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Edição 1 708 - 11 de julho de 2001
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A maioria já faz essas coisas? Não, não faz, a começar pela acumulação de gordura corporal. Um em cada três brasileiros está acima do peso ideal. A cada década, o peso aumenta cerca de 4%, enquanto a massa muscular reduz-se 5%. O tecido adiposo é uma reserva essencial e sua proporção correta foi estabelecida pelos médicos. No caso das mulheres, a média deve girar em torno de 9% a 20% da massa corporal. No dos homens, de 8% a 18%. Ao se ultrapassarem esses limites, começam os perigos. Adultos que estão 15 quilos acima do peso já têm mais riscos de hipertensão, ataques cardíacos e diabetes do que uma pessoa que está dentro dos padrões. Estudos mostram que basta perder 4 quilos e meio e já se reduzem a níveis normais a pressão sanguínea e o risco de diabetes. O ideal é começar a se preocupar com o peso na adolescência – isso porque, uma vez infladas, as células adiposas nunca voltam inteiramente ao normal. Por isso, são maiores os riscos de uma criança gordinha tornar-se um adulto obeso, ou que vive em regime. A situação complica-se a partir dos 40 anos, quando diminui a capacidade de queima calórica. A fórmula mais recomendada para perder os quilos extras é combinar exercícios com dieta balanceada. Uma alimentação com excesso de açúcares, pães e frituras pode causar doenças como hipertensão e diabetes. Regimes muito pobres em proteínas e fontes de vitaminas, como frutas e legumes, são causas de problemas como osteoporose e doenças típicas da falta de imunidade do organismo. Essas são algumas das poucas certezas da nutrição. Não há consenso médico sobre a dieta ideal.

 
Antonio Milena

SAMANTHA FLOMENBAUM E LUÍS CIOCLER
Desde que se casaram, há cinco anos, adotaram novo estilo de vida. Abandonaram o fumo, fazem ginástica e dieta. "Quando estamos felizes, tudo melhora", diz Samantha

Veja o capítulo das gorduras. Nos últimos vinte anos, a ordem foi evitá-las ao máximo, restringindo o consumo de proteínas, e abusar dos carboidratos. Os argumentos eram que, além de mais calóricas, as gorduras (principalmente as saturadas) provocavam o aumento do colesterol, substância que obstrui as artérias e eleva o risco de infarto. Hoje sabe-se que apenas 15% do colesterol presente no organismo é proveniente da comida. E também que as gorduras podem ser ótimas na prevenção de certas doenças. As do tipo ômega 3, presentes em peixes como o salmão, não só reduzem a formação de coágulos nas artérias que causam o infarto como diminuem o nível de açúcar no sangue, que causa o diabetes. A maioria dos médicos hoje prescreve a dieta mediterrânea como a ideal. Ela é composta de frutas, carnes magras, legumes, grãos e muito azeite de oliva. O otorrino Cassio Antonini, 28 anos, de São Paulo, vivia doente e estressado. Há dois anos decidiu tentar uma reeducação alimentar com a ajuda do irmão, que é nutricionista. Desde então não toma refrigerante, não come molho de tomate nem pizza. Perdeu 10 quilos no primeiro mês, as espinhas do rosto desapareceram, a disposição aumentou e ele dorme melhor.

 
Claudio Rossi

CASSIO ANTONINI
Faz dieta, perdeu 13 quilos e vive menos estressado. "Até as espinhas que tinha no rosto sumiram", conta

Evitar o fumo e o álcool é o fator mais determinante para manter uma boa saúde, mostrou o megaestudo de Boston. Quantidades moderadas de álcool, algo como dois copos de vinho por semana, trazem benefícios ao coração e ao sistema circulatório. Mais do que isso pode ser danoso, principalmente ao fígado e ao cérebro. O fígado não se recupera sozinho e qualquer lesão é irreversível. O cérebro tolera muito menos. Um simples fim de semana de muita bebida extermina alguns neurônios. Mais de 30 milhões de brasileiros fumam, um vício difícil de largar. Os médicos de Boston constataram que sete de cada dez fumantes transformaram-se em velhos muito doentes. O fumo provoca vasoconstrição, formação de placas de gordura, aumento da freqüência cardíaca, da pressão arterial e do colesterol. Toda vez que um fumante acende um cigarro está danificando pelo menos dois sistemas fundamentais do corpo: o respiratório e o circulatório. Uma semana de abstinência do cigarro já produz algum benefício para o sistema cardiovascular. Um ano depois de parar de fumar, o risco de doenças cardíacas cai pela metade. Após cinco anos, a probabilidade de um ex-fumante ter um ataque cardíaco fica bem próxima da que cerca alguém que nunca fumou. Estudo da American Heart Association mostra que quem pára de fumar entre 35 e 39 anos aumenta a expectativa de vida em cinco anos. No sistema respiratório, contudo, os danos são quase irreparáveis. Apesar de o pulmão recuperar a cor natural quando se pára de fumar, isso não significa que todas as células voltarão a ser saudáveis. Até quem deixou de fumar há trinta anos corre maior risco de câncer de pulmão.

