A francesa Cécile Bonnefond é uma raridade:
na indústria de bebidas, feudo persistentemente masculino,
preside há sete anos a Veuve Clicquot Ponsardin, que
produz o tradicional champanhe. Baseada em Paris e dividindo
o tempo entre a vinícola em Reims e os 150 países
onde a empresa está presente, Cécile, 51 anos,
sem filhos, esteve em São Paulo e falou à repórter
Mariliz Pereira Jorge durante um café-da-manhã
tardio onde, sim, bebericou champanhe.
COMO É
SER EXECUTIVA EM UMA ÁREA DOMINADA POR HOMENS?
É um paradoxo. Para chegar ao topo, é preciso
passar por muito mais desafios do que os homens e provar todos
os dias que você merece estar naquele cargo. Quando
eu assumi, a única mulher que havia chefiado uma empresa
nesse mundo do vinho era a própria madame Clicquot.
Mas, por outro lado, a minha empresa tem uma essência
feminina até no nome.
SER MULHER NESSE
MEIO TRAZ ALGUMA VANTAGEM? Não. Na posição
que ocupo, somos todos homens.
O ÚLTIMO
RANKING ANUAL DAS MAIORES EMPRESAS ELABORADO PELA REVISTA
FORTUNE APONTA APENAS VINTE MULHERES NOS CARGOS MAIS
ALTOS. O QUE ELAS TÊM EM COMUM? Determinação.
Mulheres mais jovens me perguntam como eu cheguei lá.
Digo: não foi por acaso. É preciso trabalhar
duro e, se possível, escolher o chefe. A pessoa jovem
precisa de um bom mentor, que a estimule, dê direção,
acredite nela mais do que ela mesma. Assim, as coisas acontecem.
Mulheres que querem chegar ao topo também têm
de ser apaixonadas pelo que fazem. Não dá para
ter tudo, é necessário abrir mão de algumas
coisas. Por fim, vão precisar de um pouco de sorte
de estar no lugar certo na hora certa.
A SENHORA TEVE
SORTE? Muita. Eu trabalhava na indústria alimentícia.
Um headhunther escolheu meu nome e a única coisa que
tive de fazer foi dizer sim. É o que eu chamo de sorte.
A SENHORA ENTENDIA
DE CHAMPANHE QUANDO COMEÇOU NA VEUVE CLICQUOT?
Como todo francês, achava que sabia tudo. Obviamente,
descobri que não sabia nada e tive de aprender.
A PROPAGANDA
DA SUA EMPRESA DIZ "SEJA CHIQUE, SEJA VEUVE CLICQUOT, PONTO
FINAL". NA SUA OPINIÃO, O QUE É SER CHIQUE?
Sem querer parecer arrogante, acho que a melhor tradução
de ser chique é ser francês. Quando alguém
bebe champanhe, quer viver um pouco do estilo de vida francês,
um misto de tradição e modernidade, atenção
aos detalhes, charme, elegância. Eu viajo pelo mundo
e vejo pessoas que são inadequadas. Chique é
saber ser adequado nas diversas situações.
MULHERES CONSOMEM
MAIS CHAMPANHE DO QUE HOMENS? Isso não é
verdade. O champanhe é uma bebida que tem público
bastante equilibrado, metade homens, metade mulheres.
A SENHORA TOMA
CHAMPANHE TODO DIA? Quase todos. A partir de umas 11 horas,
estou pronta. Bebo sempre com outras pessoas, claro, porque
uma de suas características, até pelo tamanho
da garrafa, é ser uma bebida para ser compartilhada.
HÁ UMA
OCASIÃO MAIS PROPÍCIA PARA TOMAR CHAMPANHE?
Toda hora pode ser especial. Champanhe não é
mais somente a bebida do Natal, do Ano-Novo, dos aniversários
ou casamentos. O Brasil é hoje o 12º maior mercado
da Veuve Clicquot. Há vinte anos, estava fora do mapa
do champanhe.
O CLIMA MAIS
QUENTE ESTÁ AFETANDO A PRODUÇÃO DA BEBIDA?
Nos últimos três anos, começamos a
perceber em Champagne alguns acontecimentos relacionados às
mudanças dos ciclos da natureza. O inverno está
menos frio, a chuva vem e vai de diferentes maneiras, os verões
estão muito quentes. A vinícola sofre grande
impacto com isso, porque nós não interferimos,
deixamos a natureza agir. Temos feito muitas pesquisas para
saber como reagir, como nos precaver dos efeitos das mudanças
climáticas.