O governador do Rio
diz que a guerra aos bandidos
não tem trégua e que, nas três últimas
décadas, o
estado foi liquidado por projetos políticos pessoais
Ronaldo França
Oscar Cabrals
"A ordem pública
não é
um 'papo careta', um
contraponto aos direitos
humanos. É civilidade"
No segundo turno
da campanha que o elegeu governador do Rio de Janeiro, Sérgio
Cabral, 44 anos, viveu momentos de tensão. Quando discursava
em uma favela, traficantes atiraram e a segurança teve
de entrar em ação para protegê-lo. Ao
assumir o governo, iniciou uma operação jamais
vista contra o tráfico de drogas e garante que vai
até o fim. "Não há nada que me desvie
desse caminho", diz. É a mais alta aposta de sua carreira
política, até agora. Com o estado sem capacidade
de investimento devido às sucessivas administrações
caóticas, com uma polícia corrupta e desorganizada,
a tarefa é difícil. No momento, ele se vê
às voltas com algo bem mais fácil: perder 10
quilos para compensar com folga os 6 que engordou nos primeiros
seis meses no cargo. Já iniciou um programa de exercícios
físicos e fechou a boca. Para a comida, fique claro.
Ao analisar o que levou o Rio à deterioração
dos serviços públicos e ao atual patamar de
violência, não economiza palavras sobre seus
antecessores, Leonel Brizola, Anthony Garotinho e Rosinha:
"O Rio esteve a serviço de projetos políticos
pessoais de âmbito nacional. Isso é danoso. Liquida
o estado".
Veja As
batalhas contra o tráfico, como esta em curso no Complexo
do Alemão, desgastam muito. Até onde o senhor
está disposto a chegar? Cabral Minha
orientação é sempre a busca da ação
mais eficiente possível e com menos danos à
população. A ação do Alemão
foi corretíssima do ponto de vista operacional. Mas
sei que no futuro poderá haver falhas em algum outro
confronto. A troca de tiros já é um dano, um
stress. O vital é evitar que vidas inocentes paguem
por esses enfrentamentos. Mas eu vou até o fim do meu
governo mantendo essas ações. Não há
nada que me desvie desse caminho. Posso garantir a você.
Veja Mas
quando a operação for feita na Zona Sul, a região
mais rica da cidade, o desgaste pode ser muito maior... Cabral O que
tem de ser feito será feito. A maioria da população
quer isso, apesar do stress que se pode prever. Vale a pena
a tensão. Quando se tem uma infecção
generalizada, é muito melhor dar um antibiótico
que vai resolver o problema, mesmo que tenha efeitos colaterais,
do que um remédio apenas para tirar a dor, porque este
certamente não vai resolver. Temos grupos de traficantes
na Zona Sul que alimentam o crime organizado da mesma maneira
que os grupos da Zona Norte. A ação será
rigorosamente a mesma. Teremos todas as precauções,
mas será exatamente igual. Meu objetivo é ver
a polícia circulando na favela tal como circula nas
áreas ricas da cidade. Ter os índices em padrões
civilizatórios.
Veja
O senhor está dizendo que pretende colocar o Rio
em um patamar de Primeiro Mundo na segurança pública? Cabral Estou. Primeiro
Mundo. Essa é a minha luta. É o meu compromisso
até o fim do governo.
Veja Mas
o que dizer aos que temem que a cidade se torne uma praça-de-guerra? Cabral O ex-primeiro-ministro
inglês Tony Blair já disse que a segurança
é a primeira das liberdades. A esquerda, durante muitos
anos, confundiu a gestão de segurança com violência
contra o cidadão. A segurança pública,
em muitos casos, exige ações enérgicas,
que são violentas. Elas têm uma imagem ruim,
mas são necessárias para a garantia da ordem
pública. A ordem pública não é
um papo careta, um contraponto aos direitos humanos. Pelo
contrário, é a garantia de civilidade. A manutenção
da ordem é fundamental para o direito de vir, para
o exercício da cidadania. Se houver abusos, arbitrariedades,
vamos investigar. Compreendo que as ONGs que se contrapõem
aos enfrentamentos estejam fazendo o trabalho delas. Isso
é do jogo democrático. Me mostrem os abusos
e vou punir. Mas a violência no Rio chegou a um nível
tal de permissividade, de intervenção no cotidiano
das pessoas, tornou-se tão bélica que leva a
isso. Uma situação como o ataque do PCC em São
Paulo foi completamente diferenciada dos padrões de
violência da cidade. Aqui, as pessoas se habituaram
a ver bandidos dando tiros nas ruas. Temos de descontaminar
o Rio. Não é normal e nós não
podemos nos acostumar com isso.
Veja O
senhor não identifica, em algumas dessas ONGs, um discurso
ideológico que será sempre contra o uso da força
em favelas? Cabral Elas não
me comovem.
