RADIOHEAD? Fã de carteirinha.
No ano passado, fui a um show bárbaro deles em
Londres.
COMO É
O ASSÉDIO QUANDO VOCÊ VAI A LUGARES LOTADOS
ASSIM? A vantagem de ir a um show é que as
pessoas estão tão concentradas na banda
que não prestam muita atenção em
quem está do lado delas. Mas, claro, o assédio
rola mesmo, e, no que toca aos paparazzi, piora quanto
mais velho eu fico. Porém, não creio que
ele tenha um tom negativo. As pessoas gostam do personagem
e têm curiosidade pelo ator que o interpreta.
É só isso.
QUE TAL
FOI FICAR NU NO PALCO EM EQUUS? Ficar cara
a cara com uma platéia de 1 000 pessoas é
em si tão apavorante que, quando chega a hora
de tirar a roupa, não sobrou mais muito medo.
Além do quê, a essa altura você já
está dentro do personagem e nem liga mais para
isso.
O QUE
A TEMPORADA NO TEATRO ACRESCENTOU À SUA INTERPRETAÇÃO
DE HARRY POTTER? Quando Equus estreou, eu
já havia filmado A Ordem da Fênix, no
qual exercitei emoções com as quais nunca
tinha trabalhado tão a fundo antes como
a raiva. Depois de passar quatro meses convivendo todas
as noites com um personagem tão atormentado quanto
o de Equus, vou chegar ao sexto filme de Harry
Potter mais preparado e ansioso ainda para continuar
essa jornada sombria dele.
VOCÊ
ESTÁ COM 17 ANOS. QUAL É O SEU PLANO:
INTERROMPER A CARREIRA PARA IR PARA A FACULDADE OU CONTINUAR
ATUANDO? Uma faculdade definitivamente não
está nos meus planos agora. Equus me ajudou
a superar aquela imagem de "o menino que faz Harry Potter"
não que eu não goste dessa imagem,
entenda e, bem, espero que me traga oportunidades
de outros trabalhos diferentes. Quando comecei a série,
tinha 11 anos, e tudo parecia uma brincadeira. Mas,
desde o terceiro filme, descobri que, sem dúvida,
o que eu quero na vida é ser ator.