Na academia de ginástica,
o professor recomenda um suplemento à base de cafeína
e chá verde para acelerar o metabolismo. Na porta da
geladeira da moça que faz regime está pregado
um plano alimentar para maximizar o gasto metabólico.
Na conversa de cabeleireiro, mulheres na faixa dos 40 anos
culpam a queda no ritmo do metabolismo pelo fracasso da dieta.
O atleta faz um treinamento intenso para aumentar a taxa metabólica
e ganhar mais energia para continuar treinando. A melhor maneira
de aumentar o metabolismo tornou-se assunto das conversas
de quem se preocupa com a forma física. Há uma
centena de produtos alardeados como "aceleradores do metabolismo".
São cápsulas e comprimidos embalados sob rótulos
como Ripped Fuel, Maximum Metabolism, Slim Seduction, Thermoloid
e por aí vai. As livrarias exibem títulos como
Ultrametabolismo: o Plano Simples para Perda de Peso Automática,
que por várias semanas figurou na lista dos mais vendidos
do jornal americano The New York Times. Mas, afinal,
o que é exatamente o metabolismo e qual a possibilidade
real de alterar seu ritmo?
Fabiano Accorsi
GRAZIELLA FARINAZO
20 anos, recepcionista PESO 47,2 quilos ALTURA 1,64 metro COMPOSIÇÃO CORPORAL 17,3%
de gordura ROTINA DE EXERCICIOS Sedentária TAXA DE METABOLISMO BASAL 1 656 calorias COMENTÁRIO Graziella é sedentária,
mas sua taxa metabólica basal é alta,
mesmo se comparada com a de alguém fisicamente
ativo. Privilegiada pela genética, a moça
não dispensa doces nem carnes suculentas, daquelas
de churrascaria rodízio
Essas perguntas
têm respostas simples e claras. Comecemos pela segunda,
a maior parte dos produtos e planos alimentares não
passa de lançamentos oportunistas, sem nenhum resultado
prático. Mas nem tudo está perdido. A boa notícia
é que a ciência dispõe de ferramentas
para medir e classificar o metabolismo humano como nunca teve
no passado. Os especialistas podem hoje indicar como cada
tipo de organismo queima calorias e ainda prescrever exercícios,
dietas e remédios individualizados de modo que, em
vez de estocar energia, as pessoas possam usá-la com
mais eficiência.
A resposta à
primeira pergunta: metabolismo é toda e qualquer reação
química que gaste energia para produzir ou modificar
moléculas. Neste exato momento, há uma centena
de processos metabólicos em curso no seu organismo.
Existem, por exemplo, uma reação química
específica para a absorção de cálcio
pelos ossos, uma para a multiplicação celular
e outra que permite a você ler esta reportagem. Há
cerca de quatro séculos viveu em Pádua um professor
de fisiologia humana chamado simplesmente Sanctorius. Ele
foi o decano dos estudos do metabolismo humano ao tentar desvendar
o que parecia um mistério aos sábios do indagativo
e empírico século XVII: a diferença que
havia quando eles comparavam o peso de tudo que um ser humano
adulto comia e bebia com tudo que ele excretava em determinado
período. Sempre saía menos, muito menos, do
que entrava pela boca. Sanctorius saiu-se com a conclusão
de que a transpiração talvez explicasse a diferença.
Ele deixou como legado a idéia de que outras reações
químicas "não detectáveis" do organismo
deveriam também ajudar a explicar a diferença.
Nesse processo inventou o primeiro termômetro clínico
e um rudimentar medidor de pulsações cardíacas.
