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Edição 1 708 - 11 de julho de 2001
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Como ser jovem
por mais tempo

O maior estudo já feito sobre
envelhecimento mostra que os
hábitos são decisivos para uma vida
longa e feliz. E que nunca é tarde
para mudar de comportamento e
reparar os estragos do fumo, do
álcool e da vida sedentária

Gabriela Carelli

 
Marcelo Zocchio
KAROL SAPIRO (em pé à dir.)
Executivo de uma multinacional, tinha péssimos hábitos: fumava, era sedentário e vivia estressado. Aos 40 anos, veio a ameaça de um infarto. Hoje, com 55, participa de maratonas

WALDIR SOARES
(em pé à esq.)
Aos 60 anos, nada, corre e faz musculação. Desde que começou a se exercitar, há vinte anos, perdeu 40 quilos. "Antes dava valor a coisas irrelevantes. Era uma vidinha ridícula", avalia

REGINA SALVADORI
(à dir.)
Com 51 anos, cuida-se desde criança. Dançou balé até os 15 anos e sempre fez ginástica. Casada há 29 anos, tem três filhos. "Para viver bem é preciso gostar de si e dos outros", ensina

MÁRCIA DE LUCCA
(à esq.)
Trabalhava com comércio exterior, comia mal e vivia nervosa. Trocou tudo pela ioga e hoje dá aulas em São Paulo. "Com meu guru, Deepak Chopra, aprendi que é melhor ser do que ter", diz

Os médicos sempre falam isso, mas pouca gente dá ouvidos: quem tem hábitos saudáveis não apenas vive por muito mais tempo, mas também vive melhor. A maneira mais precisa de traduzir a expressão "vida saudável" é observar o modo oposto, até perverso, como a maioria das pessoas trata o próprio corpo: come-se demais, bebe-se demais, fica-se estressado demais, enquanto se fazem exercícios e se dorme de menos. O preço desse comportamento fica mais pesado com o correr dos anos e se torna um fardo doloroso na velhice. Quem dá de ombros às advertências médicas e acha que é tarde para consertar o estrago acumulado vai encontrar um bom estímulo nas conclusões do mais longo estudo já realizado sobre envelhecimento. Depois de acompanharem durante sessenta anos um grupo de homens, médicos do Brigham and Women's Hospital, de Boston, nos Estados Unidos, estabeleceram de forma contundente como os bons hábitos contribuem para uma vida mais longa e feliz. O mais animador é a constatação de que nunca é tarde demais para reparar os estragos do fumo, do álcool e da vida sedentária. Veja algumas das conclusões do estudo:

Quem desenvolve bons hábitos desde cedo, pratica exercícios regulares, tem relacionamentos amorosos estáveis, cultiva amizades, evita o fumo, mantém alta atividade mental e dribla o stress com bom humor pode ser dez vezes mais saudável e feliz na terceira idade do que quem não agiu dessa maneira.

O modo como se vive até os 50 anos determina a qualidade de vida depois dos 65.

Evitar fumo e álcool foi o fator mais determinante para uma boa saúde na idade madura. Dois terços dos que fumaram antes dos 50 anos apresentaram problemas físicos e psicológicos depois dos 65.

Dois terços dos homens que demonstraram facilidade para se relacionar socialmente, que eram bem-humorados e otimistas chegaram à terceira idade saudáveis e sem problemas psicológicos (veja mais detalhes).

 
Antonio Milena

FLÁVIA GALLI
Com 30 anos, a estilista se exercita uma hora por dia. Também é adepta das vitaminas. "A ginástica é minha válvula de escape", diz

O estudo é sensacional pela abrangência. Pela primeira vez, pesquisou-se um ciclo completo de vida. Até então, os melhores trabalhos sobre envelhecimento começavam com pessoas entre 50 e 60 anos. Desta vez, foram acompanhados 237 calouros da Universidade Harvard e 332 adolescentes pobres de Boston até a velhice ou a morte. A cada cinco anos, eles passavam por uma avaliação física completa, que incluía raio X, exame sanguíneo e de urina e detectava o aparecimento de doenças. De dois em dois anos, fazia-se uma análise subjetiva para conhecer seus hábitos de vida. Entre os aspectos analisados estavam classe social, coesão da família, depressão, longevidade dos familiares, temperamento durante a infância, abuso de álcool e fumo, estabilidade no casamento, atividades físicas, índice de massa corporal, educação e capacidade de lidar com problemas. Impressiona como o resultado desse megaestudo é coerente com outras quatro dezenas de pesquisas recentes num aspecto importante: o corpo tem uma maravilhosa capacidade de remediar os estragos dos maus hábitos. Desde, evidentemente, que não sejam grandes demais. Os efeitos de alguns abusos – especialmente o do fumo – são difíceis de eliminar. Outros, sobretudo o dano causado ao sistema circulatório pela vida sedentária, melhoram rapidamente.

 
Jonathan Nóbrega

BALDINO NATAL ROSA
Engenheiro civil, com 60 anos, pratica vôo livre há doze. "É disso que tiro a alegria de viver", diz. Além de voar, joga futebol, corre e faz cursos de computação para estimular a mente

Em qualquer caso, existe uma regra básica: quanto antes se começa, melhor o resultado. "Se no primeiro dia dos seus 50 anos você pára de abusar do álcool, deixa de fumar e começa a fazer exercícios, é claro que você melhora sua vida", disse a VEJA o psiquiatra George Vaillant, responsável pela pesquisa do Brigham and Women's Hospital. "Mas não terá o mesmo resultado que obteria se tivesse cuidado da saúde durante toda a vida. É como ter um carro velho. Se você sempre o levou para a manutenção, ele não vai deixá-lo a pé no meio da estrada." Está ao alcance de todos fazer alterações positivas na maneira de viver. A prática da ginástica, por exemplo, está cada vez mais fácil porque as academias aparecem em cada bairro e até nas pequenas cidades do interior. Há no Brasil nada menos que 5.000 academias com mais de 2 milhões de alunos. E, no entanto, sete em cada dez brasileiros são sedentários. Nem sequer gastam a sola do tênis numa caminhada. Quem está nessa categoria tem probabilidade 60% maior de sofrer de hipertensão, o maior fator de risco para doenças cardíacas. É muito simples melhorar essa condição: meia hora de caminhada quatro vezes por semana é suficiente para reduzir consideravelmente os riscos de problemas ligados ao sistema circulatório.

O processo de envelhecimento é inexorável, mas a visão moderna é de que não precisa ser devastador. O corpo humano atinge sua capacidade máxima aos 25 anos. Daí começa a declinar, ainda que as pessoas nessa idade não tenham consciência disso. Depois dos 35 anos, a mudança já é visível: há perda de massa óssea e, nas mulheres, inicia-se a queda hormonal. O metabolismo torna-se mais lento. A partir dos 40 anos, queimam-se menos 120 calorias por dia, tornando o controle de peso mais difícil. Nessa idade, as mulheres aumentam em 35% o índice de gordura no corpo e os homens, em 25%. Depois dos 65 anos a capacidade respiratória diminui até 40%, e a massa muscular, 25%. Bons hábitos não são suficientes para parar o tempo, mas os maus o aceleram drasticamente. A megapesquisa do Brigham and Women's Hospital detectou sete comportamentos sobre os quais é possível ter controle pessoal e que, se adotados antes dos 50 anos, são decisivos para a boa saúde física e mental depois dos 65. São eles: parar de fumar, beber com moderação, controlar o peso, fazer exercícios físicos com regularidade, concluir os estudos, manter um casamento estável e desenvolver um modo eficaz de lidar com o stress.

 



   
 
   
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