O ministro da Defesa
do Japão renuncia depois de dizer que os ataques atômicos
a Hiroshima e Nagasaki foram inevitáveis
Duda Teixeira
Koji
Sasahara/AP
Kyuma pede desculpas: fora do
padrão
No
início do século passado, impulsionado por um
militarismo agressivo, o Japão lançou-se numa
ofensiva de conquistas na Ásia só encerrada
com a derrota para os Estados Unidos, em 1945. A brutalidade
do imperialismo nipônico ainda azeda as relações
do país com a China e a Coréia. Dentro do Japão,
contudo, o assunto é tabu. Ao contrário da Alemanha,
o Japão tende a negar seus crimes do passado. As bombas
atômicas que mataram mais de 200.000 civis nas cidades
de Hiroshima e Nagasaki no fim da II Guerra Mundial
um dos mais tristes episódios da história moderna
permitiram ao país cultuar uma visão
unilateral dos acontecimentos, a de que a hecatombe faz do
povo japonês uma vítima especial do conflito.
No início da semana passada, o ministro da Defesa,
Fumio Kyuma, fugiu ao padrão ao sustentar que as bombas
atômicas foram inevitáveis.
Em palestra numa
universidade, Kyuma disse que, se o ataque atômico não
tivesse ocorrido, a guerra teria se prolongado e permitido
à União Soviética ocupar metade do arquipélago
japonês. Não importa que tal visão seja
compartilhada por muitos historiadores. O ministro foi massacrado
pela oposição, por acadêmicos, jornalistas
e forçado a renunciar. Fiel à tradição
nipônica, ele terminou por curvar-se num pedido público
de desculpas. Talvez a única convicção
compartilhada pela direita e pela esquerda japonesa seja a
de que o Japão está marcado para sempre pelo
horror do ataque atômico. Após a derrota da Alemanha,
os Estados Unidos tiveram de decidir entre duas estratégias
para a guerra no Pacífico. A primeira seria um conflito
convencional. Pelas estimativas do Pentágono, levaria
à morte de 1 milhão de pessoas, sendo 200.000
soldados americanos, e prolongaria a guerra por um ano. O
presidente Harry Truman optou pelo uso da arma atômica,
recém-desenvolvida. A escolha de cidades com grandes
populações civis foi proposital, para ampliar
o efeito psicológico do ataque. O Japão rendeu-se
seis dias depois da bomba de Nagasaki.
Um ataque nuclear
é hoje visto como moralmente inaceitável em
qualquer situação. Isso não era tão
evidente nos anos 40. Mesmo os efeitos da radiatividade só
seriam plenamente conhecidos na década seguinte. Mais
tarde, a ameaça de destruição mútua
durante a Guerra Fria ajudou a produzir os tratados de não-proliferação
nuclear e, de forma torta, inibiu o uso de bombas atômicas.
Infelizmente, a cautela está agora ameaçada
pelos esforços de dois países párias,
o Irã e a Coréia do Norte, para entrar no clube
das armas nucleares. Deles só se pode esperar o pior.