TALITA GONÇALVES
21 anos, estudante de nutrição PESO 67,9 quilos ALTURA 1,60 metro COMPOSIÇÃO CORPORAL 34,6%
de gordura ROTINA DE EXERCÍCIOS Leve TAXA DE METABOLISMO BASAL 1 454 calorias COMENTÁRIO Talita está no
extremo oposto de Graziella. Mesmo submetendo-se a dietas
rigorosas, nunca conseguiu atingir seu peso ideal. Com
um metabolismo lento, a prática de exercícios
físicos intensos poderia ajudá-la a acelerar
seu metabolismo basal em até 30%
Lailson Santos
Nos séculos
seguintes, os cientistas viriam a compreender que o metabolismo
não é uma questão relacionada apenas
à perda de peso. Hoje os estudos do metabolismo são
essenciais para o desenvolvimento do tratamento de um grande
número de enfermidades. Alguns distúrbios têm
origem em defeitos no processo metabólico. São
doenças provenientes de erros genéticos raros
e que atingem 1% da população. Entre elas está
a fenilcetonúria, a carência de uma enzima para
digerir um aminoácido presente no adoçante sintético
aspartame e que pode lesionar o cérebro. O hipo e o
hipertireoidismo, descompassos da glândula tireóide,
afetam diretamente o ritmo do metabolismo. O terceiro grupo,
mais numeroso, é o das doenças que desregulam
diretamente o metabolismo e são agravadas por essas
mesmas alterações metabólicas, em um
ciclo perverso. Entre elas estão alguns dos distúrbios
mais prevalentes nos dias atuais, o diabetes tipo 2, o excesso
de colesterol e triglicérides e a obesidade abdominal.
Lailson Santos
ANUAR TACACH
33 anos, empresário PESO 69,4 quilos ALTURA 1,71 metro COMPOSIÇÃO CORPORAL 15,3%
de gordura ROTINA DE EXERCÍCIOS Intensa TAXA DE METABOLISMO BASAL 1 440 calorias COMENTÁRIO Mesmo sob um ritmo intenso
de treinamento físico e dieta alimentar regrada,
a taxa metabólica basal de Tacach é baixa.
Isso permite dizer que, se ele não praticasse exercícios,
seu gasto calórico semanal cairia em 5000 calorias
pelo menos e a probabilidade de engordar aumentaria
muito
Para as pessoas
sadias o metabolismo que realmente importa é aquele
que pode interferir na silhueta, o chamado metabolismo energético.
É ele que coordena a matemática das calorias
que entram, que saem e quanto é estocado sob a forma
de tecido adiposo. A eficácia com que o organismo gasta
energia varia de uma pessoa para outra. Numa sala com 100
pessoas, provavelmente haverá 100 diferentes taxas
de metabolismo. Os genes respondem por até 50% do ritmo
metabólico de cada um. Está na genética
do metabolismo a explicação para o fato de a
estudante de nutrição Talita Gonçalves,
de 21 anos, brigar desde menina com a balança
apesar de muito frango grelhado e salada. Com 1,60 metro,
ela pesa hoje 67,9 quilos. Já a recepcionista Graziella
Farinazo, de 20 anos, é do tipo que come de tudo, não
faz atividade física e não há nada que
a faça engordar. Mede 1,64 metro e pesa 47,2 quilos.
Diante de uma silhueta dessas, concebida sem nenhum esforço,
é inevitável que os amigos brinquem que ela
"é magra de ruim". A resposta para casos tão
diferentes está no ritmo metabólico. O de Talita
é 12% menor, embora ela tenha praticamente a mesma
idade e a mesma altura de Graziella. Parece pouco, mas não
quando isso significa caminho livre para consumir bolachas,
chocolates ou se dar ao luxo de não fazer ginástica.
Isso, é claro, deixando de lado (pelo menos um pouquinho)
a preocupação com a saúde. A pedido de
VEJA, o cardiologista e nutrólogo Daniel Magnoni, do
Instituto Dante Pazzanese, de São Paulo, e as nutricionistas
Michele Trindade e Fernanda Amparo mediram a taxa metabólica
basal das pessoas que se dispuseram a ser fotografadas para
esta reportagem.
Ainda que o peso
da genética sobre o metabolismo seja grande, não
se pode desprezar o impacto do estilo de vida sobre o metabolismo.
Os bons hábitos podem acelerar o ritmo metabólico.
