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11 de julho de 2007
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Internacional
O japonês que amava a bomba

O ministro da Defesa do Japão renuncia depois de dizer que os ataques atômicos a Hiroshima e Nagasaki foram inevitáveis


Duda Teixeira

 
Koji Sasahara/AP
Kyuma pede desculpas: fora do padrão

No início do século passado, impulsionado por um militarismo agressivo, o Japão lançou-se numa ofensiva de conquistas na Ásia só encerrada com a derrota para os Estados Unidos, em 1945. A brutalidade do imperialismo nipônico ainda azeda as relações do país com a China e a Coréia. Dentro do Japão, contudo, o assunto é tabu. Ao contrário da Alemanha, o Japão tende a negar seus crimes do passado. As bombas atômicas que mataram mais de 200.000 civis nas cidades de Hiroshima e Nagasaki no fim da II Guerra Mundial – um dos mais tristes episódios da história moderna – permitiram ao país cultuar uma visão unilateral dos acontecimentos, a de que a hecatombe faz do povo japonês uma vítima especial do conflito. No início da semana passada, o ministro da Defesa, Fumio Kyuma, fugiu ao padrão ao sustentar que as bombas atômicas foram inevitáveis.

Em palestra numa universidade, Kyuma disse que, se o ataque atômico não tivesse ocorrido, a guerra teria se prolongado e permitido à União Soviética ocupar metade do arquipélago japonês. Não importa que tal visão seja compartilhada por muitos historiadores. O ministro foi massacrado pela oposição, por acadêmicos, jornalistas e forçado a renunciar. Fiel à tradição nipônica, ele terminou por curvar-se num pedido público de desculpas. Talvez a única convicção compartilhada pela direita e pela esquerda japonesa seja a de que o Japão está marcado para sempre pelo horror do ataque atômico. Após a derrota da Alemanha, os Estados Unidos tiveram de decidir entre duas estratégias para a guerra no Pacífico. A primeira seria um conflito convencional. Pelas estimativas do Pentágono, levaria à morte de 1 milhão de pessoas, sendo 200.000 soldados americanos, e prolongaria a guerra por um ano. O presidente Harry Truman optou pelo uso da arma atômica, recém-desenvolvida. A escolha de cidades com grandes populações civis foi proposital, para ampliar o efeito psicológico do ataque. O Japão rendeu-se seis dias depois da bomba de Nagasaki.

Um ataque nuclear é hoje visto como moralmente inaceitável em qualquer situação. Isso não era tão evidente nos anos 40. Mesmo os efeitos da radiatividade só seriam plenamente conhecidos na década seguinte. Mais tarde, a ameaça de destruição mútua durante a Guerra Fria ajudou a produzir os tratados de não-proliferação nuclear e, de forma torta, inibiu o uso de bombas atômicas. Infelizmente, a cautela está agora ameaçada pelos esforços de dois países párias, o Irã e a Coréia do Norte, para entrar no clube das armas nucleares. Deles só se pode esperar o pior.

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