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Edição 1 708 - 11 de julho de 2001
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Stephen Kanitz

Todo dia falta algo

"Se as empresas de geração de energia
fossem privadas, já teriam aumentado
os
preços em 10% em 1998, reduzindo
o consumo, e estariam conseguindo recursos
e investindo bilhões de reais em energia"


Ilustração Ale Setti


Um avião da Embraer precisa de 1,5 milhão de peças para ser construído. Cem aviões necessitam de 150 milhões de peças, componentes e matérias-primas, inclusive energia, todos essenciais para o funcionamento e a segurança do avião. Se faltar uma única peça, nenhum avião poderá ser entregue.

Somando-se todos os produtos, peças e matérias-primas produzidos no Brasil, chegamos a um número não menor que 10.000 trilhões de itens por ano. Só os tubos de pasta de dentes são 1 bilhão.

O que ninguém fica sabendo é que todo dia uma pequena parte desse mundaréu de peças, digamos 0,002%, está faltando. Ou seja, hoje 200 milhões de peças e matérias-primas estão em falta em algum lugar do Brasil, só que ninguém é pego de surpresa.

Cada fabricante tem executivos e funcionários que começam a antever a escassez e aumentam os preços, algo que o setor de energia não fez. Esse reajuste sinaliza duas importantes informações para a sociedade:

1. "Pessoal, está começando a faltar esta peça. Vamos tentar usá-la menos, ou somente quando for indispensável."

Aqueles que podem substituir a peça por outra, ou que não precisam desesperadamente dela, a consomem menos. Assim, os que precisam desesperadamente da peça continuarão a recebê-la. Tudo feito de forma espontânea e voluntária, ao contrário do racionamento e da ameaça de corte de energia impostos pela intervenção do Estado. Hoje, se um amigo seu numa UTI quiser mais energia, ele terá de fazer um requerimento ao governo, que talvez abra uma exceção. Não se permite doar energia nem ele poderá compensar a energia de sua casa vazia, algo que o sistema de preços permitiria.

O segundo aviso que um aumento de preços dá é mais importante ainda:

2. "Pessoal, a margem de lucro da peça número 1 432 aumentou.Vamos expandir rapidamente a produção comprando máquinas e contratando mais trabalhadores."

O lucro adicional gerado pelo aumento do preço canaliza os recursos financeiros necessários justamente àqueles mais capacitados para ampliar a produção no momento. Tudo o que falta é corrigido sem os economistas nem os governos ficarem sabendo. Imaginem o Pedro Parente cuidando de 199 milhões de câmaras de emergência.

Se as empresas de geração de energia fossem privadas, seus executivos já teriam aumentado os preços em 10% em 1998, reduzindo o consumo, e estariam obtendo recursos e investindo bilhões de reais em energia, apesar do déficit do governo federal e da preocupação do FMI.

Os que pagam mais por um produto sem o qual não podem ficar acabam permitindo àqueles que abriram mão dele tê-lo novamente com o reinvestimento do lucro adicional que terão de pagar, algo que não ocorre num racionamento. Os que recebem salário mínimo não são prejudicados, porque governos democráticos e que não têm déficit previdenciário reajustam o salário mínimo para compensar o aumento da tarifa, para que todos continuem a receber o mínimo necessário de energia.

O governo poderia ter elevado os preços da energia, mas empresas estatais são geridas por outros critérios, como não aumentar a inflação num ano em que se busca a reeleição, isto, sim, um egoísmo que favorece poucos e prejudica a todos. Os que pedem a volta da capacidade de planejamento governamental do setor esquecem que houve um "planejamento", um tanto maquiavélico, e com outros propósitos.

Congelamentos desorganizam a economia. Setores que estão crescendo 20%, como o de peças para geradores e celulares, precisam reduzir em vez de aumentar sua produção. Setores que estão em decadência e caindo 20% não precisam fazer nada. O mesmo não acontece com 199 milhões de produtos que neste momento estão em falta, sem ninguém, presidente, ministro ou intelectual que odeia as imperfeições de mercado, ficar sabendo.

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

 
 
   
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