Os maus, diminuí-lo. Entre as alternativas mais efetivas
para aumentar o metabolismo, está o treino para ganho
de massa muscular (veja
o quadro). Quanto mais músculos, maior será
a taxa metabólica. A explicação é
que o tecido muscular gasta mais energia para funcionar do
que o tecido adiposo. Meio quilo de músculo queima
35 calorias por dia, enquanto para a mesma quantidade de gordura
o gasto é de somente 2 calorias diárias.
Fabiano Accorsi
ANDRÉ
GILDIN 33 anos, gerente de marketing PESO 78,1 quilos ALTURA 1,81 metro COMPOSIÇÃO CORPORAL 14,1% de
gordura ROTINA DE EXERCÍCIOS Sedentário TAXA DE METABOLISMO BASAL 1 714 calorias COMENTÁRIO André não
faz dieta nem esportes e está um pouco acima do
peso. A taxa de metabolismo basal que registra é
compatível com a média correspondente à
sua faixa etária, a seu peso e à sua altura.
Ou seja, se ele praticasse exercícios e seguisse
um cardápio saudável, perderia peso e ganharia
músculos sem muita dificuldade
Do ponto de vista
do acerto da máquina metabólica, o treinamento
aeróbico complementa admiravelmente a construção
de massa muscular. Mesmo as atividades moderadas, como uma
caminhada, mantêm o metabolismo acelerado por até
uma hora depois de seu término. Para quem pratica exercícios
mais vigorosos, no período pós-exercício
o metabolismo pode se manter acelerado por até oito
horas. Por isso, algumas pessoas acreditam que não
comer após o exercício é a melhor receita
para se livrar do excesso de tecido adiposo, já que,
nesse período, a queima calórica aumenta. "Essa,
porém, não é a estratégia mais
inteligente para manter o metabolismo elevado por mais tempo",
diz a nutricionista Michele Trindade. "O ideal é consumir
produtos ricos em proteínas e carboidratos." Desse
modo, garante-se o suprimento de nutrientes necessários
para a regeneração dos músculos, que
acontece depois da prática de exercício físico.
SABRINA PARLATORE
32 anos, apresentadora PESO 58 quilos ALTURA 1,68 metro COMPOSIÇÃO CORPORAL 22,1%
de gordura ROTINA DE EXERCÍCIOS Moderada TAXA DE METABOLISMO BASAL 1 267 calorias COMENTÁRIO Sabrina sempre esteve
dentro do peso desejado. Sua taxa metabólica basal
é compatível com o cálculo médio
para pessoas fisicamente ativas, com essa faixa etária
e altura. Seu estilo de vida tem um impacto maior que
o da genética sobre a manutenção
do peso
Fabiano Accorsi
Os hábitos
alimentares também têm um papel na determinação
da velocidade do metabolismo. Certos alimentos entorpecem
a máquina. Outros lhe aceleram o ritmo. O açúcar
refinado aciona no organismo um botão que poderia levar
o rótulo de "estocar gordura". Ele fornece energia
a um ritmo mais rápido do que ela pode ser queimada.
Como resultado, acaba sendo estocado na forma de gordura.
Muitos endocrinologistas recomendam os alimentos cuja absorção
de nutrientes se faça de forma mais lenta e
que, no processo, exijam do organismo um maior esforço
metabólico. A digestão de proteínas requer,
em média, 25% mais energia do que a dos demais nutrientes.
"Para absorver proteínas, como carnes e leite, o corpo
gasta mais energia do que precisa para lidar com os carboidratos
e com as gorduras", diz o endocrinologista Alfredo Halpern,
professor da Universidade de São Paulo.
