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Vexame
no ar
O ator André Gonçalves tumultua
vôo da Varig e reacende discussão
sobre baderna a bordo
Flávia Varella
Fotos André Cypriano/Fotosite
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Os comissários tentam
controlar André: palavrões, cuspe e pouso forçado
com o ator amarrado |
Um
episódio cada vez mais comum para as companhias aéreas teve
um brasileiro como protagonista na semana passada. Bêbado e descontrolado,
André Gonçalves, ator de novelas globais e filmes, tumultuou
o vôo 8864 da Varig, que ia de São Paulo para Nova York na
madrugada da segunda-feira 2 e foi obrigado a fazer escala em Belém
com 264 passageiros e quinze tripulantes a bordo. Para desespero dos tripulantes
dos jatos comerciais, os incidentes envolvendo passageiros violentos estão
aumentando perigosamente. Segundo a Iata, a Associação Internacional
de Transporte Aéreo, o número de problemas com passageiros
a bordo aumentou cinco vezes entre 1994 e 1997, ano em que ocorreram 5.416
casos. Apenas em junho, a Varig registrou dez ocorrências com passageiros
inconvenientes. No mesmo mês do ano passado, foram duas. O ator
André Gonçalves aprontou uma confusão digna de novela
da TV. Cuspiu e deu tapas nos comissários, descobriu Pelé
na primeira classe e tentou beijá-lo na boca, ficou gritando que
o avião ia cair a qualquer momento. Acabou amarrado à poltrona,
deitado, amordaçado e sedado com uma injeção na veia.
Confusões como essa de André podem representar risco para
o vôo, para não falar em prejuízos financeiros. Estima-se
que a Varig tenha gasto cerca de 100.000 dólares só para
remediar o estrago que o ator provocou. O avião MD-11 em que André
deu o vexame teve de jogar no mar 60.000 litros de combustível
para poder aterrissar em Belém, onde o rapaz poderia receber atendimento
médico. Custo: 16.000 dólares. Por causa do atraso na chegada,
a Varig foi obrigada a providenciar novos vôos, hotel, alimentação
e transporte para quem perdeu conexões. Se cerca de 25% dos passageiros
tinham conexões, estima-se que a empresa tenha gasto cerca de 80.000
dólares para resolver seus problemas. Ainda teve de pagar hora
extra aos tripulantes, que tiveram o expediente espichado em quase três
horas.

Por causa da segurança e do dinheiro, a preocupação
é mundial. A Federação Internacional dos Trabalhadores
em Transporte promoveu na sexta-feira passada o segundo dia de ação
contra o comportamento violento dos passageiros aéreos. "Queremos
que os governos e as empresas adotem uma atitude de intolerância
total para com o comportamento agressivo de certos passageiros", explica
Pedro Azambuja, presidente da Federação Nacional dos Aeronautas
e Aeroviários. A Inglaterra seria um exemplo. Lá, uma lei
específica e severa pune com prisão e multa quem perturba
o vôo, e as companhias criaram uma lista negra de passageiros indesejáveis.
Se André Gonçalves tivesse obrigado um avião inglês
a fazer um pouso imprevisto, como fez com o jato da Varig, nunca mais
viajaria em companhia aérea britânica.
Segurança é o principal motivo para a campanha. "É
comum a pessoa descontrolada querer invadir a cabine de comando. Além
disso, toda a tripulação tem funções relativas
a segurança e não pode ficar por conta de um único
passageiro", diz o comandante Ronaldo Jenkins, coordenador de segurança
do sindicato das empresas aéreas. Em março do ano passado,
um passageiro de 39 anos da Alaska Airlines tirou a camisa, ameaçou
matar todos a bordo, forçou a abertura da porta lateral do avião,
atacou o co-piloto na cabine de comando e mexeu nos instrumentos de controle
de vôo. O avião fez um rápido mergulho de nariz até
voltar a ser controlado. "Estamos preocupados também com a segurança
física dos tripulantes e dos passageiros vítimas das agressões",
diz Fernando Vieira, presidente da Associação dos Comissários
da Varig. Há dois anos, o comissário Leonardo Picini foi
mordido ao imobilizar uma passageira em surto psicótico que já
tinha jogado um carrinho de comidas contra uma colega sua e quebrado a
porta do banheiro.
Depois que uma comissária de bordo inglesa foi golpeada por um
passageiro com uma garrafa e recebeu quarenta pontos na cabeça,
o CAA, órgão responsável pela aviação
civil na Inglaterra, decidiu endurecer com os baderneiros aéreos.
Ao pesquisar as causas dos incidentes, descobriu que 64% dos casos são
provocados por pessoas alcoolizadas (veja
quadro ao lado).
É exatamente o caso de André, que começou a dar trabalho
aos comissários pouco depois da decolagem. O ator tomou o vinho
que lhe foi oferecido e ainda se serviu de novos copos sem autorização.
"Dentro do avião, a absorção do álcool pelo
organismo humano é maior e seu efeito, potencializado", afirma
o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Aeroespacial, José
Luiz Madrigrano. Pior ainda quando o excesso de álcool é
combinado a outras substâncias químicas, como no caso de
André Gonçalves, que ingerira um remédio para dormir.
"A altitude, porém, não justifica todos os casos de descontrole.
Contam ainda características de personalidade, o stress do vôo
e outras variáveis", diz o médico Madrigrano. André,
lamentavelmente, também se encaixa nessa análise.
Aos 25 anos, André Gonçalves é um ator experiente.
Começou sua carreira aos 12 anos, quando, ainda favelado, foi descoberto
vendendo pipoca na rodoviária por um diretor de teatro em busca
de capoeiristas para uma peça. Trabalhou em novelas e minisséries
da Globo, fez cinema e teatro, mas é mais conhecido pela invejável
lista de namoradas: Carol Machado, Nathalia Lage, Renata Sorrah, Alessandra
Negrini, Tereza Seiblitz, com quem tem uma filha, e Miriam Rios, que espera
outro rebento seu. Além dessas conquistas amorosas, seu currículo
inclui pelo menos duas brigas feias. Quando fazia um personagem homossexual
na novela A Próxima Vítima, em 1995, meteu-se numa
briga na rua. Alegou que fora vítima de preconceito. No ano passado,
posou para fotos com o maxilar quebrado e hematomas no rosto depois de
uma briga numa churrascaria em Portugal. Por sua mais recente atuação,
desta vez no ar, André Gonçalves acabou transformado em
garoto-propaganda da luta dos aeronautas contra os arruaceiros aéreos.
Com reportagem
de Silvia Rogar
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