Cristina Kirchner
vai se candidatar a presidente.
O que virá? Mais do mesmo, mas com Botox
Vilma Gryzinski
AFP
Cristina, com o marido, na capa
da Newsweek latina: projeto de doze anos de poder
para essa "sociedade político-amorosa quase perfeita"
Dá para acreditar
que exista um político que, tendo a reeleição
garantida, abra mão voluntariamente do poder? Em benefício
da própria mulher? E não uma mulher-tampão,
daquelas que guardam o lugar do marido e seguem todas as suas
instruções, mas uma leoa de cabelos tão
fartos quanto as próprias idéias? O fato de
que exista um homem assim, e ainda por cima seja peronista
(o dogma número 1 do peronismo é jamais ceder
ou delegar 1 milímetro do poder conquistado), atesta
a força da aliança orgânica entre Néstor
Kirchner, o atual presidente da Argentina, e Cristina, sua
mulher e altamente provável substituta na Casa Rosada.
Desde que um então desconhecido Kirchner saiu da patagônica
província de Santa Cruz e foi eleito presidente numa
Argentina que agonizava na mais destruidora de todas as suas
crises, já se aventava a hipótese do projeto
K: ele cumpriria seus quatro anos, ela viria em seguida, ele
voltaria em 2011, completando um ciclo de doze anos no poder.
Impossível, inconcebível, absurdo. Perdeu-se
a conta de quantas vezes Cristina, que tem carreira própria
e é senadora pela província de Buenos Aires,
desmentiu que seria candidata a presidente. Enquanto isso,
o projeto K correu impávido. Na semana passada, um
porta-voz de Kirchner confirmou que Cristina será mesmo
candidata na eleição de outubro. Pelas pesquisas
atuais, terá entre 50% e 60% dos votos.
Exceto no caso
de uma catástrofe, portanto, Cristina Kirchner será
a próxima presidente da Argentina. Os kirchneristas
vivem espalhando que ela imprimirá um estilo menos
beligerante, mais aberto ao mundo e, imaginem só, até
mais simpático aos mercados. O fato é que o
governo Cristina será exatamente igual ao do marido,
com suas qualidades, enquanto os deuses da economia permitirem
o notável crescimento econômico de 9% ao ano,
e seus defeitos (viés estatizante, controle de preços,
déficit energético e inflação
que, mesmo quase tão maquiada quanto a senhora Kirchner,
ronda os 10%). Cristina e Kirchner formam uma aliança
política desde que se conheceram na Faculdade de Direito
da cidade de La Plata, nos tenebrosos anos 70, ambos militantes
da esquerda peronista. Ela, uma das meninas mais bonitas da
faculdade, uma morocha de longa cabeleira que usava
minissaia com botas e namorava um jogador de rúgbi
bonitão. Ele, uma versão mais jovem do que é
hoje nariz adunco, olhos esbugalhados, comportamento
mercurial. Militaram juntos, foram presos juntos e juntos
recuaram quando a Argentina caiu num de seus tantos vórtices
de autodestruição que acabaria levando às
trevas da ditadura militar. Foram para Santa Cruz, a terra
dele, relativamente menos convulsionada. Tornaram-se advogados
bem-sucedidos, ganharam dinheiro, investiram em imóveis
as 22 propriedades da família na província
são administradas pelo filho Máximo, de 30 anos;
Florencia, a menina de 16, mora com os pais em Buenos Aires.
Metodicamente, retomaram a vida política, dessa vez
de modo mais convencional: ele foi governador de Santa Cruz
três vezes; ela foi deputada, depois senadora. Inseparáveis,
apesar das brigas e discussões.
"São uma
sociedade político-amorosa quase perfeita", define
Olga Wornat, jornalista que escreveu uma biografia altamente
elogiosa de sua amiga Cristina. "Uma fêmea indomável,
inteligente, polêmica, transgressora e ambiciosa como
nenhuma outra desde Eva Perón", derrama-se ela, evocando
o inescapável mito. Cristina Elizabeth Fernández
("Tenho nome de rainha e gosto disso") nasceu em fevereiro
de 1953, sete meses depois que um câncer de útero
consumiu a imperatriz do populismo, mas até hoje não
existe uma única mulher que resvale o pé na
política argentina sem que inevitavelmente surjam as
comparações com ela com a outra senhora
Perón, Isabelita, a catastrófica substituta
post-mortem do general, ninguém quer ter a menor proximidade.
Cristina, claro, reza no altar de Evita ("a militante, não
a vestida de Dior"), mas destaca mais a identidade com Hillary
Clinton, numa prova de que, como boa argentina, tem a auto-estima
na estratosfera. É evidente que existem pontos em comum
as duas são advogadas, ambiciosas, formam power
couples com os maridos e querem ser presidente. Mas a
Argentina obviamente não é os Estados Unidos,
nem Néstor Kirchner é Bill Clinton. Nunca apareceu
uma Monica na vida do argentino e, se tivesse aparecido, é
possível que não estivesse por aí para
contar a história, dado o temperamento notoriamente
explosivo de Cristina. Briguenta, ela se arrepia toda se seu
aparato visual aparece mais do que a ação política.
E haja aparato. A cabeleira reforçada por apliques,
a maquiagem pesada, o arsenal de intervenções
estéticas, o chamativo figurino, o Rolex de ouro
tudo é perscrutado com lupa, para fúria de Cristina.
"Desde os 15 anos sempre me pintei como uma porta", desafia
ela. "Posso me arrumar, me vestir, ficar divina e nem por
isso ser menos eficiente em minha vocação: a
política". Se as tendências atuais seguirem o
rumo previsível, os argentinos terão quatro
anos para comparar o discurso com a prática
e também para verificar como se comporta uma nova vertente
da matriz peronista, que já gerou tendências
de extrema esquerda, de extrema direita, reformistas, populistas,
anarquistas e, com Cristina, inaugurará a era do peronismo
com Botox.