Veja O
uso das Forças Armadas resolveria? Cabral Lamento muito
que elas não tenham vindo. O presidente Lula se entusiasmou
com a idéia. O ministro da Justiça aprovou,
o secretário nacional de Segurança Pública
aprovou e eles remeteram ao Ministério da Defesa. Ali,
o projeto adormeceu. Não sei se o ministro não
soube conduzir. Não vou fazer juízo de valor.
O fato é que a ajuda não veio. O que eu não
entendo é que o contribuinte que paga o salário
da PM e da Polícia Civil é o mesmo que paga
o salário da Marinha, do Exército e da Aeronáutica.
Esse contribuinte não consegue entender, sobretudo
o do Rio, por que eles não podem estar nesse processo
de auxílio na segurança pública. Eu vi
na Colômbia como isso foi decisivo. Em Medellín,
metade da cidade é favelada. As Forças Armadas
estão dentro das favelas, combinadas com uma ação
de infra-estrutura urbana, de acessibilidade. Sem acessibilidade
não entram a polícia, o bombeiro, os Correios,
as concessionárias de energia, e por aí vai.
Veja Mas,
nas favelas já urbanizadas pela prefeitura, os traficantes
voltaram com força. Por quê? Cabral Aquele projeto
não fez a lição de casa como deveria.
Instalou equipamentos públicos mais modernos, mas respeitou
a morfologia atual das favelas. Não teve a preocupação
da acessibilidade, de abrir avenidas em algumas delas. Se
a segurança pública não pode transitar
na comunidade, não adianta nada. As favelas, como estão,
são verdadeiras fortalezas para os bandidos. São
cidades medievais.
Veja No
primeiro mês de seu governo, o senhor se declarou a
favor da liberação das drogas. Depois dos enfrentamentos,
mudou de opinião? Cabral Não
mudei. Tenho filhos e não quero que nenhum use drogas.
Mas o álcool também faz mal. Os Estados Unidos
proibiram o álcool, o que levou o país a um
altíssimo nível de corrupção e
a um grau de degradação moral sem precedentes.
Franklin Roosevelt, um grande estadista, acabou com a Lei
Seca porque percebeu o mal que estava em curso. O que a gente
tem de avaliar é a relação custo-benefício
da proibição. Quantas pessoas estão morrendo
direta ou indiretamente por força do comércio
ilegal das drogas? Será que não é mais
fácil legalizar e criar políticas públicas
na área da saúde, para a conscientização,
para o controle?
Veja
Seus antecessores culpavam os usuários de drogas
pela violência. A tese era que o usuário ajuda
a financiar os traficantes. O senhor concorda? Cabral Essa é
uma visão completamente distorcida. É evidente
que, se não houvesse usuário, não existiria
a luta fratricida dos traficantes. Mas eu vou culpar o usuário?
Quem sou eu para questionar a decisão pessoal dos outros?
Esse tema navega hoje em um campo quase mítico e muito
hipócrita. As grandes nações não
discutem o assunto. O máximo que ocorre em alguns centros
civilizados, de Primeiro Mundo, é uma flexibilidade
para o usuário. Quantas gangues existem na periferia
de Nova York, Washington, Paris ou Berlim, onde há
morte, há briga pela venda de drogas... E quantos assaltos
às casas, aos carros, aos pedestres ocorrem em função
da luta pela droga ou pela primazia nos pontos-de-venda...
Veja
Os especialistas dizem que a polícia do Rio está
entre as mais desorganizadas do Brasil. A capital, com 37%
das ocorrências, tem apenas 16% do efetivo policial,
por exemplo. Cabral Estamos
resolvendo isso. Primeiro acabei com a prática de políticos
indicarem os delegados e comandantes de batalhão. Há
outra frente. Um grupo de empresários, dos mais qualificados,
se reuniu e está repetindo no Rio o que fez em Minas
Gerais, São Paulo e Porto Alegre e está financiando
um profundo estudo do professor Vicente Falconi e sua equipe.
Além de cuidarem do aumento da receita do estado, de
revisarem o processo de gestão do servidor público,
Falconi e sua equipe vão fazer algo inédito:
a gestão da segurança pública. Estão
utilizando o conceito Toyota de gestão. Avaliam o processo
como um todo. O objetivo é não ter estoque de
decisões criminais pendentes. Analisam todo o processo,
que engloba a investigação policial, a qualificação
dos profissionais, o criminoso, o crime cometido, a decisão
judicial, os presídios... Enfim, a eficiência
da segurança pública.
Veja O
que já foi possível constatar? Cabral Vou
lhe dar um exemplo. Hoje, a frota de automóveis da
polícia é gerida por ela mesma. Não tem
cabimento para a polícia gastar tempo, energia e homens
com isso. Vamos fazer um pregão para terceirizar essa
gestão. O Rio tem 3 600 viaturas, e 41% delas estão
imprestáveis. Os outros 59% rodam precariamente nas
ruas. Os estudos mostram que 1 500 automóveis em perfeito
estado são suficientes para todo o estado.