 
Zeca Araújo

FELÍCIA KIEPLER
Professora, sente-se melhor hoje, aos 54 anos, do que quando tinha 40. Há três anos, faz caminhadas e musculação. Agora quer mudar os hábitos do resto da família

"Não interessa a idade que você tenha, o importante é dar a reviravolta e mudar de vida", diz o médico João Toniolo, da Universidade Federal de São Paulo. A paulistana Felícia Kiepler, uma professora de inglês de 54 anos, mudou os hábitos de vida há cinco, depois de doar um de seus rins. O corpo de Felícia modificou-se completamente desde que começou a fazer caminhadas e musculação cinco vezes por semana e iniciou uma dieta equilibrada. "Minha forma física está melhor do que quando tinha 40", diz. Da alimentação, cortou carne vermelha e evita doces. Recentemente passou a tomar estrógeno para a reposição hormonal. Sua massa óssea está 22% acima do normal para a idade que tem. O colesterol baixou de 210 para 174. Pesquisas recentes mostram que a musculação pode reverter alguns danos causados pela idade. Em pessoas com mais de 50 anos, restaura a massa óssea perdida, diminui os riscos de artrite e melhora a resistência à insulina, comum a pessoas que têm diabetes tipo 2. Outros estudos apontaram que os maiores beneficiados pela musculação são as pessoas entre 30 e 40 anos. As mais musculosas queimam mais calorias naturalmente. Se junto com a musculação forem feitas atividades aeróbicas de três a cinco vezes por semana, os ganhos são maiores ainda. Quando o coração bate mais rápido, o sangue irriga todo o corpo e a pressão abaixa. Com a melhora do fluxo sanguíneo, o coração precisa fazer menos esforço para bombear o sangue para os órgãos. Bastam algumas horas semanais de exercícios para reduzir a quase zero o risco de desenvolver diabetes. O mais surpreendente é que os benefícios da atividade física aparecem independentemente do peso. Estudos comprovam que homens obesos e ativos têm o mesmo risco de morrer em um período de dez anos do que pessoas magras e ativas.

O executivo Karol Sapiro mudou radicalmente de vida depois de um susto pregado pelo coração, há quinze anos. Tinha 40 anos quando soube ser portador de uma isquemia que poderia matá-lo de uma hora para outra. Começou com caminhadas e acabou se tornando maratonista. Há três anos descobriu que não tinha nada no coração. "Minha vida melhorou tanto que nem penso em abandonar o esporte e a dieta", diz. George Vaillant, o chefe da megapesquisa do Brigham and Women's Hospital, dá outro conselho a quem está preocupado em manter-se jovem por mais tempo. "Fique calmo", recomenda ele. O stress, que tanto atormenta o homem moderno, nem sempre é ruim. Trata-se de uma reação natural de defesa do organismo em situações de tensão. O problema é não conseguir relaxar quando o perigo passa. Experimentos demonstram que entre 10% e 15% dos estressados têm surtos de pânico, 70% sofrem de depressão, 10% podem tornar-se pessoas ansiosas ou com distimia (a doença do mau humor). Sem falar nas probabilidades de desenvolver mais úlceras, infartos, doenças de pele e insônia. As pessoas estão sujeitas ao stress em qualquer fase da vida. Mas são mais vulneráveis na faixa dos 30 aos 50 anos, época em que a luta pelo trabalho e pela estabilização social é maior.

A medicina não conseguiu achar uma receita padrão para manter a calma. Muita gente chegou a isso mudando de profissão, adotando passatempos ou simplesmente mudando de atitude. Márcia de Lucca passou nove anos como vendedora em empresas de exportação, em São Paulo. "Comia mal, tinha colesterol alto e crises de tensão pré-menstrual", diz. Um dia, ela foi fazer um curso de ioga nos Estados Unidos e voltou mudada. Hoje, Márcia é uma das mais requisitadas professoras de ioga de São Paulo. Todos os dias medita e faz sessões de ioga ou caratê e segue uma alimentação naturalista. "Sem falsa modéstia, meu corpo é melhor do que o de muita menininha de 20", diz ela, mãe de duas jovens, de 26 e 28 anos. "Tenho certeza de que a boa saúde vem do fato de ser e não de ter. A filosofia e o estar bem são o que conta."

 

Com reportagem de Bia Barbosa

 

 

   
 
   
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