Nos
últimos dez anos, o golfe brasileiro vive seus melhores
momentos. O número de participantes multiplicou-se
por quatro e foram abertos 55 campos. Só falta um elemento
para popularizar o esporte: um golfista para ser ídolo
nacional. Por falta de opção, atletas de outras
modalidades, como o atacante Ronaldo Fenômeno e o piloto
Rubinho Barrichello, foram contratados para divulgar o golfe.
Agora, as esperanças transferiram-se para a paranaense
Angela Park, 18 anos, estreante na liga profissional de golfe
dos Estados Unidos. Ela conquistou na semana passada o segundo
lugar no US Women's Open, o mais importante torneio do mundo
a disputa está para o golfe feminino como Roland
Garros está para o tênis. Foi a quarta competição
profissional em que Angela terminou entre as dez melhores
neste ano. Nunca um golfista brasileiro, homem ou mulher,
chegou tão longe. Ela foi apelidada pelos comentaristas
americanos de golden girl (garota de ouro, em inglês),
pela rapidez com que se destacou em um campeonato disputado
por nada menos que 150 atletas.
"Para ser perfeito,
só faltava Angela ter um sobrenome bem brasileiro,
como Silva", diz Álvaro Almeida, presidente da Confederação
Brasileira de Golfe. Seria uma justificativa a mais para chamar
a golfista de "nossa". A identidade nacional da golfista está
dividida em três: brasileira, coreana e americana. Filha
de coreanos que imigraram para o Brasil na década de
80 e nascida em Foz do Iguaçu, ela vive nos Estados
Unidos desde os 8 anos de idade. O que Angela tem de mais
brasileiro, segundo sua própria definição,
são o passaporte e o gosto por churrascarias rodízio.
Nos dez anos em que vive nos Estados Unidos, voltou ao Brasil
apenas três vezes. A distância não a impede
de exibir patriotismo verde-amarelo, com uma pitada de paradoxo.
"Ser capaz de representar um país grande como este
tem sido uma experiência emocionante", diz ela em inglês,
o idioma que prefere para dar entrevistas. Angela e seus três
irmãos mudaram-se para os Estados Unidos porque o pai
decidiu montar uma fábrica de bordados na Califórnia,
similar à que a família tem até hoje
no bairro do Brás, em São Paulo. A empresa paulistana,
Paspal Confecções e Bordados Ltda., é
administrada pela mãe, que viaja constantemente para
os Estados Unidos para assistir aos principais torneios da
filha.
Foi
nos Estados Unidos que Angela deu suas primeiras tacadas.
Pouco depois de a família se mudar para lá,
a mãe matriculou os filhos maiores em uma escola de
golfe. Angela, então com 9 anos, também começou
a ter aulas, para não ficar sozinha em casa. A menina
evoluiu rapidamente. Após completar o 2º grau
no ano passado, ela decidiu dedicar-se primeiro ao golfe profissional
e só no futuro pensar em uma universidade. Financeiramente,
a opção já compensou. Só neste
ano, em sua estréia no circuito profissional, Angela
já ganhou em prêmios mais de meio milhão
de dólares. Se continuar tendo bons resultados, a possibilidade
de ela fazer fortuna no esporte é grande. A mexicana
Lorena Ochoa, a primeira do ranking mundial, faturou quase
8 milhões de dólares nos últimos cinco
anos. A havaiana Michelle Wie, de 17 anos, descendente de
coreanos como Angela, nem sequer participa oficialmente do
circuito profissional e já acumulou 10 milhões
de dólares jogando como convidada em torneios femininos
e masculinos.
Para ficar mais
perto dos locais onde ocorrem os torneios da liga americana,
Angela mudou-se para Orlando, na Flórida. As competições,
que geralmente acabam no domingo, atrapalharam suas idas à
missa na Igreja Presbiteriana. Ela costuma rezar com discrição
antes de jogar e posa para fotos com um crucifixo no pescoço.
Sua postura determinada recebe elogios até das adversárias.
Angela liderou o torneio da semana passada, disputado na Carolina
do Norte, nos três primeiros dias. Só perdeu
a liderança no quarto e último dia. Em toda
a competição, ela deu 281 tacadas, apenas duas
a mais do que a campeã. (No golfe, o objetivo de cada
partida é conseguir acertar as bolinhas em dezoito
buracos com o menor número de tacadas possível.)
A principal qualidade de Angela é o swing, o movimento
que o corpo faz antes de o taco acertar a bola. "Ela tem um
swing perfeito, sem defeitos, e uma concentração
enorme, parecida com a do campeão americano Tiger Woods",
diz Ricardo Melo, professor do Centro Paulista de Golfe e
comentarista do canal ESPN. O ponto fraco de Angela é
a altura, 1,65 metro, abaixo do ideal para uma golfista. Devido
a essa característica da atleta, o taco desenha um
círculo curto no ar e acerta a bola com pouca velocidade.
Isso faz com que Angela não seja tão boa nas
tacadas longas. Ela compensa a deficiência com uma precisão
acima da média quando se trata de acertar um buraco
a menos de 90 metros de distância. "Com o tempo e mais
treino, certamente ela vai melhorar suas tacadas longas",
prevê Melo.