Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 708 - 11 de julho de 2001
Geral Especial
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
  Os figurinistas na lista dos bilionários
Pai gay e mãe lésbica
Astros dos rodeios agora têm profissão regular
Fernandinho Beira-Mar não é o número 1
Jim Morrison continua ídolo trinta anos depois da morte
Pesquisador caça genes de tribos isoladas
O ator André Gonçalves arma escândalo no avião
Estudo ensina a envelhecer com saúde
O humor como antídoto de doenças
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

O humor afasta doenças

A medicina agora está estudando
a importância do bom humor e dos
sentimentos positivos na prevenção
e no tratamento de moléstias

Karina Pastore e Cristina Poles

 
Kiko Ferrite

As visitas dos "doutores" Pinduca e Croc aliviaram o stress da internação de Jane, de 9 anos: a pequena passou a se alimentar e a dormir melhor, além de se deixar tratar com mais facilidade


Veja também
O impacto da risada sobre o corpo humano

Não fumar, manter uma alimentação equilibrada e praticar exercícios físicos, já está provado, são medidas que fazem viver mais e melhor. Agora, a medicina estuda a importância do bom humor e dos sentimentos positivos na prevenção de determinadas doenças e até mesmo como fator de recuperação de pessoas vitimadas por moléstias graves. O surradíssimo ditado "rir é o melhor remédio" começa, enfim, a ganhar respaldo científico. Pesquisas recentes comprovam que boas risadas (nada a ver com aquelas que somos obrigados a dar quando o chefe conta uma piada sem graça) podem ter o efeito de uma sessão de ginástica. Protegem o coração, aliviam o stress, fortalecem o sistema imunológico, facilitam a digestão e limpam os pulmões (veja quadro).

A risada é o principal objeto da maioria desses estudos, por se tratar da expressão mais explícita do bom humor e da positividade. Sua interferência no funcionamento do corpo é, portanto, mais fácil de ser medida. "Quando rimos, rimos com o corpo todo", define o psiquiatra americano William Fry, da Universidade Stanford, especialista no assunto. Um dos seus maiores efeitos é reduzir a liberação dos hormônios associados ao stress, o cortisol e a adrenalina. Em excesso, essas substâncias enfraquecem as defesas do organismo e elevam a pressão arterial, criando o cenário para o desenvolvimento de infecções e para um infarto. Um estudo revelador sobre os benefícios do bom humor para a saúde do coração foi conduzido pelo patologista Lee Berk, diretor do Centro de Neuroimunologia da Universidade de Loma Linda, na Califórnia. A equipe do doutor Berk acompanhou durante um ano 100 homens que já haviam enfartado, monitorando diariamente a pressão arterial, as taxas de adrenalina e as doses de medicamentos de cada paciente. Eles foram divididos em dois grupos, dos quais um era obrigado a assistir meia hora por dia a uma comédia televisiva. O resultado foi surpreendente: os que foram submetidos às sessões de risada sofreram menos episódios de arritmia, apresentaram redução na pressão arterial e tiveram de tomar menos remédios contra angina. A recorrência de infarto no grupo dos risonhos foi de 8%. No outro, de 42%.

 
 
ANTES
O desenho acima é de autoria de um menino hospitalizado e foi feito antes de uma visita dos Doutores da Alegria. Ele mostra o garoto na cama, à espera da morte. A mãe também morrerá ao cair do arco de cores escuras
  DEPOIS
Após a passagem dos palhaços, o mesmo menino fez outro desenho. Nele, não há mais condenação à morte: um Super-Homem colorido aparece para salvá-lo da doença, representada pelo gigante de braços estendidos

Um dos últimos trabalhos divulgados a respeito da influência das emoções positivas na saúde é também um dos mais fascinantes. Por quinze anos, desde 1986, o médico David Snowdon, da Universidade de Kentucky, acompanhou 678 freiras, com idade acima de 75 anos. Interessado em estudar o mal de Alzheimer, ele se debruçou sobre a história pessoal e médica de cada uma delas. O ouro da pesquisa, no entanto, estava em 200 diários escritos na época em que as religiosas ainda eram noviças e tinham, em média, 22 anos. Ao analisá-los, Snowdon percebeu que as que utilizavam em seus relatos uma maior quantidade de palavras ligadas a emoções positivas – como "felicidade", "amor", "gratidão" e "esperança" – haviam chegado com mais sáude à velhice do que as que costumavam usar grande número de vocábulos com significados negativos – "tristeza", "indecisão" e "vergonha". As otimistas também se revelaram mais longevas. "A diferença de longevidade variou de seis a dez anos", disse o pesquisador a VEJA. Snowdon concluiu, ainda, que as autoras dos textos mais elaborados, ricos em idéias, vocabulário e conhecimentos gerais, exibiam menor grau de demência senil. Outra prova de que manter-se intelectualmente ativo desde a juventude é uma maneira de evitar doenças cerebrais. Uma atividade mental mais intensa robustece as conexões entre os neurônios e forma novas redes entre eles. Quanto mais densa e maior for essa trama, mais saudável é o cérebro.

