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Edição 1 708 - 11 de julho de 2001
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O estrago do stress

Empresas implantam programas
para
diminuir o impacto das tensões
causadas
pelas relações no ambiente
de trabalho

Maurício Oliveira e Fernanda Colavitti


Antonio Milena

Ginástica pára o escritório da Alcoa: prevenção

Quando retornou ao Brasil em 1981, depois de estudar nos Estados Unidos, a psicóloga Marilda Emmanuel Novaes Lipp parecia pregar no deserto quando alertava para os sintomas de um mal que se alastrava pelas grandes cidades – o stress, tema de seu doutorado na Universidade George Washington, na capital americana. "Naquela época, as pessoas achavam que o stress era frescura de grã-fino", lembra ela, pioneira e uma das principais autoridades do país no assunto. Duas décadas depois, o cenário mudou muito. A psicóloga acredita que o Brasil esteja maduro para admitir o stress como doença ocupacional, uma situação na qual os empregados passariam a ter direito a afastamento temporário do trabalho para cuidar da saúde, à semelhança do que já se discute em países como EUA, Japão, Inglaterra e Suécia.

Exagero? Pode parecer à primeira vista, mas há empresas que adotam programas de prevenção, como Alcan, 3M, Compaq, Motorola, DuPont, Ford, Olivetti e Unilever, com a consultoria da psicóloga, que se especializou em medir o nível de stress dos funcionários no local de trabalho. Cada um é avaliado individualmente, de acordo com critérios científicos. Caso apresente problemas, recebe uma classificação em quatro estágios: de alerta, de resistência, de quase exaustão e de exaustão. Há profissionais que conseguem lidar melhor com a constante sobrecarga de trabalho, enquanto outros se revelam mais vulneráveis. Em casos de maior gravidade, Marilda Lipp recomenda um período de folga para aliviar a barra. "Antes existia grande resistência a seguir esse conselho, mas os diretores começaram a entender que os funcionários não são obrigados a suportar a sobrecarga", avalia a psicóloga, autora de oito livros sobre o tema e orientadora de três dezenas de alunos de pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, onde fundou o Laboratório de Estudos Psicofisiológicos do Stress.

 
André Valentim
Liane Neves
Massagem na Merck (à esq.) e a psicóloga Ana Maria Rossi (à dir.): terapia de resultado

Fabricante de alumínio com unidade em Santo André, no ABC Paulista, a canadense Alcan incluiu o stress entre as doenças que podem ser tratadas pelo plano de saúde da empresa. Para identificar quem necessita de tratamento, o departamento médico contratou uma psicóloga. Aqueles que se enquadram no nível de exaustão têm direito a pelo menos quinze sessões de terapia, um processo que dura três meses, no mínimo. O controle começou pelos cargos mais altos – de 100 atendidos, cinco precisaram do tratamento – e vai abranger os 3.000 contratados. Todos ouviram palestras para aprender a identificar o momento em que o comportamento passa a ser afetado de maneira preocupante. O combate ao stress é um dos quatro pilares do plano de qualidade de vida da companhia. Os outros são alimentação (controle de calorias no restaurante da empresa), exercícios físicos (os funcionários têm academia de ginástica à disposição) e o combate a vícios como tabagismo e álcool. "Estão todos interligados, já que nosso objetivo é buscar o equilíbrio do funcionário para que ele possa render por mais tempo", explica o médico Manoel Marcos Arruda, diretor de saúde ocupacional na Alcan.

Com sede em Sumaré, a 120 quilômetros da capital paulista, a unidade da indústria americana 3M, fabricante de fitas adesivas e esponjas de cozinha, já se habituou a novidades semelhantes. Dos 1 500 funcionários, 430 freqüentam a academia de ginástica, por exemplo. Se as quinze sessões de terapia não se mostrarem suficientes para afugentar o astral combalido do empregado, a receita pode chegar a 45 sessões, o que equivale a quase um ano de tratamento, em alguns casos extensivo aos familiares. O diretor médico da 3M, Luiz Fernando Macatti, tem autonomia para conceder licenças quando julgar necessário. "Um fator simples e decisivo é mudar de ambiente. Quando vejo que o sujeito está precisando, dou uma semana de folga e depois pergunto ao chefe se pode", conta Macatti. Embora com programas diferentes, também demonstram preocupação com o assunto as corporações Dow Química, Philips, Mercedes-Benz, Natura e Weg. Na indústria de alumínio Alcoa, em São Paulo, as estações de computador servem de pano de fundo para sessões de ginástica. A farmacêutica Merck Sharp & Dohme oferece massagens relaxantes e tai chi chuan.

