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Roberto Pompeu de Toledo

Do apagão ao fashion

Eureca! Eis por que algumas
palavras do inglês vencem,
enquanto outras saem derrotadas

A guerra não era só uma coisa terrível. Também podia ser uma diversão. À noite, ficava-se às escuras. Afinal, os alemães não tinham atacado nossos navios? Fazia parte da estratégia defensiva brasileira apagar as luzes, para confundir o inimigo. Entre os meninos de Copacabana surgiu então o programa de ir à praia, à noite, curtir a escuridão. Um deles, o que aqui nos interessa, morava perto do Corte do Cantagalo. Vez por outra vinha a conversa de que os submarinos alemães podiam atacar, e isso dava um frio na barriga. Mas, ao mesmo tempo, era uma delícia cruzar a Avenida Atlântica, então tão estreita e tranqüila, e ir brincar na praia em trevas. O medo era compensado pela excitação da aventura.

O menino em questão chamava-se Fernando Henrique, filho do oficial do Exército Leônidas Cardoso. Sim, Fernando Henrique Cardoso. A lembrança do tempo em que, menino, gostava de brincar na praia às escuras pode sugerir aos espíritos de porco a conclusão de que, desde cedo, ele já era chegado a um apagão. Mas não é isso que se quer registrar aqui. Pelo menos, que fique registrado só de passagem. Nosso ponto é que apagão nesse tempo, e não só nesse tempo, mas até bem recentemente, não se chamava apagão. Chamava-se, como aliás notou Ivan Lessa numa entrevista recente, "black-out". O próprio Fernando Henrique, ao contar suas aventuras de infância, diz que vigorava o "black-out". Hoje, ao referir-se às desventuras de seu governo, fala em "apagão". Eis um caso raro em que o inglês foi superado por uma expressão com gosto e cheiro de legítimo e bom português.

Legítimo e bom português? Na verdade, apagão não está nos dicionários. Chegou à língua muito recentemente, por contágio do "que vigorava o "black-out". Hoje, ao referir-se às desventuras de seu governo, fala em "apagão". Eis um caso raro em que o inglês foi superado por uma expressão com gosto e cheiro de legítimo e bom português.

Legítimo e bom português? Na verdade, apagão não está nos dicionários. Chegou à língua muito recentemente, por contágio do "apagón" espanhol. É caso parecido com o de "taxista". Num tempo em que, no Brasil, se dizia "chauffeur de táxi", soava engraçado aos ouvidos brasileiros o "taxista" dos países de língua espanhola. Soava até meio ridículo, e o mesmo acontecia com "apagón". Aos poucos, a sabedoria do espanhol impôs-se, e eis-nos achando muito natural chamar o profissional do táxi de "taxista" e o corte de energia de "apagón".

Voltando ao menino Fernando Henrique, e supondo que a mãe o levasse, mesmo que contrariado, mesmo que sem um pingo do deleite das noites na praia, ao Copacabana Palace, ali perto, para assistir a um desfile de modas, seria assim mesmo que o evento seria chamado – desfile de modas. Hoje não. Ou melhor, desfile de modas continua existindo, mas para os pobres e desinformados, os simplões dos subúrbios e os capiaus dos cafundós interioranos. Para os bons, os que estão por dentro, "moda" já faz algum tempo que não é "moda". É "fashion". Um evento que se realizou na semana passada em São Paulo chamou-se "São Paulo Fashion Week". Até Gisele Bündchen participou. Pois o leitor acha que Gisele Bündchen participaria de uma "Semana da Moda de São Paulo"? Ora, tenha-se a santa paciência.

Conclusão: enquanto um vai, outro vem. Enquanto se vai o inglês "black-out", derrotado pelo "apagão" de origem espanhola, mas moldado à sonoridade da língua portuguesa, vem outro inglês, "fashion", expulsar essa "moda" que, embora de origem francesa, se encontrava secularmente aculturada ao português. Como entender movimentos opostos como esses, se tudo que é inglês, segundo se pode constatar a olho nu, avança sempre? Como explicar que, num tempo em que o velho e bom "pra viagem" virou "delivery", "liquidação" virou "sale", e "20% de desconto" virou "20% off", uma expressão inglesa, como "black-out", seja posta em desuso? É uma aberração. Contraria a regra de que o inglês, tão caro aos olhos e ouvidos dos brasileiros, sinônimo de coisa rica e superior, o inglês tão (para ser claro) "up-to-date" e tão "cool", tende a vencer sempre.

Ou, pensando bem... Pensando bem, não contraria – o que faz é aperfeiçoar a regra. Se não, vejamos. O mundo da moda é um mundo de encanto e fantasia. É rico e superior. Logo, não merece ser designado por mera palavra de língua portuguesa. Merece a promoção à língua inglesa. Não lhe cabe outro senão o nome mágico e inebriante de "fashion". Já o mundo do "black-out", que é? Tristeza e penúria. O mundo da imprevidência do governo e do sacrifício das pessoas. Da privação, do retrocesso e da feiúra. Como designá-lo então com palavra inglesa? Não, chamá-lo de "black-out" era um erro. O fenômeno é indigno do prestígio do inglês. Tem de ser apagão mesmo, palavra mais apropriada para representar a carência grosseira, selvagem e terceiro-mundista que designa.

Com o que se chega ao aperfeiçoamento da regra enunciada acima. Não é que o inglês vença sempre. Vence quando é para designar coisas boas – as coisas do "glamour" (claro: palavra inglesa), da graça ("grace", para ficar mais claro) e do sonho ("dream"). As ruins ficam com o português mesmo, ainda que adaptado do espanhol, e tanto mais se a palavra for como apagão – terminada com esse "ão" tão característico da língua e tão pouco sutil, nosso cru e brutal "ão".

   
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