As investigações sobre as contribuições do humor para a saúde são relativamente novas – ao contrário dos estudos sobre os efeitos deletérios da tristeza, da angústia e da raiva. Elas têm pouco mais de duas décadas. Desde então, foram publicadas 25 teses realmente abalizadas sobre o assunto, a maior parte nos Estados Unidos. A idéia de que o humor pode servir de tratamento médico, no entanto, é antiqüíssima. Séculos antes de Cristo, era famoso na cidade grega de Atenas o Santuário de Asclépio, um centro em que se misturavam arte, filosofia e medicina. Os doentes que se tratavam ali eram levados a espetáculos musicais, peças de teatro e a uma certa Casa dos Comediantes, onde se deliciavam com piadas. No século XVI, uma das prescrições mais comuns era ler ou ouvir histórias engraçadas. A alegria, defendiam os sábios da época, dilatava e aquecia o organismo. Já a tristeza contraía e esfriava o corpo.

O que parecia quase uma superstição medieval começou a ser levado a sério em 1979, com a publicação do livro Anatomia de uma Doença, escrito pelo editor americano Norman Cousins. Quinze anos antes, ele recebera o diagnóstico de que era portador de uma doença degenerativa que ataca a coluna vertebral. Os médicos lhe deram poucos meses de vida. Depois de passar um tempo no hospital, Cousins decidiu se dar alta, por não suportar o ambiente frio, impessoal e restritivo. Contratou uma enfermeira e se mudou para um bom hotel. Com o corpo quase inteiramente paralisado pela doença, ele recebia todas as tardes visitas de amigos. O seu programa preferido era assistir, junto com eles, a comédias na televisão. Ele se deu conta de que, depois de cada momento agradável, dormia melhor, comia com mais apetite e ganhava ânimo para a fisioterapia. A melhora de Cousins foi espantosa, o que deu origem ao livro. Ele conseguiu uma sobrevida inimaginável – morreu em 1990, aos 75 anos.

Se há um lugar em que se podem medir na prática os benefícios de um estado de espírito mais leve, são os hospitais que abrem suas portas a companhias de palhaços especializados em divertir pacientes infantis. Nos Estados Unidos, há o Big Apple Circus Clown Care Unit. Na França, o Le Rire Médecin. Na Alemanha, o Die Clown Doktoren. No Brasil, o grupo mais famoso é o dos Doutores da Alegria, criado em 1991. Vinte e seis atores profissionais visitam semanalmente duas dezenas de hospitais em São Paulo, Campinas e no Rio de Janeiro. Pelas mãos desses Ph.Ds. em besteirologia já passaram mais de 200 000 crianças doentes, que receberam "transfusão de milk-shake", foram examinadas na "bobografia computadorizada" e submetidas a "extração de mau humor". Essa terapia da risada tem-se mostrado valiosa não só para a recuperação mais rápida dos pequenos como para a manutenção do otimismo entre os médicos e parentes dos internados – o que só ajuda os doentes.

Entre janeiro e outubro de 1997, a psicóloga Morgana Masetti, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, acompanhou o trabalho dos Doutores da Alegria. Entrevistou 45 profissionais de saúde, 38 pais de crianças e noventa meninos e meninas hospitalizados. A cada um desses últimos foi pedido que fizesse dois desenhos – um antes de uma performance dos Doutores da Alegria e outro imediatamente depois. O contraste dos resultados é impressionante. Dos desenhos produzidos após a passagem dos atores brotaram temas alegres, figuras maiores, mais coloridas e nítidas. A psicóloga constatou que as crianças que costumavam ficar prostradas na cama tornaram-se mais ativas e mais receptivas ao tratamento. Para os pais, o sorriso estampado no rosto do filho doente ajudava a relaxar e a diminuir o stress causado pela internação.

Há algumas semanas, VEJA presenciou o trabalho de dois integrantes do grupo Doutores da Alegria no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Transformados nos personagens Krebs Croc e Dona Juca Pinduca, eles quebraram o silêncio sepulcral da enfermaria do 4º andar do hospital. A atriz vestia roupa de bailarina verde, saiote salpicado de strass e um chapéu com passarinhos de madeira. O ator trajava bermuda vermelha, camiseta do Flamengo e meião cor de laranja. Foram direto para o quarto número 6, onde Jane Genoíno Mota, de 9 anos, estava ligada a aparelhos que lhe monitoravam as funções vitais e injetavam remédios pelas veias. Vítima de um disfunção grave na glândula tireóide, a menina se encontrava internada havia dois meses. Ao bater os olhos em Krebs e Dona Juca, ela imediatamente abriu um sorriso. Ambos os palhaços brincaram de tirar piolhos e sapos dos cabelos de Jane. Simularam arrancar o "miolo mole" dela. Soltaram bolhas de sabão pelo quarto. O sorriso de Jane virou uma risada gostosa e a risada, gargalhada. Depois de conhecer Krebs e Dona Juca, Jane passou a se alimentar e a dormir melhor. E deixou de esconder-se debaixo do lençol quando o homem de branco, um doutor de verdade, chegava para examiná-la. O bom humor não a curou, nem a curará da doença, mas amenizou sua dor e solidão.

   
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS