Não transcorreram
doze horas do lançamento do iPhone para que começasse
a circular no boca-a-boca e nas resenhas preparadas por especialistas
uma lista de seus defeitos (veja
o quadro). O telefone celular mais aguardado dos últimos
tempos, nova estrela da Apple, a fabricante do iPod, provou-se
um aparelho limitado. Como prometido, ele acumula as funções
de tocador de MP3, navegador de internet e seu design é
muito atraente. Mas, comparando item por item, há aparelhos
de concorrentes com mais recursos e melhores soluções.
Apesar de suas limitações, o iPhone está
longe de ser um fracasso. Nos primeiros dias após o
lançamento do aparelho nos Estados Unidos, há
uma semana, formaram-se filas nas portas das lojas para comprá-lo.
Estima-se que, até a sexta-feira passada, tenha sido
vendido 1 milhão de celulares iPhone. Em se tratando
de um aparelho que não cumpre o que promete, tamanho
sucesso só encontra explicação num fenômeno:
a avidez com que cada vez mais pessoas consomem as novidades
do mundo eletrônico. Para um número crescente
de consumidores, não basta ter um aparelho que atenda
às necessidades pessoais, seja ele celular, máquina
fotográfica, tocador de MP3 ou computador. É
preciso ter o aparelho mais novo e mais moderno, mesmo que
não se usem muitos de seus recursos.
Essa busca insaciável
pelas novidades eletrônicas se deve, em parte, à
velocidade impressionante com que produtos inovadores surgem
no mercado e são alardeados pela publicidade. Mais
importante que isso, contudo, é que os aparelhos eletrônicos
pessoais, principalmente os celulares, deixaram de pertencer
apenas à categoria das ferramentas utilitárias.
Exibi-los tornou-se uma forma de expressão pessoal,
como no caso das roupas. Disse a VEJA Ravi Dhar, professor
de administração e marketing do Centro de Estudos
de Consumo da Universidade Yale: "Na última década,
a tecnologia assumiu características antes só
vistas na indústria da moda. As pessoas querem ser
as primeiras a ter um iPhone, assim como desejam ter o último
modelo da bolsa Prada. A funcionalidade é menos importante
do que mostrar ao mundo que você tem determinado produto".
Um bom exemplo de como os aparelhos eletrônicos se tornaram
objeto de expressão pessoal são os toques de
celular, os ringtones. Cada um seleciona o seu ringtone de
acordo com a própria personalidade ou estado de espírito
na ocasião. A consultoria americana Gartner estima
que o mercado de ringtones no mundo movimentará 7 bilhões
de dólares neste ano.
Fotos Mark Lennihan/AP,
M. Spencer Green/AP e divulgação
Fila para comprar o iPhone em
loja da Apple, em Nova York: a funcionalidade é o que
menos importa. À direita, os novos modelos da Prada,
da BlackBerry e da Nokia
O impulso de substituir
produtos antigos pelas novidades do mercado não se
restringe aos aparelhos eletrônicos pessoais. Em todo
o mundo, os consumidores trocam de eletrodomésticos
e de automóveis em intervalos mais curtos do que no
passado, mesmo que as máquinas em uso estejam funcionando
bem. Segundo escreve o historiador canadense Giles Slade em
seu livro Made to Break (Feito para Quebrar), isso
ocorre porque a publicidade e as modernas técnicas
de marketing tentam convencer o consumidor não apenas
de que há um novo produto atraente no mercado, mas
também de que o produto que ele tem em casa está
obsoleto. Diz Slade: "O objetivo é estimular a insatisfação
do consumidor com o que ele possui. No caso dos aparelhos
eletrônicos pessoais, essa estratégia é
hoje levada a extremos para que eles pareçam produtos
descartáveis". O empresário esportivo paulista
Daniel Dip, de 26 anos, é um exemplo de consumidor
para quem os aparelhos eletrônicos são bens descartáveis.
