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Poetinha ou poetão?

A crítica literária está reavaliando
a obra poética de Vinicius de Moraes

Sérgio Martins

David Drew Zingg
Vinicius: até o concretista Haroldo de Campos agora enxerga qualidades no parceiro de Toquinho


Há três facetas na personalidade de Vinicius de Moraes: o personagem pitoresco, o letrista e cantor e o poeta. O primeiro é uma figura central no anedotário da sociedade carioca. O segundo está sendo homenageado com uma luxuosa caixa de 27 CDs chamada Como Dizia o Poeta (veja quadro), que cobre a maior parte de sua carreira fonográfica. De todas as facetas desse ilustre carioca, porém, a mais polêmica é a literária. Vinicius costumava dizer que era poeta antes de mais nada e toda sua atividade cultural deveria ser avaliada a partir desse fato. O público e o mercado não se esqueceram dele. Ainda hoje os enamorados declamam seus sonetos de amor. Há boas edições de seus livros pela Companhia das Letras e um volume de obras completas pela Nova Aguilar. O que falta são estudos e atenção da crítica. "Nunca soube de alguém dando um curso ou fazendo uma tese sobre ele. É uma falha grave", diz o compositor e professor de literatura da Universidade de São Paulo José Miguel Wisnik. Vinicius entrou para a história como poetinha – palavra a princípio carinhosa, mas que tem conotações negativas, como se ele fosse apenas um versejador meloso. Mas será que é só isso? Foi somente nos últimos anos que começou a se esboçar um movimento de reavaliação do poeta Vinicius.

Um dos propositores desse movimento é o jornalista carioca José Castello, autor da biografia O Poeta da Paixão (1994). "Ele é um caso típico em que a figura folclórica levou a melhor sobre o literato", diz Castello. Segundo o biógrafo, em sua pesquisa não foi fácil encontrar textos que estudassem a sério a obra de Vinicius. "Mais da metade dos artigos que levantei falavam sobre novas namoradas", conta. O autor de A Mulher que Passa, no entanto, tinha sólida formação literária e se dizia influenciado por clássicos como o inglês William Shakespeare, o francês Arthur Rimbaud ou o americano T.S. Eliot. Seus versos, a princípio, eram metafísicos e espiritualistas – vide o livro de estréia, O Caminho para a Distância, de 1933. Com o tempo, os poemas ganharam ares coloquiais, influenciados principalmente pela leitura dos poetas modernistas. São dessa época seus famosos sonetos – Soneto da Fidelidade, Soneto do Amor Maior e Soneto da Separação – e uma poesia mais erótica. Só depois de duas décadas de cultivo de seu instrumental poético ele começou a dedicar-se com afinco às letras de música, iniciando uma parceria com Tom Jobim.

Coube aos melhores poetas brasileiros observar aquilo que a crítica deixou passar em branco. Não era à toa que Carlos Drummond de Andrade nutria grande admiração por Vinicius: ele percebia nele um escritor de vastos recursos. E é esse poeta versátil que muitos escritores já não têm medo de admirar em público. Ele conta inclusive com adeptos inesperados, como o paulista Haroldo de Campos, um dos fundadores do concretismo, movimento que por sua inclinação anti-sentimental está muito distante da poesia de Vinicius. "O fato é que ele alternou momentos mais convencionais com outros de grande invenção", diz Haroldo. "O melhor e mais inventivo Vinicius não foi ainda decodificado e degustado pelo grosso de seus leitores." De geração mais nova, o carioca Carlito Azevedo é outro que se rende ao talento do poeta. "Sua bagagem literária lhe permitia pôr uma gota de sofisticação até nas coisas mais simples que fazia", avalia ele. "Se você prestar atenção, por exemplo, vai ver que Garota de Ipanema tem ecos de um poema de Charles Baudelaire, A uma Passante." Pelo jeito, o poetinha ainda vai virar poetão.

 

BOSSA NOVA E OUTROS DRINQUES

O único defeito da caixa de CDs Como Dizia o Poeta, que chega às lojas nesta semana, é o preço. Ela está sendo cotada entre proibitivos 550 e 600 reais e seus discos não serão vendidos separadamente. O investimento, no entanto, vale a pena para os fãs mais entusiasmados do "poetinha camarada". O pacotão traz à tona gravações de Vinicius por diversos selos, muitos deles já extintos – caso do Elenco e do Forma. Abrange gravações de seu início como bossa-novista, em 1956, até as jóias e cascalhos da parceria com Toquinho, encerrada com a morte de Vinicius, em 1980. Um dos pontos altos é a trilha da peça Orfeu da Conceição, um de seus primeiros trabalhos como compositor. Das fases posteriores à bossa nova, não há como não se deliciar com os Afro-Sambas, um disco com fartas influências do candomblé, composto em parceria com o violonista Baden Powell, que havia muito se encontrava fora de catálogo. O ouvinte dado aos eflúvios do lirismo-mesa-de-bar (do tipo "garçom, quero me afogar em álcool") se emocionará até mesmo com os momentos mais folclóricos da obra musical de Vinicius, como a trilha da novela O Bem Amado e as quatro versões de Soneto da Separação, no CD Lances de Vinicius 2. Tintim...

 

   
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