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O
humor afasta doenças
A
medicina agora está estudando
a importância do bom humor e dos
sentimentos positivos na prevenção
e no tratamento de moléstias
Karina
Pastore e Cristina Poles
Kiko Ferrite

As
visitas dos "doutores" Pinduca e Croc aliviaram o stress da internação
de Jane, de 9 anos: a pequena passou a se alimentar e a dormir melhor,
além de se deixar tratar com mais facilidade |

Veja também |
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Não
fumar, manter uma alimentação equilibrada e praticar exercícios
físicos, já está provado, são medidas que
fazem viver mais e melhor. Agora, a medicina estuda a importância
do bom humor e dos sentimentos positivos na prevenção de
determinadas doenças e até mesmo como fator de recuperação
de pessoas vitimadas por moléstias graves. O surradíssimo
ditado "rir é o melhor remédio" começa, enfim, a
ganhar respaldo científico. Pesquisas recentes comprovam que boas
risadas (nada a ver com aquelas que somos obrigados a dar quando o chefe
conta uma piada sem graça) podem ter o efeito de uma sessão
de ginástica. Protegem o coração, aliviam o stress,
fortalecem o sistema imunológico, facilitam a digestão e
limpam os pulmões (veja
quadro).
A risada
é o principal objeto da maioria desses estudos, por se tratar da
expressão mais explícita do bom humor e da positividade.
Sua interferência no funcionamento do corpo é, portanto,
mais fácil de ser medida. "Quando rimos, rimos com o corpo todo",
define o psiquiatra americano William Fry, da Universidade Stanford, especialista
no assunto. Um dos seus maiores efeitos é reduzir a liberação
dos hormônios associados ao stress, o cortisol e a adrenalina. Em
excesso, essas substâncias enfraquecem as defesas do organismo e
elevam a pressão arterial, criando o cenário para o desenvolvimento
de infecções e para um infarto. Um estudo revelador sobre
os benefícios do bom humor para a saúde do coração
foi conduzido pelo patologista Lee Berk, diretor do Centro de Neuroimunologia
da Universidade de Loma Linda, na Califórnia. A equipe do doutor
Berk acompanhou durante um ano 100 homens que já haviam enfartado,
monitorando diariamente a pressão arterial, as taxas de adrenalina
e as doses de medicamentos de cada paciente. Eles foram divididos em dois
grupos, dos quais um era obrigado a assistir meia hora por dia a uma comédia
televisiva. O resultado foi surpreendente: os que foram submetidos às
sessões de risada sofreram menos episódios de arritmia,
apresentaram redução na pressão arterial e tiveram
de tomar menos remédios contra angina. A recorrência de infarto
no grupo dos risonhos foi de 8%. No outro, de 42%.
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ANTES
O desenho acima é de autoria de um menino hospitalizado e foi
feito antes de uma visita dos Doutores da Alegria. Ele mostra o garoto
na cama, à espera da morte. A mãe também morrerá
ao cair do arco de cores escuras |
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DEPOIS
Após
a passagem dos palhaços, o mesmo menino fez outro desenho.
Nele, não há mais condenação à
morte: um Super-Homem colorido aparece para salvá-lo da doença,
representada pelo gigante de braços estendidos |
Um dos últimos
trabalhos divulgados a respeito da influência das emoções
positivas na saúde é também um dos mais fascinantes.
Por quinze anos, desde 1986, o médico David Snowdon, da Universidade
de Kentucky, acompanhou 678 freiras, com idade acima de 75 anos. Interessado
em estudar o mal de Alzheimer, ele se debruçou sobre a história
pessoal e médica de cada uma delas. O ouro da pesquisa, no entanto,
estava em 200 diários escritos na época em que as religiosas
ainda eram noviças e tinham, em média, 22 anos. Ao analisá-los,
Snowdon percebeu que as que utilizavam em seus relatos uma maior quantidade
de palavras ligadas a emoções positivas como "felicidade",
"amor", "gratidão" e "esperança" haviam chegado com
mais sáude à velhice do que as que costumavam usar grande
número de vocábulos com significados negativos "tristeza",
"indecisão" e "vergonha". As otimistas também se revelaram
mais longevas. "A diferença de longevidade variou de seis a dez
anos", disse o pesquisador a VEJA. Snowdon concluiu, ainda, que as autoras
dos textos mais elaborados, ricos em idéias, vocabulário
e conhecimentos gerais, exibiam menor grau de demência senil. Outra
prova de que manter-se intelectualmente ativo desde a juventude é
uma maneira de evitar doenças cerebrais. Uma atividade mental mais
intensa robustece as conexões entre os neurônios e forma
novas redes entre eles. Quanto mais densa e maior for essa trama, mais
saudável é o cérebro.