Veja A
economia do Rio de Janeiro é tão dependente
do dinheiro que vem do petróleo que, nesse sentido,
até parece um país árabe. A petrodependência
é ruim? Cabral O estado
tem excelente perspectiva também na siderurgia. Em
breve, teremos seis grandes siderúrgicas. Também
estamos crescendo na indústria naval, no setor portuário,
na produção de etanol e nos preparando para
uma presença muito forte no biodiesel. Estamos trazendo
a maior empresa do setor, a Brasil Ecodiesel, para investir
no estado. Audiovisual, moda e turismo complementam atividades
importantes na área de serviços. Dos 92 municípios,
cinqüenta têm vocação turística.
O Rio vai sobreviver muito bem ao fim do petróleo.
Veja Nas
últimas três décadas e meia, o Rio passou
pelo processo de empobrecimento, de deterioração
dos serviços públicos e de aumento da insegurança.
Qual é a sua avaliação desse processo? Cabral No momento
em que você coloca o estado a serviço de um projeto
político, você liquida com o estado. Isso foi
feito várias vezes no Rio. Alguém pensou: "Vou
colocar o estado à disposição das demandas
políticas que me chegam e de um projeto pessoal meu,
de ambição nacional". Essa combinação
danosa levou a outro equívoco de brigar com o governo
federal. Além de uma incapacidade, isso foi um ato
de intolerância. Aconteceu também entre o governador
e o prefeito da capital. Desde o meu primeiro dia procurei
restituir as relações federativas.
Veja
O senhor tem exemplos concretos das conseqüências
disso na máquina pública? Cabral Havia duas
importantes frentes de receita que estavam prejudicadas por
muita influência política. Fizemos uma intervenção
profunda. Eram o Departamento de Trânsito (Detran)
e a companhia de abastecimento de água, a Cedae. Introduzimos
o pregão eletrônico, que fez cair em um terço
o valor da compra de cloro. Nos hospitais, estamos comprando
medicamentos por um quinto do valor. Meu esforço agora
é o de pagar em dia. Acredito que temos de buscar a
eficiência do estado, que foi deteriorada nas últimas
décadas.
Veja Se
o senhor não tivesse sido eleito, estaria às
voltas com o caso de seu colega de partido, o senador Renan
Calheiros. O senhor não acha que ele já deveria
ter deixado o Senado? Cabral Ele deveria
apresentar os documentos que comprovam os pagamentos. Ele
foi legitimamente eleito pelos senadores e deve explicações
a eles. Tenho um carinho enorme pelo Renan, que me acolheu
muito bem no Senado e sempre respeitou minhas posições.
Mas acho realmente que ele precisa se explicar melhor. Não
entro no mérito sobre se deve ou não se afastar
da presidência, porque eu estaria me intrometendo em
uma decisão que cabe ao Senado. Mas acho, sim, que
ele deve apresentar documentos mais consistentes. Estou na
situação de um homem público que está
da arquibancada vendo o jogo.
Veja Então,
voltando ao seu campo. Qual é seu futuro político? Cabral Você
pode não acreditar, e tem todo o direito, mas eu não
penso no dia 31 de dezembro de 2010. Não penso na minha
reeleição. O presidente Lula brinca comigo.
Diz: "Pára com essa conversa, Cabral". Mas eu não
penso. Sou, com freqüência, pressionado por amigos,
por parceiros, a incluir a lógica política eleitoral
na lógica da gestão pública. Mas não
dá. É evidente que, quando se aproximarem as
eleições, eu poderei disputar. Mas o que quero
dizer é que não estou pensando nisso ao administrar
o estado.
Veja O
senhor não teme que o caixa da campanha esteja vazio
quando chegar a hora? Cabral Não
posso permitir que eu ou qualquer colaborador misture a gestão
da máquina pública com visão eleitoral.
Ao contrário, quando fui presidente da Assembléia
Legislativa, em 1995, participei do programa estadual de desestatização.
Não consigo imaginar, com toda a precariedade fiscal
que eu tenho, o que seria se ainda tivesse de administrar
essa bagunça. Nossa capacidade de investimento hoje
é de menos de 5% do Orçamento. O ideal é
que tenhamos pelo menos 10% a 15%. Não poderemos nem
sonhar com isso se continuarmos com o estado pesado que temos
agora. Qual o sentido de o estado administrar o Maracanã,
por exemplo? Lembro-me sempre do que o ex-governador Marcello
Alencar me dizia: "Meu filho, ter o poder neste estado não
é nomear secretários. O poder está no
portão 18 do Maracanã, meu filho". É
por onde entram a imprensa e os convidados. Não dá
para eu ficar administrando os ingressos do portão
18.