Ele não consegue ficar com o mesmo telefone celular
por mais de oito meses. Nos últimos anos, comprou todas
as grandes novidades na área: BlackBerry, Treo 650
e Motorola V3 e as repassou aos amigos depois de usá-las
durante um tempo. Daniel acaba de encomendar um iPhone a um
amigo que mora nos Estados Unidos. O aparelho será
habilitado numa conta da AT&T que ele já possui
no exterior. "Depois de um certo tempo, a novidade cansa.
Provavelmente, o mesmo vai acontecer com meu iPhone", ele
diz.
Algumas
das limitações do iPhone chegam a torná-lo
anacrônico dentro do universo atual dos aparelhos eletrônicos.
A obrigatoriedade de firmar contrato de dois anos com a operadora
de telefonia AT&T, por exemplo, equivale a comprar um
computador que só aceita um tipo de provedor de internet.
É ainda a Apple que define quais softwares podem ser
usados no iPhone. Atualmente, as principais responsáveis
pelos avanços no mundo digital são as plataformas
abertas, que aceitam a colaboração de diversos
programadores. A tendência no mundo é de abertura
e compartilhamento de soluções. Quem se opõe
a essa lógica está sujeito à ação
dos Robin Hood virtuais, especialistas em decodificar os segredos
e as restrições de uso dos aparelhos eletrônicos.
Para as indústrias, esses programadores são
hackers a combater. Para os consumidores, eles se tornam aliados
no combate às limitações no uso dos aparelhos.
O mais famoso deles, o norueguês Jon Lech Johansen,
conhecido como DVD Jon, entrou em ação na semana
passada e conseguiu criar um código que permite ativar
o iPhone sem usar o sistema de certificação
criado pela Apple e pela AT&T. Por enquanto, o código
só habilita as funções de tocador de
música e de acesso à internet do iPhone. Pode-se
apostar que em poucas semanas alguém inventará
um código para desbloquear o iPhone por completo e
fazer com que ele possa ser usado com outras operadoras e
até mesmo fora dos Estados Unidos. No caso de Jon Lech
Johansen, credenciais não lhe faltam: em 1999, com
apenas 15 anos, ele quebrou o sistema de proteção
que impedia cópias de DVDs (daí o seu apelido).
O
iPhone parece destinado a uma carreira bem mais modesta que
a do iPod, um fenômeno que conquistou 80% do mercado
americano de tocadores de MP3 e vendeu mais de 110 milhões
de unidades no mundo desde 2001. O iPod revolucionou a maneira
de ouvir música e entrou num mercado fragmentado, onde
nenhuma grande indústria dominava o segmento. Agora,
a história é diferente: o iPhone penetrou numa
arena onde estão empresas muito maiores que a Apple
e que dividem o setor há mais de uma década
com marcas como Palm, BlackBerry, Nokia, Motorola, Samsung
e LG. Essas companhias produzem aparelhos cada vez mais completos
e diversificados para conquistar a atenção dos
3 bilhões de pessoas metade da população
mundial que hoje têm celular. Na semana passada,
a LG lançou no Brasil um telefone com design da grife
Prada, cujo acesso aos recursos, como o iPhone, é feito
por toques na tela. Ao contrário do aparelho da Apple,
ele produz pequenos vídeos e aceita cartões
de memória, entre outras funcionalidades. A Nokia lançou
nos Estados Unidos um smart phone, o modelo N76, vendido a
499 dólares o mesmo preço do iPhone mais
simples , mas que pode ser usado com qualquer operadora.
Já o BlackBerry 8830, lançado há duas
semanas no Canadá, exige contratos de três anos
com a Bell Mobility, mas sai por 299,95 dólares e conta
com GPS e discagem por voz. Nos Estados Unidos, o aparelho
pode ser usado em convênio com quatro companhias. Embora
com uma história de pioneirismo no mundo dos aparelhos
eletrônicos, Steve Jobs, o dono da Apple, desta vez
terá de suar um pouco mais a camisa para fazer do iPhone
um ícone de mercado. Será preciso aperfeiçoar
o aparelho e livrá-lo de suas amarras operacionais.
Só assim as multidões de consumidores ávidos
por trocar de celular em curto espaço de tempo continuarão
a fazer fila por seu produto.
Com
reportagem de
Gabriela Carelli e Leoleli Camargo