As investigações
sobre as contribuições do humor para a saúde são
relativamente novas ao contrário dos estudos sobre os efeitos
deletérios da tristeza, da angústia e da raiva. Elas têm
pouco mais de duas décadas. Desde então, foram publicadas
25 teses realmente abalizadas sobre o assunto, a maior parte nos Estados
Unidos. A idéia de que o humor pode servir de tratamento médico,
no entanto, é antiqüíssima. Séculos antes de
Cristo, era famoso na cidade grega de Atenas o Santuário de Asclépio,
um centro em que se misturavam arte, filosofia e medicina. Os doentes
que se tratavam ali eram levados a espetáculos musicais, peças
de teatro e a uma certa Casa dos Comediantes, onde se deliciavam com piadas.
No século XVI, uma das prescrições mais comuns era
ler ou ouvir histórias engraçadas. A alegria, defendiam
os sábios da época, dilatava e aquecia o organismo. Já
a tristeza contraía e esfriava o corpo.
O que parecia
quase uma superstição medieval começou a ser levado
a sério em 1979, com a publicação do livro Anatomia
de uma Doença, escrito pelo editor americano Norman Cousins.
Quinze anos antes, ele recebera o diagnóstico de que era portador
de uma doença degenerativa que ataca a coluna vertebral. Os médicos
lhe deram poucos meses de vida. Depois de passar um tempo no hospital,
Cousins decidiu se dar alta, por não suportar o ambiente frio,
impessoal e restritivo. Contratou uma enfermeira e se mudou para um bom
hotel. Com o corpo quase inteiramente paralisado pela doença, ele
recebia todas as tardes visitas de amigos. O seu programa preferido era
assistir, junto com eles, a comédias na televisão. Ele se
deu conta de que, depois de cada momento agradável, dormia melhor,
comia com mais apetite e ganhava ânimo para a fisioterapia. A melhora
de Cousins foi espantosa, o que deu origem ao livro. Ele conseguiu uma
sobrevida inimaginável morreu em 1990, aos 75 anos.
Se há
um lugar em que se podem medir na prática os benefícios
de um estado de espírito mais leve, são os hospitais que
abrem suas portas a companhias de palhaços especializados em divertir
pacientes infantis. Nos Estados Unidos, há o Big Apple Circus Clown
Care Unit. Na França, o Le Rire Médecin. Na Alemanha, o
Die Clown Doktoren. No Brasil, o grupo mais famoso é o dos Doutores
da Alegria, criado em 1991. Vinte e seis atores profissionais visitam
semanalmente duas dezenas de hospitais em São Paulo, Campinas e
no Rio de Janeiro. Pelas mãos desses Ph.Ds. em besteirologia já
passaram mais de 200 000 crianças doentes, que receberam "transfusão
de milk-shake", foram examinadas na "bobografia computadorizada" e submetidas
a "extração de mau humor". Essa terapia da risada tem-se
mostrado valiosa não só para a recuperação
mais rápida dos pequenos como para a manutenção do
otimismo entre os médicos e parentes dos internados o que
só ajuda os doentes.
Entre janeiro
e outubro de 1997, a psicóloga Morgana Masetti, da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, acompanhou o trabalho
dos Doutores da Alegria. Entrevistou 45 profissionais de saúde,
38 pais de crianças e noventa meninos e meninas hospitalizados.
A cada um desses últimos foi pedido que fizesse dois desenhos
um antes de
uma performance dos Doutores da Alegria e outro imediatamente depois.
O contraste dos resultados é impressionante. Dos desenhos produzidos
após a passagem dos atores brotaram temas alegres, figuras maiores,
mais coloridas e nítidas. A psicóloga constatou que as crianças
que costumavam ficar prostradas na cama tornaram-se mais ativas e mais
receptivas ao tratamento. Para os pais, o sorriso estampado no rosto do
filho doente ajudava a relaxar e a diminuir o stress causado pela internação.
Há
algumas semanas, VEJA presenciou o trabalho de dois integrantes do grupo
Doutores da Alegria no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas,
em São Paulo. Transformados nos personagens Krebs Croc e Dona Juca
Pinduca, eles quebraram o silêncio sepulcral da enfermaria do 4º
andar do hospital. A atriz vestia roupa de bailarina verde, saiote salpicado
de strass e um chapéu com passarinhos de madeira. O ator trajava
bermuda vermelha, camiseta do Flamengo e meião cor de laranja.
Foram direto para o quarto número 6, onde Jane Genoíno Mota,
de 9 anos, estava ligada a aparelhos que lhe monitoravam as funções
vitais e injetavam remédios pelas veias. Vítima de um disfunção
grave na glândula tireóide, a menina se encontrava internada
havia dois meses. Ao bater os olhos em Krebs e Dona Juca, ela imediatamente
abriu um sorriso. Ambos os palhaços brincaram de tirar piolhos
e sapos dos cabelos de Jane. Simularam arrancar o "miolo mole" dela. Soltaram
bolhas de sabão pelo quarto. O sorriso de Jane virou uma risada
gostosa e a risada, gargalhada. Depois de conhecer Krebs e Dona Juca,
Jane passou a se alimentar e a dormir melhor. E deixou de esconder-se
debaixo do lençol quando o homem de branco, um doutor de verdade,
chegava para examiná-la. O bom humor não a curou, nem a
curará da doença, mas amenizou sua dor e solidão.
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