Fabiano Accorsi
CAROLINA DIZIOLI
29 anos, farmacêutica PESO 58 quilos ALTURA 1,65 metro COMPOSIÇÃO CORPORAL 22,2%
de gordura ROTINA DE EXERCÍCIOS Moderada TAXA DE METABOLISMO BASAL 1 354 calorias COMENTÁRIO Durante muitos anos,
Carolina pesou, no mínimo, 10 quilos a mais que
seu peso ideal. Ao fazer uma dieta e emagrecer, ela
teve sua taxa metabólica desacelerada. Como introduziu
uma rotina de exercícios às suas atividades
diárias, conseguiu estabelecer um ritmo razoável
de queima calórica
Embora tenha evoluído
muito desde as toscas experimentações de Sanctorius,
a ciência do metabolismo ainda é comparada pelos
médicos à climatologia. Com isso, eles querem
dizer que nesse campo de estudo médico, como nos estudos
do clima, prevalecem ainda manchas de incerteza. Um exemplo:
ao comparar o metabolismo de um magro com o de um gordo, provavelmente
o gordo registrará um consumo energético maior,
em valores absolutos. Isso se deve apenas ao fato de o gordo
ser uma "máquina humana" maior do que o corpo de um
magro? Sim. Isso explica também por que é mais
fácil perder peso no início de uma dieta, mas
muito ainda carece de explicações cabais nesse
processo. "Quando se está acima do peso, o metabolismo
está tão alto que qualquer redução
em calorias resulta em perda de peso imediata", explica o
endocrinologista Geraldo Medeiros, professor da Universidade
de São Paulo.
Com o envelhecimento,
o ritmo metabólico tende a diminuir. Mas não
se pode culpar exclusivamente o avançar da idade pelo
aumento de peso decorrente dessa queda. "Há que levar
em conta que, conforme as pessoas envelhecem, elas tendem
a diminuir o ritmo da atividade física", diz o médico
Daniel Magnoni. Por isso, vários especialistas insistem
que, com o passar dos anos, é fundamental manter elevado
o nível de exercícios físicos e reduzir
o consumo de alimentos em cerca de 100 calorias por década.
Tais medidas devem ser adotadas a partir dos 30 anos. A recompensa
está na manutenção do mesmo peso da juventude.
MIGUEL MITNE NETO
25 anos, biólogo e triatleta PESO 67,6 quilos ALTURA 1,78 metro COMPOSIÇÃO CORPORAL 10,5%
de gordura ROTINA DE EXERCÍCIOS Intensa TAXA DE METABOLISMO BASAL 2 016 calorias COMENTÁRIO Miguel treina firme de
uma a três horas por dia. Seu metabolismo é
aceleradíssimo. Compatível, portanto, com
o de atletas como ele. Uma das razões principais
para essa performance é a quantidade de músculos
em seu corpo o equivalente a quase 90% de seu peso
total
Lailson Santos
Enquanto a ciência
não oferece a saída dos sonhos "coma
de tudo e emagreça" , o que resta é seguir
a constatação dos estudos disponíveis
já consagrados. Eles mostram que refeições
menores, a cada três ou quatro horas, aceleram o metabolismo
e facilitam a perda de peso. "O café-da-manhã
é um dos principais ativadores do metabolismo. É
um erro pular essa refeição", diz o especialista
em metabolismo Roberto Carlos Burini, da Universidade Estadual
Paulista. Não se pode privar o organismo de alimentos
por longos períodos. O problema de ficar muitas horas
sem comer é que se parte vorazmente para a próxima
refeição e come-se tão rápido
que a informação de que já se está
satisfeito demora a chegar ao cérebro. O resultado
é que mais gordura será estocada, principalmente
nos quadris, no caso delas, e na barriga, no caso deles. Ou
seja, um metabolismo suficientemente acelerado e eficiente
não pode ser conseguido apenas pela ingestão
de pílulas milagrosas. Conhecer as complexidades do
processo metabólico é um grande primeiro passo.
Fabiano Accorsi
GUSTAVO BORGES 34
anos, ex-nadador PESO 97,5 quilos ALTURA 2,02 metros COMPOSIÇÃO CORPORAL 14,5%
de gordura ROTINA DE EXERCÍCIOS Intensa TAXA DE METABOLISMO BASAL 2 277 calorias COMENTÁRIO Gustavo foi atleta profissional
até os 32 anos. Ao se aposentar das competições,
porém, continuou praticando exercícios
todos os dias. Dessa forma, ele preserva sua musculatura
e evita um dos males comuns entre ex-atletas: a queda
drástica no gasto calórico e o ganho de
peso decorrente dessa redução