Ex-governador do
Distrito Federal renuncia para não ser cassado e põe
fim a um mandato irrelevante no Senado
Diego Escosteguy
Dida Sampaio/AE
O senador Roriz chega ao Senado
para se defender: a renúncia foi inevitável
A
renúncia do senador Joaquim Roriz, do PMDB do Distrito
Federal, anunciada na noite de quarta-feira, provocou um rosário
de explicações. Aliados de Roriz atribuíram
a renúncia ao abandono do partido do senador, que não
lhe teria prestado apoio suficiente dentro do Congresso Nacional.
Explicaram, ainda, que a defesa do senador não foi
analisada por seus colegas, que preferiram condená-lo
antecipadamente. Também disseram que Roriz queria pelo
menos mais vinte dias para se defender, mas também
lhe negaram esse prazo. O próprio senador, em sua carta
de renúncia, apontou algumas razões adicionais
para sua renúncia: o "furor" da imprensa e a postura
condenatória do corregedor do Senado, Romeu Tuma. Bem,
as explicações configuram a tradicional cortina
de fumaça, tentativa de encobrir a única explicação
possível a de que Roriz renunciou porque é
culpado das acusações que lhe foram feitas e
das quais não tem como se defender. Entre ser condenado
e acabar com o mandato cassado, o que o deixaria inelegível
até 2023, Roriz preferiu renunciar e preservar os direitos
políticos. É só por isso.
Ninguém
engoliu a explicação de que pegou um cheque
de 2,2 milhões de reais do empresário Nenê
Constantino, dono da Gol, ficou com 300.000 reais e devolveu
o restante. Ninguém, nem os senadores. Na semana passada,
ao ser confrontado com a reportagem de VEJA informando que
usou uma parte da dinheirama, 1,2 milhão de reais,
para comprar o voto de dois juízes do Tribunal Regional
Eleitoral de Brasília, Roriz, já perto do nocaute,
nem se deu ao trabalho de responder. Na noite de quarta-feira,
ele mandou a carta de renúncia ao Senado e não
apareceu por lá para lê-la um gesto inédito
na história da Casa. Na sua ausência, coube ao
senador Mão Santa, do PMDB do Piauí, fazer uma
leitura desesperadoramente silábica da carta, diante
da presença de apenas cinco senadores. Fim melancólico.
José Varella/CB
e Wilton Junior/AE
Luiz Estevão
(à esq.) e Argello, o suplente: Brasília
não acerta
As circunstâncias
da renúncia de Roriz representam um fiel retrato do
breve e irrelevante mandato do senador. Em cinco
meses de atuação parlamentar, Roriz pouco produziu
e muito custou. Apresentou somente três projetos. No
plenário, o assento de Roriz esteve sempre vazio. Das
65 votações deste ano, ele esteve ausente em
47. Nas raras vezes em que apareceu no plenário, pouco
disse. Subiu apenas doze vezes à tribuna, em geral
para discursar rapidamente sobre temas amenos, como a visita
ao Brasil do papa Bento XVI. Na única oportunidade
em que se dirigiu à tribuna para se explicar sobre
o cheque de 2,2 milhões de reais, só doze senadores
estavam em plenário. Ao renunciar, depois de 154 dias
de mandato, a aventura política de Roriz no Senado
custara cerca de 500.000 reais aos cofres públicos.
Deve custar ainda mais. Na semana passada, Roriz foi premiado
por seu apoio ao governo Lula com a indicação
de um afilhado político para uma poderosa vice-presidência
da Caixa Econômica Federal. O afilhado, não coincidentemente,
trabalhou por quatro anos no BRB, epicentro da roubalheira
no Distrito Federal, e responde a processo por desvio de recursos
públicos. O governo achou que o currículo era
bom.
A renúncia
de Roriz confirma o que parece ser um carma do eleitorado
de Brasília, o de escolher senadores enrolados. Dos
quatro que já renunciaram ao mandato para escapar da
cassação na história do Senado, Brasília
tem dois na lista: além de Roriz, o hoje governador
do DF, José Roberto Arruda, também renunciou
em 2001. Também é de Brasília o único
senador cassado pelos colegas o empresário Luiz
Estevão, em 2000. Seguindo a tradição
da cidade, o suplente de Roriz, o ex-deputado distrital Gim
Argello, promete assumir o mandato causando confusão.
Ele é acusado de grilagem de terras, entre outras falcatruas.
Pelo jeito, o Senado terá um substituto à altura
de Roriz.