Duas pesquisas inéditas e atuais mostram como a turma do colarinho branco é particularmente penalizada com a doença. A psicóloga Ana Maria Rossi, de Porto Alegre, presidente da International Stress Management Association (Isma) no Brasil e precursora das técnicas de biofeedback no país, coletou queixas freqüentes com relação a alguns dos sintomas clássicos do stress, como dores musculares (78%), ansiedade (63%), angústia (47%), insônia (35%), agressividade (23%), azia, gastrite ou úlcera (16%) e queda do apetite sexual (15%). Para o estudo, foram entrevistadas 556 pessoas de dezessete empresas privadas e dez públicas de vários Estados, entre eles Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Paraná. De cada dez executivos, sete reclamam hoje do tecnostress, as tensões provocadas pelas inovações que apareceram no campo das telecomunicações (correio eletrônico, celular, internet e pager).

Em outra iniciativa, a seguradora AGF Brasil Allianz Group, de origem franco-alemã, encomendou ao Instituto Paulista de Stress, Psicossomática e Psiconeuroimunologia (IPSPP) um estudo com executivos de 200 empresas que mantinham contrato de seguro com ela, um espectro representativo do que há de moderno e mais competitivo na economia brasileira. Numa amostra de 1.500 pessoas, concluiu-se que a grande maioria dos executivos está na faixa de stress moderado ou forte. "É alarmante", resume o psicólogo Esdras Vasconcelos, que coordenou a investigação, com a participação das professoras Rachel Skarbnik, Edela Nicoletti e Sâmia Brandão, um trabalho que está sendo publicado agora.

Na origem, o termo stress está associado à noção de aflição, desconforto e adversidade. Aparece também ligado à pressão que sofrem os materiais na construção de pontes e estruturas. Nas ciências, serve para designar um conjunto de reações do organismo a uma sobrecarga de tensão psicológica, particularmente presente no mundo corporativo. Nos anos 80, a Organização Mundial de Saúde percebeu que o problema era tão amplo e ameaçava crescer de tal forma que o classificou como epidemia em potencial. No Brasil, apenas em 1999 o Ministério da Saúde incluiu o item "transtornos mentais e do comportamento" na lista das doenças ligadas ao trabalho, que até então considerava apenas os males causados por motivos físicos, como o contato com chumbo ou a exposição a ruídos excessivos. Entre as novas doenças relacionadas está o stress, oriundo de causas como ritmo de trabalho penoso, desacordo com patrão e colegas de trabalho, ameaça de perda de emprego e má adaptação aos horários de entrada e saída.

O nível de stress costuma ser comparado ao de uma corda de violão – não pode ser tão frouxa que não produza som nem tão esticada que arrebente quando tocada. É muito difícil para um indivíduo, submetido às exigências do cotidiano no ambiente empresarial, saber quando o mero cansaço vira risco de doença ocupacional. O publicitário Walter Wagner Casseta, 38 anos, de São Paulo, só descobriu isso muito tarde. Depois de montar uma agência com um sócio, deixou-se levar por um ritmo alucinante de atividade, de quinze a dezesseis horas por dia, para garantir as encomendas dos clientes. Mesmo nos eventos sociais, só conseguia respirar negócios. Fumava três maços de cigarros por dia e almoçava em fast food em horários incertos. Certo dia, sentiu falta de ar e uma dorzinha no peito, mas não mudou a rotina. O alerta veio quando precisou fazer uma cirurgia, em decorrência de um problema grave no estômago. Em seguida, procurou uma psicóloga, que lhe deu o diagnóstico de stress.

Também o administrador de empresas Celso Abramovitz, 42 anos, do Rio de Janeiro, só caiu na real depois de uma crise de taquicardia, com tonturas e calafrios, que durou mais de oito horas. Sobre seus ombros, acumulavam-se o excesso de responsabilidade e o descontentamento com a função, como superintendente da Renasce, administradora de shopping centers do grupo Multiplan. "Eu tinha de conciliar interesses inconciliáveis de lojistas, empreendedores e do serviço público", relembra. Em Porto Alegre, a empresária Evani Wolff, 56 anos, dona das marcas de calçados e vestuário Tactile e Gutz, com lojas em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre, teve diagnóstico parecido. Uma dor forte no olho levou-a ao médico, que descobriu um quadro mais geral, resultante do excesso de trabalho. Afinal, ela enfrentava jornadas de catorze horas e não se desligava nem nos fins de semana. Perfeccionista, achava que não estava fazendo o suficiente por sua empresa. Evani não se importava com problemas digestivos, dores na coluna e insônia, sinais claros do mal maior que a rondava. Nos três casos, de Walter, Celso e Evani, a medicina e a psicologia apresentaram soluções que conseguiram resolver o problema de saúde deles naquele momento, com as armas à disposição, como mudança dos hábitos de vida, uso de remédios psicotrópicos, prática de exercícios físicos ou terapia. Pesquisadora da Universidade Federal Fluminense, a psicanalista e pedagoga Hilda Alevato, do Rio de Janeiro, lembra que, nos dias de hoje, é difícil escapar de uma jornada estafante em determinados momentos. "Pode-se trabalhar muito, exaustivamente, mas sem se descuidar da saúde psíquica e sempre em busca do equilíbrio", ela aconselha.

 





 
 
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